Por Tio Marcílio | Colunista — Educação e Sociedade

Muito se fala sobre a importância da escola em tempo integral no Brasil. Governos anunciam investimentos, gestores apresentam projetos e a ampliação do horário escolar é frequentemente divulgada como um grande avanço para a educação. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita com seriedade: estamos oferecendo educação integral de verdade ou apenas mantendo nossas crianças mais tempo dentro das escolas?

Essa é uma reflexão que precisa envolver professores, gestores, famílias e, principalmente, o poder público.

Afinal, uma escola integral não pode ser simplesmente aquela em que o aluno entra pela manhã, almoça, passa a tarde realizando atividades repetitivas e retorna para casa cansado, sem ter vivido experiências que realmente contribuam para seu desenvolvimento.

Escola integral de verdade não é depósito de crianças. É um espaço de oportunidades, descobertas, conhecimento e formação humana.

Mais tempo na escola não significa, necessariamente, mais aprendizagem

É importante reconhecer que ampliar o tempo de permanência dos estudantes nas escolas pode representar um avanço significativo, especialmente para famílias que precisam trabalhar e encontram na instituição escolar um ambiente de proteção, alimentação e desenvolvimento para seus filhos.

Entretanto, o aumento da jornada precisa vir acompanhado de planejamento pedagógico, infraestrutura adequada e profissionais preparados.

As diretrizes nacionais para a educação integral em tempo integral estabelecem uma jornada mínima de sete horas diárias ou 35 horas semanais. Mas também ressaltam a necessidade de desenvolver os estudantes em suas dimensões intelectual, física, emocional, social e cultural.

Isso significa que cumprir o relógio não é suficiente.

Uma educação verdadeiramente integral precisa oferecer experiências diferentes daquelas tradicionalmente encontradas nas salas de aula. O estudante deve ter oportunidades de explorar seus talentos, desenvolver habilidades, descobrir interesses e compreender melhor o mundo em que vive.

Não adianta aumentar o tempo de permanência na escola se continuarmos oferecendo mais do mesmo.

Robótica, tecnologia, esporte, cultura e cidadania precisam fazer parte dessa transformação

Imagine uma escola em que o aluno tenha acesso não apenas à Matemática, Língua Portuguesa, Ciências e História, mas também à robótica educacional, programação, informática, música, teatro, dança, esportes, educação financeira e projetos de empreendedorismo.

Uma escola onde as crianças possam construir pequenos robôs, desenvolver projetos científicos, produzir vídeos, conhecer profissões, participar de atividades culturais e descobrir habilidades que talvez jamais fossem identificadas em uma rotina exclusivamente tradicional.

Isso é ampliar horizontes!

A educação integral deve despertar a curiosidade, estimular o raciocínio, desenvolver a criatividade e ensinar o estudante a trabalhar em equipe.

E não podemos esquecer de algo fundamental: educar também é ensinar respeito, responsabilidade, empatia, disciplina e convivência em sociedade.

Não estamos formando apenas futuros profissionais. Estamos formando cidadãos que, amanhã, tomarão decisões importantes para suas famílias, comunidades e para o próprio país.

E os professores? Quem cuida de quem educa?

Existe outro ponto que não pode ficar de fora dessa discussão: a valorização dos profissionais da educação.

É muito fácil elaborar projetos em gabinetes e anunciar novas propostas pedagógicas. Difícil é garantir que essas iniciativas cheguem às escolas acompanhadas das condições necessárias para funcionar.

Não podemos exigir inovação de professores que não recebem formação adequada, materiais suficientes ou tempo para planejar suas atividades.

A escola integral exige uma equipe multidisciplinar, professores capacitados, acompanhamento pedagógico, profissionais de apoio e uma gestão comprometida com resultados educacionais.

Também exige respeito à saúde física e emocional dos educadores.

Porque não existe educação de qualidade sem profissionais valorizados.

A estrutura escolar precisa acompanhar o discurso

Outra questão fundamental é a infraestrutura.

Uma escola integral precisa ter espaços adequados para alimentação, higiene, descanso, lazer e aprendizagem.

Bibliotecas, laboratórios, espaços esportivos, salas climatizadas quando necessário, equipamentos tecnológicos e ambientes acessíveis não podem ser tratados como luxos.

São condições importantes para que o estudante permaneça durante tantas horas em um ambiente saudável e estimulante.

Também é necessário garantir alimentação de qualidade, água potável, segurança e acompanhamento das necessidades individuais dos alunos.

Principalmente entre as crianças menores, o tempo destinado ao descanso e às brincadeiras precisa ser respeitado.

A infância não pode ser transformada em uma rotina exaustiva de obrigações.

Uma criança precisa aprender, mas também precisa brincar, descansar, socializar e simplesmente ser criança.

A família não pode ser substituída pela escola

É importante deixar claro que a escola integral não deve retirar das famílias sua responsabilidade na formação dos filhos.

A escola ensina, orienta, acolhe e contribui para o desenvolvimento. Mas valores familiares, acompanhamento dos estudos, diálogo e participação dos responsáveis continuam sendo fundamentais.

Educação é uma construção coletiva.

A família precisa compreender o projeto pedagógico, participar das decisões e acompanhar a evolução dos estudantes.

Uma escola integral eficiente não afasta os pais. Pelo contrário, aproxima a comunidade escolar e fortalece os vínculos entre todos os envolvidos.

Precisamos de resultados, não apenas de propaganda

Defendo a ampliação da educação integral, desde que seja realizada com responsabilidade, qualidade e compromisso verdadeiro com a aprendizagem.

O Brasil não precisa apenas de mais placas inauguradas, fotografias de autoridades ou discursos comemorando o aumento de matrículas.

Precisa de escolas funcionando, crianças aprendendo, professores respeitados e oportunidades chegando também às comunidades mais carentes.

É fundamental acompanhar os resultados, ouvir os estudantes, avaliar as dificuldades e corrigir aquilo que não está funcionando.

Não basta informar quantas crianças estão matriculadas em tempo integral. Precisamos saber quantas estão realmente aprendendo, desenvolvendo habilidades e construindo perspectivas para o futuro.

O sucesso de uma escola não deve ser medido apenas pela quantidade de horas que o aluno permanece dentro dela, mas pela qualidade da educação que recebe durante esse período.

A reflexão do Tio Marcílio

Quero deixar uma reflexão aos gestores públicos, educadores e famílias.

Quando falamos em escola integral, precisamos compreender que estamos lidando com vidas, sonhos e futuros.

Cada criança que entra em uma escola carrega consigo um universo de possibilidades. Algumas descobrirão talentos para a ciência, outras para as artes, para o esporte, para a tecnologia ou para tantas outras áreas.

O nosso papel como educadores é ajudar essas crianças a enxergarem caminhos que talvez ainda não consigam imaginar.

A escola precisa ser um lugar onde o estudante tenha prazer em aprender, onde suas perguntas sejam valorizadas e onde o conhecimento faça sentido para a sua realidade.

Não quero uma escola onde a criança apenas passe o dia. Quero uma escola onde cada dia faça diferença na vida dessa criança.

Porque educação integral de verdade não significa simplesmente oferecer mais horas de aula.

Significa oferecer mais conhecimento, mais oportunidades, mais acolhimento, mais experiências e, acima de tudo, mais possibilidades de construir um futuro melhor.

E fica a pergunta: queremos apenas crianças dentro das escolas por mais tempo ou queremos crianças verdadeiramente preparadas para a vida?

A resposta a essa pergunta definirá o futuro da nossa educação.

Por Tio Marcílio Colunista | Educação, Tecnologia e Sociedade