
Lula terminou a disputa com 64.256.232 votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, equivalentes a 48,21%. A diferença de aproximadamente 4,43 milhões de votos encerrou uma campanha que mobilizou milhões de brasileiros e evidenciou a divisão política do país.
O resultado, entretanto, não encerra as discussões sobre os acontecimentos registrados durante a votação. Pelo contrário: episódios envolvendo a circulação de ônibus, a retirada de propaganda política de veículos, a atuação do Supremo Tribunal Federal e a prorrogação do horário de votação exigem esclarecimentos públicos e análise rigorosa.
Para uma parcela expressiva do eleitorado de direita, os acontecimentos do domingo levantaram questionamentos sobre a imparcialidade das instituições e a igualdade de condições entre os eleitores. Essas preocupações precisam ser examinadas à luz de documentos, registros oficiais e provas verificáveis, sem que denúncias ainda não comprovadas sejam tratadas como conclusões definitivas.
A POLÊMICA DOS ÔNIBUS EM SALVADOR
Um dos episódios mais significativos ocorreu em Salvador, na Bahia, onde a disponibilidade do transporte público se transformou em um dos principais assuntos do dia eleitoral.
Durante a votação, houve denúncias de redução da oferta de ônibus e de dificuldades para garantir a circulação normal dos coletivos. O episódio provocou uma reação da Justiça Eleitoral, que determinou medidas para restabelecer a frota e assegurar o transporte dos eleitores.
A controvérsia ganhou novos contornos quando a Prefeitura de Salvador alegou que a retirada de adesivos do Partido dos Trabalhadores colocados em ônibus havia atrasado a saída de veículos das garagens.
Segundo a versão apresentada pelo secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, os adesivos precisaram ser retirados em razão das regras eleitorais. A administração municipal sustentou que os ônibus voltaram a circular normalmente após a determinação da Justiça Eleitoral.
Por outro lado, reportagens publicadas durante o domingo registraram denúncias de trabalhadores do setor rodoviário de que veículos identificados com o número 13 teriam sido impedidos de circular enquanto os adesivos não fossem retirados.
A divergência entre as versões evidencia a necessidade de esclarecer quem determinou os procedimentos, como foram executados e se houve prejuízo efetivo ao deslocamento dos eleitores.
A legislação eleitoral não pode servir de justificativa para impedir o exercício do voto. Da mesma forma, a existência de propaganda irregular em um veículo não elimina a obrigação do poder público de assegurar condições adequadas de transporte no dia da eleição.
O que precisa ser esclarecido é se houve excesso administrativo, falha de planejamento, descumprimento de determinações judiciais ou alguma tentativa de utilizar o transporte público como instrumento de disputa política.
Também é necessário investigar se os adesivos foram colocados por iniciativa de trabalhadores, sindicatos ou outros agentes, em quais circunstâncias isso aconteceu e se a retirada foi realizada de acordo com a legislação.
É importante ressaltar que a existência de adesivos do PT em ônibus não comprova, por si só, a participação do partido em uma eventual irregularidade administrativa. A responsabilização exige a identificação dos envolvidos e a apresentação de provas.
Ainda assim, a ocorrência de uma crise no transporte público justamente no dia em que milhões de brasileiros precisavam se deslocar para votar merece uma explicação detalhada das autoridades responsáveis.
Em uma democracia, o eleitor não pode ser prejudicado por disputas entre partidos, sindicatos, administrações municipais ou órgãos da Justiça.
CRISTIANO ZANIN E A PRORROGAÇÃO DO HORÁRIO DE VOTAÇÃO
O episódio de maior repercussão institucional ocorreu no fim da tarde, quando o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, determinou inicialmente a extensão do horário de votação até as 19h, duas horas além do encerramento previsto.
A decisão atendeu a um pedido relacionado às dificuldades de transporte público enfrentadas por eleitores em diferentes localidades. O argumento apresentado era o de que a redução da oferta de ônibus poderia impedir parte da população de exercer o direito ao voto.
O problema foi o momento em que a determinação chegou.
O horário oficial de encerramento era 17h. A ordem de prorrogação foi anunciada quando o período regular de votação já estava terminando e a Justiça Eleitoral havia começado a receber e processar boletins de urna.
