MACAÉ — Relatos de moradores e recentes operações das forças de segurança vêm colocando em evidência um problema que ultrapassa o tráfico de drogas e ameaça diretamente a rotina da população de Macaé: a possível interferência de grupos criminosos na prestação de serviços essenciais e em atividades comerciais dentro de comunidades do município.

No Parque Aeroporto, uma operação do 32º Batalhão de Polícia Militar realizada no início de setembro apurou denúncias de que empresas de internet estariam enfrentando restrições para atuar na região. Segundo informações divulgadas após a ação, uma testemunha afirmou aos policiais que outros provedores não estariam “autorizados” a prestar serviços no local.

A investigação também alcançou a comercialização de água mineral. De acordo com informações divulgadas pelo R7 e por veículos locais, policiais apuraram relatos de que comerciantes poderiam estar sendo obrigados a vender apenas determinada marca de água, dentro de regras impostas por criminosos. Quatro pessoas foram levadas à delegacia para esclarecimentos, e materiais relacionados às atividades investigadas foram apreendidos.

Dias depois, outra operação policial no Parque Aeroporto resultou na prisão de um homem investigado por supostamente controlar um esquema de transporte ilegal. Segundo a investigação, motoristas teriam sido ameaçados e obrigados a pagar valores para poder trabalhar na região.

Os episódios reforçam uma preocupação que já existe em outras regiões do Estado do Rio: quando organizações criminosas deixam de atuar apenas no comércio de drogas e passam a interferir em internet, transporte, comércio e outros serviços, o domínio territorial começa a afetar diretamente a liberdade econômica e o cotidiano dos moradores.

Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: onde estão as autoridades políticas de Macaé?

É verdade que o prefeito e os vereadores não comandam a Polícia Civil ou a Polícia Militar. A responsabilidade direta pelas forças estaduais de segurança pertence ao Governo do Estado. Isso, porém, não significa que representantes municipais devam permanecer afastados do debate.

O chefe do Executivo pode cobrar reforço policial, solicitar reuniões institucionais, encaminhar denúncias aos órgãos competentes, fortalecer a Guarda Municipal dentro de suas atribuições e articular ações com os governos estadual e federal.

Os vereadores, por sua vez, possuem instrumentos de fiscalização política, podem realizar audiências públicas, apresentar requerimentos, cobrar informações das autoridades responsáveis e dar visibilidade institucional às denúncias apresentadas pelos moradores.

Por isso, diante da gravidade dos fatos investigados, o silêncio ou a pouca exposição pública sobre o assunto gera questionamentos.

Se moradores relatam medo e dificuldades para acessar serviços, por que essa discussão ainda não ocupa posição central no debate político de Macaé?

Em períodos eleitorais, é comum observar candidatos e lideranças visitando bairros, comunidades e periferias em busca de apoio. A população, entretanto, também tem o direito de perguntar onde estão essas mesmas lideranças quando moradores denunciam ameaças, restrições comerciais ou interferência do crime organizado em serviços básicos.

O enfrentamento ao crime não pode aparecer apenas em discursos genéricos. Ele exige articulação institucional, cobrança permanente e disposição para enfrentar assuntos politicamente desconfortáveis.

Felício Laterça leva tema ao debate público

Entre as vozes políticas que vêm abordando publicamente o avanço do crime organizado está o ex-delegado da Polícia Federal Felício Laterça.

Em manifestação recente publicada em seus canais oficiais, Laterça afirmou ter como compromisso alertar a população e combater o avanço do crime organizado. O posicionamento merece destaque por colocar o problema no centro da discussão pública em um momento no qual operações policiais revelam situações preocupantes em Macaé.

Laterça também possui trajetória ligada diretamente à segurança pública. Antes da atuação política, exerceu o cargo de delegado da Polícia Federal e participou de ações integradas de segurança no município.

Independentemente de divergências partidárias ou eleitorais, levantar publicamente uma discussão dessa gravidade contribui para pressionar as instituições a apresentarem respostas.

Não se pode normalizar o domínio territorial

O ponto central não deve ser apenas quem denuncia, mas aquilo que está sendo denunciado e investigado.

Quando moradores ou comerciantes passam a temer represálias por escolher determinado provedor, vender determinado produto ou exercer uma atividade profissional, não existe apenas um problema de segurança pública. Existe uma ameaça concreta à liberdade da população.

O poder público não pode permitir que áreas da cidade desenvolvam sistemas paralelos nos quais criminosos decidam quais empresas podem funcionar, quais produtos podem ser comercializados ou quem pode trabalhar.

As operações realizadas pelas forças de segurança demonstram que denúncias estão sendo investigadas e que o problema não pode simplesmente ser tratado como boato.

Agora, além da resposta policial, Macaé precisa de uma resposta política clara.

Prefeitura, Câmara Municipal, deputados e demais representantes da cidade precisam dizer publicamente quais providências estão cobrando e quais medidas institucionais estão sendo adotadas para impedir que organizações criminosas ampliem sua influência sobre comunidades.

Porque segurança pública não deveria virar preocupação apenas durante uma operação policial — e muito menos apenas durante uma campanha eleitoral.

Quando o crime organizado tenta ocupar o espaço que deveria pertencer ao Estado, o silêncio das autoridades políticas também precisa ser questionado.