O Brasil enfrenta um cenário preocupante de crescimento dos feminicídios. Dados atualizados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram que, entre 2022 e 2025, 5.990 mulheres foram assassinadas em crimes classificados como feminicídio, revelando uma trajetória contínua de alta nos últimos quatro anos.

A série histórica mais recente aponta que foram registrados 1.455 feminicídios em 2022, número que passou para 1.475 em 2023 e chegou a 1.492 em 2024. Em 2025, o país atingiu um novo recorde: 1.568 mulheres vítimas, equivalente a mais de quatro mortes por dia.

Considerando os números revisados do FBSP, houve um crescimento de aproximadamente 7,8% entre 2022 e 2025. Somente na comparação entre 2024 e 2025, o Fórum aponta aumento de 4,7%, fazendo de 2025 o pior ano da série iniciada após a criação da legislação específica sobre feminicídio.

Violência cresce mesmo com queda geral dos homicídios

Um dos aspectos que mais chamam atenção é que a escalada dos feminicídios ocorre em sentido contrário ao comportamento geral das mortes violentas no país.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 mostra que o Brasil registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, queda de 8,2% na comparação com 2024 e o menor patamar da série histórica iniciada em 2012. Ao mesmo tempo, crimes relacionados à violência de gênero e doméstica continuaram avançando.

Os números reforçam que a redução dos homicídios em geral não significa, necessariamente, maior segurança para as mulheres dentro de seus relacionamentos e residências.

Evolução dos feminicídios nos últimos quatro anos

2022 — 1.455 vítimas 2023 — 1.475 vítimas 2024 — 1.492 vítimas 2025 — 1.568 vítimas

Total no período: 5.990 mulheres mortas.

Desde 2015, quando o feminicídio passou a ser reconhecido especificamente pela legislação brasileira, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas em razão da condição de mulher até o fim de 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Maioria é morta dentro de casa

O perfil das vítimas ajuda a dimensionar a gravidade da violência doméstica. Dados referentes a 2024 apontam que 63,6% das vítimas de feminicídio eram mulheres negras e 70,5% tinham entre 18 e 44 anos.

Outro dado especialmente preocupante é a relação entre vítima e agressor: oito em cada dez mulheres foram mortas por companheiros ou ex-companheiros. Além disso, 64,3% dos feminicídios aconteceram dentro da própria residência da vítima e 97% das mulheres foram assassinadas por homens.

Os indicadores demonstram que, em grande parte dos casos, o perigo não está em um agressor desconhecido, mas em pessoas que mantiveram ou ainda mantêm relações íntimas com a vítima.

Tentativas de feminicídio também aumentaram

A violência letal representa apenas uma parcela de um problema mais amplo. Em 2024, o Brasil registrou 3.870 tentativas de feminicídio, crescimento de 19% em apenas um ano.

No mesmo período, foram registrados 51.866 casos de violência psicológica, 95.026 ocorrências de perseguição — o chamado stalking — e mais de 1 milhão de acionamentos da Polícia Militar pelo telefone 190 relacionados à violência doméstica.

As estatísticas também revelam fragilidades na proteção das vítimas. Em 2024, foram concedidas 555.001 medidas protetivas de urgência, mas mais de 101 mil registros de descumprimento dessas determinações chegaram às autoridades.

Legislação ficou mais rigorosa

Em outubro de 2024, a Lei nº 14.994 promoveu uma importante mudança no Código Penal e transformou o feminicídio em crime autônomo.

A legislação estabeleceu pena de 20 a 40 anos de prisão para quem matar uma mulher em contexto de violência doméstica e familiar ou por menosprezo ou discriminação à condição feminina. A pena ainda pode ser ampliada em determinadas circunstâncias, como quando o crime ocorre diante dos filhos da vítima ou durante o descumprimento de uma medida protetiva.

Apesar do endurecimento da legislação, a manutenção da trajetória de crescimento mostra que o desafio brasileiro vai além do aumento das penas.

Um crime que muitas vezes começa antes da morte

Especialistas em segurança pública chamam atenção para o fato de que o feminicídio geralmente representa o estágio final de um histórico de agressões, ameaças, perseguições, violência psicológica e controle sobre a vítima.

Por isso, a prevenção depende da capacidade do poder público de identificar situações de risco antes que a violência chegue ao ponto extremo.

A ampliação das delegacias especializadas, casas de acolhimento, canais de denúncia, monitoramento de agressores, fiscalização das medidas protetivas e atendimento rápido às vítimas é apontada como essencial para interromper ciclos de violência.

Os próprios dados mostram que parte significativa desses assassinatos ocorre dentro de relações afetivas e no ambiente doméstico, onde muitas mulheres permanecem expostas ao agressor.

Brasil chega a 2026 diante de um grave alerta

O crescimento registrado entre 2022 e 2025 transforma o feminicídio em um dos principais desafios da segurança pública brasileira.

Enquanto os indicadores gerais de homicídios apresentam redução, as mortes de mulheres motivadas por violência doméstica ou por sua condição de gênero continuam avançando.

Os quase 6 mil feminicídios contabilizados em apenas quatro anos representam mais do que uma estatística. São milhares de famílias afetadas e casos que, muitas vezes, foram precedidos por sinais de violência.

O recorde registrado em 2025 reforça a necessidade de transformar medidas legais em proteção efetiva, principalmente para mulheres que já denunciaram seus agressores ou vivem em situações conhecidas de violência.

Sem uma rede capaz de agir antes que ameaças e agressões se transformem em mortes, o Brasil continuará enfrentando um cenário no qual, em média, mais de quatro mulheres são assassinadas por dia em casos classificados como feminicídio.