A decisão provocou um impasse operacional. A totalização dos votos foi temporariamente suspensa, enquanto autoridades eleitorais discutiam como cumprir a determinação em locais onde as urnas já haviam sido encerradas.
A situação expôs dificuldades de coordenação entre o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral e levantou dúvidas sobre a segurança jurídica de uma mudança anunciada tão perto do fechamento das seções.
Posteriormente, houve esclarecimento de que a extensão deveria ser aplicada apenas às seções em que a votação ainda não havia sido encerrada. A medida procurou solucionar parte do impasse, mas não eliminou as críticas à condução do episódio.
É nesse contexto que surge a crítica política à atuação do Supremo. Para setores da direita, uma intervenção judicial dessa magnitude, anunciada nos minutos finais da votação, representa um precedente preocupante e precisa ser submetida ao escrutínio público.
A questão central não é negar que todos os brasileiros tenham direito ao voto. Esse direito deve ser protegido independentemente de posição política, renda ou região de residência.
A questão é saber se a solução adotada foi proporcional, tecnicamente viável e compatível com as garantias de previsibilidade e igualdade que devem orientar uma eleição presidencial.
Uma eleição exige regras claras, procedimentos previamente estabelecidos e decisões que possam ser executadas de maneira uniforme. Alterações extraordinárias no encerramento da votação precisam ser acompanhadas de fundamentação transparente e de instruções operacionais inequívocas.
Quando uma decisão judicial interfere no cronograma de uma eleição nacional e interrompe temporariamente a apuração, a sociedade tem o direito de exigir explicações detalhadas.
O eleitor precisa saber por que a decisão foi tomada naquele momento, quais informações estavam disponíveis, quais alternativas foram consideradas e como as autoridades avaliaram os possíveis impactos sobre a votação.
A crítica à atuação de Cristiano Zanin, portanto, deve se concentrar na oportunidade, na fundamentação e nas consequências práticas da decisão. É legítimo questionar a medida sem afirmar, na ausência de provas, que ela tenha sido adotada com a finalidade de favorecer deliberadamente um candidato.
HOUVE UM GOLPE CONTRA A PREVISIBILIDADE ELEITORAL?
A palavra “golpe” passou a ocupar o centro do debate político entre setores que consideraram a prorrogação uma interferência indevida no funcionamento normal da eleição.
Sob uma perspectiva crítica à atuação do Supremo, é possível falar em um golpe contra a previsibilidade institucional ou em uma ruptura preocupante com a normalidade procedimental, desde que fique claro que se trata de uma avaliação política sobre a decisão.
O uso dessa expressão, contudo, não equivale à comprovação de um golpe de Estado, de uma fraude eleitoral ou de uma conspiração para alterar o resultado.
O ponto mais grave é o precedente institucional: até que ponto uma decisão judicial de última hora pode modificar o cronograma de uma votação nacional sem produzir insegurança operacional?
A resposta precisa ser construída a partir dos fundamentos jurídicos da decisão, dos registros de comunicação entre os tribunais e das consequências verificadas nas seções eleitorais.
Também é necessário esclarecer se a medida foi aplicada de maneira uniforme e se todos os tribunais regionais receberam orientações em tempo hábil.
A transparência não pode ser uma exigência reservada às instituições ou aos políticos de quem discordamos. Ela deve valer para todos, inclusive para ministros do Supremo Tribunal Federal.
A democracia não se fortalece quando decisões controversas são protegidas de críticas. Ela se fortalece quando autoridades apresentam fundamentos, prestam contas e aceitam o exame público de suas ações.
Para a direita brasileira, a discussão sobre os limites da atuação do STF permanece essencial. A defesa do Estado de Direito pressupõe que nenhum poder esteja acima da Constituição e que decisões com repercussão nacional possam ser questionadas pelos meios legais e institucionais adequados.
A VOTAÇÃO NO NORDESTE E A AMPLIAÇÃO DA VANTAGEM PETISTA
Outro aspecto que merece análise é o desempenho de Lula no Nordeste, região que historicamente apresenta forte apoio eleitoral ao Partido dos Trabalhadores.
A concentração de votos em determinada região não representa, por si só, uma irregularidade. Milhões de brasileiros escolhem seus candidatos com base em experiências pessoais, políticas públicas, identificação partidária, expectativas econômicas e avaliação dos governos.
