A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal ganhou um novo e grave capítulo. Os ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques procuraram o presidente do STF, Edson Fachin, para relatar o que classificaram como uma “perseguição inadmissível” atribuída à estrutura de inteligência da Polícia Federal durante a gestão do diretor-geral Andrei Rodrigues.

A informação foi divulgada pelo jornalista Claudio Dantas, segundo quem Fux e Nunes Marques teriam manifestado preocupação não apenas com informações relacionadas aos próprios ministros, mas também com possíveis levantamentos envolvendo seus familiares.

Segundo o relato publicado, os dois ministros afirmaram ter recebido recados indiretos de que suas vidas pessoais e as atividades profissionais de seus filhos, que atuam como advogados, poderiam ser devassadas caso manifestassem apoio ao ministro André Mendonça. Até o momento, não foram apresentadas publicamente provas que confirmem a autoria desses supostos recados ou que demonstrem que eles tenham partido oficialmente da Polícia Federal.

Suspeita de informações repassadas à imprensa

Fux e Nunes Marques também teriam levantado a suspeita de que reportagens contendo informações sobre clientes de escritórios ligados aos seus filhos possam ter sido abastecidas por dados obtidos por uma suposta estrutura paralela de inteligência.

No caso de Rodrigo Fux, filho de Luiz Fux, foram citadas reportagens envolvendo a atuação de seu escritório de advocacia. Já em relação a Kevin de Carvalho Marques, filho de Nunes Marques, vieram a público informações envolvendo sua atividade profissional e relações comerciais de clientes.

A existência dessas reportagens, porém, não comprova que os dados tenham sido fornecidos ilegalmente pela Polícia Federal, ponto que permanece no campo das suspeitas atribuídas aos ministros.

Fachin também teria sido alertado

Durante a conversa, Fux e Nunes Marques teriam alertado Edson Fachin para a possibilidade de que outros integrantes do Supremo, inclusive o próprio presidente da Corte, também pudessem ter sido objeto de levantamentos considerados irregulares.

O relato aumenta a pressão para que seja esclarecida a origem, a finalidade e a cadeia de comando por trás dos documentos de inteligência que desencadearam a atual crise institucional.

A suspeita se soma às acusações feitas pelo próprio André Mendonça, que afirmou ter sido alvo de monitoramento ilegal e classificou documentos produzidos no âmbito da inteligência da PF como extremamente graves. O ministro chegou a determinar o afastamento de Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada.

Afastamento de Andrei provoca reação

A decisão de Mendonça recebeu votos favoráveis de Luiz Fux e Nunes Marques na Segunda Turma do STF, formando maioria antes de o julgamento ser interrompido por pedido de vista de Gilmar Mendes.

O episódio provocou forte reação dentro da Polícia Federal. Diretores da corporação colocaram seus cargos à disposição em solidariedade aos dirigentes afastados, enquanto integrantes do governo questionaram juridicamente a competência de Mendonça para determinar a medida.

Nesta quarta-feira, 9 de setembro, o ministro Flávio Dino determinou a reintegração imediata de Andrei Rodrigues à direção-geral da PF e de Leandro Almada à Diretoria de Inteligência, argumentando que os afastamentos poderiam comprometer investigações em andamento.

Crise chega ao centro do Supremo

O episódio amplia uma das mais delicadas crises recentes envolvendo o STF e a Polícia Federal. De um lado, ministros levantam suspeitas de monitoramento irregular e produção de informações sobre autoridades. De outro, há questionamentos jurídicos sobre os limites das decisões adotadas pelo próprio Supremo em relação à direção da Polícia Federal.

Edson Fachin passa agora a enfrentar pressão interna para dar uma resposta institucional ao conflito. O presidente do STF já afirmou publicamente que o Judiciário permanecerá dentro da legalidade constitucional diante da crise.

As alegações apresentadas por Fux e Nunes Marques, caso sejam formalizadas e comprovadas, poderão abrir uma nova frente de investigação para esclarecer se houve uso indevido da estrutura de inteligência do Estado contra integrantes da Suprema Corte e seus familiares.

Por enquanto, entretanto, as acusações de perseguição, ameaças indiretas e monitoramento ilegal permanecem como relatos e suspeitas que ainda precisam ser submetidos à apuração formal e ao contraditório.