É legítimo, entretanto, examinar como o resultado regional contribuiu para a diferença nacional entre Lula e Flávio Bolsonaro.
A alegação de que Lula teria ultrapassado 71% dos votos em determinados locais precisa ser acompanhada da identificação exata do estado, município ou conjunto de municípios a que o percentual se refere. Não se deve confundir um resultado regional ou municipal com o desempenho do candidato em todo o Nordeste.
Também é necessário comparar os números do segundo turno com os do primeiro, considerando o eleitorado de cada localidade, a participação, os votos válidos e a distribuição entre os candidatos.
O resultado nacional mostra que Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 48,21%. Esses números demonstram uma disputa competitiva, embora decidida em favor do candidato petista.
A ampliação ou redução da vantagem entre os turnos deve ser demonstrada com dados oficiais e comparações equivalentes. A análise precisa considerar não apenas o percentual de votos, mas também o número absoluto de eleitores e as mudanças na participação.
Nesse cenário, é necessário distinguir a crítica às políticas do governo Lula de uma acusação de compra de votos.
A compra de votos é uma conduta grave, sujeita a responsabilização eleitoral e criminal quando os requisitos legais são preenchidos. Porém, um resultado expressivo em regiões mais pobres não constitui prova de compra de votos.
Para sustentar uma denúncia dessa natureza, seriam necessárias evidências concretas, como registros de pagamentos vinculados ao voto, depoimentos verificáveis, documentos, investigações oficiais ou outros elementos que indiquem a prática ilícita.
É legítimo questionar se programas sociais foram utilizados eleitoralmente, investigar eventuais abusos de poder econômico ou político e cobrar fiscalização rigorosa sobre a atuação de agentes públicos.
O que não é correto é presumir que eleitores nordestinos venderam seus votos simplesmente porque escolheram Lula.
O eleitor mais pobre tem a mesma liberdade política que qualquer cidadão de alta renda. Uma crítica consistente à esquerda deve questionar políticas, resultados e práticas concretas, sem transformar uma região inteira em alvo de suspeitas.
DENÚNCIAS SOBRE IDOSOS E O EXERCÍCIO DO VOTO
Outro tema que merece atenção são os vídeos que circulam nas redes sociais e que, segundo relatos de seus divulgadores, mostrariam pessoas acompanhando idosos até as urnas durante a votação.
As publicações levantam questionamentos sobre a possibilidade de eleitores terem recebido auxílio indevido, sofrido constrangimento ou tido sua liberdade de escolha comprometida.
Em uma das alegações, pessoas supostamente identificadas com símbolos do PT apareceriam acompanhando idosos e interferindo no momento de registrar o voto.
Essas imagens precisam ser examinadas individualmente. É indispensável verificar a data, o local, a identidade dos envolvidos, a sequência completa dos acontecimentos e a existência de registros oficiais ou testemunhas independentes.
Um vídeo isolado, sem contexto suficiente, não permite concluir automaticamente que houve crime eleitoral ou que a conduta foi coordenada por um partido político.
A legislação brasileira assegura o caráter secreto do voto e protege a liberdade de escolha do eleitor. Qualquer tentativa comprovada de constranger alguém, manipular sua decisão ou interferir ilegalmente no registro do voto deve ser investigada.
A situação dos idosos exige cuidado especial, mas também respeito à autonomia individual.
A idade avançada não significa, por si só, incapacidade cognitiva ou impossibilidade de decidir livremente. Muitos idosos votam de forma independente e consciente, enquanto outros podem precisar de assistência em razão de limitações físicas ou de outras circunstâncias.
É fundamental distinguir o auxílio legítimo de uma interferência indevida.
Se uma pessoa precisa de ajuda para se locomover, isso não significa que alguém possa decidir por ela em quem votar. Da mesma forma, uma dificuldade física não autoriza presumir que o idoso seja incapaz de compreender suas escolhas.
Caso um vídeo mostre alguém segurando a mão de um eleitor e pressionando teclas da urna em seu lugar, o episódio deve ser investigado para determinar se houve autorização, assistência permitida, constrangimento ou substituição indevida da vontade do votante.
Se houver prova de que uma pessoa impôs um voto, explorou a vulnerabilidade de um eleitor ou violou o segredo da votação, as autoridades deverão avaliar as responsabilidades cabíveis.
O mesmo rigor deve ser aplicado independentemente do partido supostamente envolvido.
Não é suficiente que uma pessoa use uma camisa vermelha, um adesivo do PT ou qualquer outro símbolo político para que sua responsabilidade criminal esteja automaticamente demonstrada.
É preciso identificar a conduta concreta e estabelecer os elementos necessários à responsabilização.
Por isso, os vídeos divulgados nas redes sociais devem ser preservados em sua versão original e encaminhados às autoridades eleitorais e policiais quando houver indícios consistentes de irregularidade.
A investigação precisa estabelecer onde os fatos aconteceram, quem participou, se houve coação, qual foi a situação do eleitor e se a liberdade de voto foi efetivamente violada.
Caso as denúncias sejam confirmadas, a gravidade será evidente: nenhum partido, militante ou agente público pode se apropriar da vontade de um cidadão vulnerável.
A urna pertence ao eleitor. O voto pertence ao eleitor. E a escolha deve ser livre.
A ABSTENÇÃO E A PARTICIPAÇÃO DOS BRASILEIROS
O segundo turno também foi marcado por uma redução significativa da abstenção.
Segundo o balanço divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral, a taxa ficou em aproximadamente 19,22%, abaixo dos 21,08% registrados no primeiro turno.
Foi o menor índice de abstenção em um segundo turno presidencial desde 2006, segundo levantamento publicado pela imprensa.
O comparecimento maior é um dado importante porque demonstra que uma parcela expressiva de eleitores que não haviam comparecido na primeira votação decidiu participar da decisão final.
Esse aumento não pode ser atribuído automaticamente a um único partido, a uma medida judicial ou a uma suposta irregularidade. Para compreender suas causas, seria necessário analisar os dados por estado, município e perfil de participação, além de considerar as circunstâncias específicas do domingo.
A redução da abstenção torna ainda mais importante esclarecer as dificuldades de transporte relatadas em diferentes localidades.
Se houve eleitores prejudicados pela falta de ônibus, é necessário identificar quantos foram afetados, onde ocorreram os problemas e quais providências foram tomadas para garantir o acesso às urnas.
Também é necessário verificar se as medidas adotadas foram suficientes e se a decisão de prorrogar a votação efetivamente ampliou as oportunidades de participação sem criar novos problemas operacionais.
O direito ao voto não pode depender da disponibilidade de recursos financeiros para pagar uma corrida particular ou contratar transporte alternativo.
Por outro lado, a garantia desse direito precisa ocorrer por meio de procedimentos claros, planejados e compatíveis com as regras eleitorais.
A redução da abstenção é um dado positivo para a participação democrática. Isso não impede que se investiguem as falhas ocorridas durante o processo.
A defesa da participação popular e a cobrança de responsabilidade institucional são perfeitamente compatíveis.
A RESPONSABILIDADE DAS INSTITUIÇÕES E A NECESSIDADE DE INVESTIGAÇÃO
O conjunto de acontecimentos do domingo exige uma resposta institucional que vá além de notas breves e declarações políticas.
O Tribunal Superior Eleitoral deve esclarecer os procedimentos adotados após a decisão de Cristiano Zanin, incluindo a comunicação com os tribunais regionais e os critérios utilizados para determinar quais seções poderiam continuar recebendo votos.
A Justiça Eleitoral também deve apresentar informações sobre as ocorrências relacionadas ao transporte público, respeitando o andamento das investigações e a presunção de inocência dos envolvidos.
As autoridades responsáveis pela mobilidade urbana precisam explicar por que houve dificuldades na circulação de coletivos, quais medidas foram adotadas e se as decisões administrativas respeitaram as determinações judiciais.
Quanto às denúncias de coação de idosos e de interferência no voto, cabe às autoridades verificar as imagens, ouvir testemunhas e estabelecer se houve infração eleitoral ou criminal.
A sociedade também precisa ter acesso a informações confiáveis sobre eventuais procedimentos instaurados e seus desdobramentos, observados os limites legais de cada investigação.
Não se deve presumir que toda denúncia seja verdadeira. Mas também não se deve descartar uma denúncia relevante apenas porque ela envolve um grupo político com o qual determinada autoridade simpatiza.
O mesmo princípio vale para as acusações contra integrantes da direita.
Uma democracia sólida exige que as regras sejam aplicadas de maneira imparcial, com provas, contraditório e possibilidade de defesa.
O respeito às instituições não significa concordar automaticamente com todas as decisões de seus integrantes. Significa exigir que elas atuem dentro dos limites de suas competências e que prestem contas quando suas decisões produzem consequências relevantes para a sociedade.
UMA VITÓRIA ELEITORAL NÃO ENCERRA O DEBATE
A reeleição de Lula encerra a disputa nas urnas, mas não elimina as divergências políticas que marcaram a campanha.
Os quase 60 milhões de votos recebidos por Flávio Bolsonaro demonstram a dimensão do eleitorado que escolheu uma alternativa ao projeto petista.
Esse contingente de brasileiros tem o direito de cobrar explicações, fiscalizar o governo e questionar decisões que considere inadequadas.
A oposição precisa exercer seu papel com firmeza, investigando possíveis irregularidades, acompanhando as decisões judiciais e exigindo transparência no uso dos recursos públicos.
Também precisa apresentar argumentos sustentados em dados e provas. Acusações graves sem comprovação podem comprometer a credibilidade de denúncias legítimas e dificultar a identificação de responsabilidades reais.
Para os eleitores contrários ao governo Lula, o resultado representa a continuidade de um projeto político que deve ser submetido a uma fiscalização rigorosa, especialmente em áreas como economia, segurança pública, gastos governamentais, políticas sociais e relações institucionais.
A crítica ao PT não depende de transformar todo voto recebido pelo partido em suspeita de fraude. Ela pode se apoiar na avaliação das políticas públicas, nas promessas de campanha, nos resultados econômicos e na atuação dos governantes.
Da mesma maneira, a crítica ao Supremo Tribunal Federal precisa se concentrar nos limites constitucionais, na fundamentação das decisões e na necessidade de preservar a previsibilidade das regras eleitorais.
O episódio envolvendo Cristiano Zanin merece debate público justamente porque decisões judiciais tomadas em momentos críticos podem afetar a confiança da população no funcionamento das instituições.
Se houve falha de coordenação, ela precisa ser reconhecida. Se houve erro de avaliação, ele precisa ser corrigido. Se houve alguma ilegalidade, ela precisa ser apurada pelos meios adequados.
Nenhuma autoridade deveria considerar a fiscalização pública uma ameaça à democracia.
QUASE R$ 400 BILHÕES EM PROMESSAS: QUEM VAI PAGAR A CONTA DE LULA?
Uma das questões mais importantes a serem debatidas após a eleição é o custo das políticas econômicas, dos benefícios sociais e das promessas anunciadas pelo governo Lula durante o segundo turno.
Na reta final da campanha, o governo intensificou o discurso de ampliação de benefícios e apresentou propostas que, na avaliação de seus críticos, levantam questionamentos sobre o uso eleitoral da máquina pública e a sustentabilidade das contas públicas.
Entre as medidas e propostas que precisam ser examinadas estão iniciativas relacionadas ao transporte público gratuito, à ampliação de benefícios e a outras vantagens apresentadas ao eleitorado em um momento decisivo da disputa presidencial.
A crítica é direta: até que ponto essas medidas foram planejadas para atender às necessidades permanentes da população e até que ponto foram utilizadas como instrumentos de campanha?
A questão ganha ainda mais importância diante da alegação de que os custos associados às medidas, promessas e iniciativas do período eleitoral poderiam se aproximar de R$ 400 bilhões. Esse valor, porém, precisa ser acompanhado de um levantamento discriminado, que identifique os programas, os gastos efetivamente realizados, as despesas futuras e as medidas apenas anunciadas. Sem essa demonstração, não é possível afirmar que todo esse montante tenha sido gasto para garantir a reeleição.
O problema fiscal, entretanto, não pode ser ignorado.
Benefícios sociais podem ser necessários, e políticas públicas bem planejadas podem melhorar a vida de milhões de brasileiros. O que precisa ser questionado é a responsabilidade com que essas medidas são financiadas, sua sustentabilidade ao longo do tempo e a possibilidade de terem sido utilizadas com finalidade predominantemente eleitoral.
Promessas de transporte gratuito, expansão de subsídios e ampliação de benefícios precisam vir acompanhadas de respostas objetivas: quem financiará essas iniciativas? Qual será o impacto sobre o orçamento? Haverá aumento de impostos, maior endividamento público ou redução de recursos destinados a outras áreas?
A gratuidade para o usuário não significa ausência de custos. Alguém terá de pagar pela operação, pela manutenção e pelos serviços oferecidos. Quando o governo anuncia uma medida sem explicar adequadamente sua fonte de financiamento, o cidadão tem o direito de exigir transparência.
E é justamente aqui que começa a cobrança sobre o presidente reeleito.
Lula conseguiu convencer milhões de brasileiros com promessas e anúncios de benefícios. Mas, agora que a eleição terminou, quem pagará essa conta?
Será o contribuinte, por meio de mais impostos? Será o trabalhador, que já enfrenta o custo de vida? Será o empresário, pressionado pela carga tributária? Ou será a própria população, por meio de uma dívida pública maior e de juros elevados?
O Brasil não pode viver permanentemente de anúncios bilionários, programas sem financiamento claramente demonstrado e promessas que transferem os custos para o futuro.
O país enfrenta desafios fiscais relevantes, uma dívida pública que exige atenção e uma população que continua cobrando melhorias na saúde, na segurança, na educação e na infraestrutura. Diante desse cenário, a responsabilidade orçamentária não pode ser tratada como um detalhe secundário.
A oposição tem o dever de cobrar a divulgação dos custos efetivos das medidas anunciadas durante a campanha, os respectivos impactos fiscais e as fontes de financiamento. Também deve exigir que eventuais indícios de abuso de poder político ou econômico sejam encaminhados às autoridades competentes.
A pergunta que fica é simples: se houve uma expansão expressiva de despesas e compromissos na reta final da eleição, qual será o preço dessa estratégia para o Brasil nos próximos anos?
Lula foi reeleito, mas a conta pública continua existindo. E, ao contrário das promessas de campanha, ela não desaparece depois da apuração dos votos.
O governo precisa apresentar números, explicar suas escolhas e demonstrar como pretende financiar os compromissos assumidos. O contribuinte brasileiro merece saber quanto custaram as medidas, quem se beneficiou delas e quais serão suas consequências para o orçamento.
Porque, no fim das contas, dinheiro público não nasce em campanha eleitoral. Ele sai dos impostos pagos pela sociedade, do endividamento que compromete o futuro ou dos recursos que deixam de ser aplicados em outras prioridades.
CONCLUSÃO: TRANSPARÊNCIA, LIBERDADE DE VOTO E RESPEITO AO ELEITOR
As eleições de 25 de outubro de 2026 deixaram questões importantes para a democracia brasileira.
A controvérsia sobre os ônibus em Salvador, a retirada de adesivos políticos dos coletivos, a prorrogação do horário de votação por decisão de Cristiano Zanin e a suspensão temporária da totalização exigem esclarecimentos completos.
As denúncias divulgadas nas redes sociais sobre possíveis interferências no voto de idosos também precisam ser examinadas com seriedade, sem prejulgamento e com a apresentação de provas.
A alegação de compra de votos no Nordeste, por sua vez, não pode ser considerada comprovada apenas com base no desempenho eleitoral de Lula. É necessário identificar fatos específicos e evidências que sustentem uma investigação.
A redução da abstenção demonstra uma participação expressiva dos brasileiros, mas não elimina a obrigação de esclarecer eventuais falhas ocorridas durante a votação.
Para os cidadãos de direita que se opõem ao governo Lula, a resposta aos acontecimentos não deve ser o silêncio nem a aceitação automática das explicações oficiais. Deve ser a cobrança firme de transparência, a fiscalização das instituições e a exigência de investigações independentes quando existirem indícios concretos de irregularidades.
O Brasil precisa de uma Justiça Eleitoral capaz de proteger o direito ao voto sem produzir insegurança jurídica, de um Supremo Tribunal Federal consciente dos limites de sua atuação e de partidos que respeitem a liberdade de escolha dos cidadãos.
A democracia não pertence ao PT, ao PL, ao Supremo ou ao Tribunal Superior Eleitoral. Pertence aos brasileiros.
E é justamente por isso que toda denúncia consistente deve ser investigada, toda decisão controversa deve poder ser questionada e todo eleitor deve ter garantido o direito de escolher livremente seu candidato.
A eleição terminou. O dever de fiscalizar o poder, cobrar transparência e defender a liberdade de voto continua.
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