
A nova escalada militar envolvendo os Estados Unidos e o Irã recolocou o Oriente Médio no centro das atenções do mercado global — e reacendeu um alerta silencioso, porém relevante, para o agronegócio brasileiro. Em um setor movido a diesel, dependente de fertilizantes importados e altamente exposto ao comércio exterior, qualquer instabilidade geopolítica na região rapidamente se traduz em custo.
O primeiro impacto é imediato: petróleo em alta. Conflitos no Golfo Pérsico costumam pressionar as cotações internacionais do barril, elevando o preço do diesel no Brasil. Para o agro, isso significa aumento direto no custo do frete rodoviário — principal modal de escoamento da produção — e também no transporte marítimo. A conta chega tanto na entrega de insumos quanto no embarque de grãos.
Além da logística, há o efeito dentro da porteira. Máquinas agrícolas movidas a diesel operam em praticamente todas as etapas da safra, do plantio à colheita. Com combustível mais caro, o custo operacional cresce e reduz margens, especialmente em culturas de maior intensidade mecanizada, como soja e milho.
Fertilizantes sob pressão
O segundo ponto sensível é o mercado de fertilizantes. O Irã é um produtor relevante de ureia, insumo essencial para culturas como milho e trigo. A produção desse fertilizante depende fortemente do gás natural, cujo preço também reage a tensões geopolíticas. A combinação de petróleo e gás mais caros encarece a ureia no mercado internacional.
Mesmo sem ser um grande comprador direto de insumos iranianos, o Brasil depende estruturalmente de fertilizantes importados. Qualquer desarranjo na oferta global — seja por restrições comerciais, seja por aumento de custos energéticos — pressiona os preços pagos pelo produtor rural brasileiro. Em um cenário prolongado de conflito, o reflexo pode aparecer já nas próximas janelas de compra para a safra 2026/27.
Exportações em risco
O Irã também é um destino estratégico para o milho brasileiro. Caso o conflito se estenda ou provoque restrições logísticas e financeiras, parte dessas exportações pode ser afetada. O redirecionamento para outros mercados nem sempre ocorre nas mesmas condições comerciais, o que pode significar preços menos favoráveis.
Em 2025, o comércio bilateral entre Brasil e Irã somou US$ 3 bilhões. O milho respondeu por US$ 1,9 bilhão — o equivalente a 67,9% das exportações brasileiras ao país — enquanto a soja representou US$ 563 milhões (19,3%). Do lado das importações, fertilizantes e adubos concentraram 79% dos US$ 84 milhões comprados do mercado iraniano.
Ainda que esses números não representem a totalidade do comércio agrícola brasileiro, a dependência é concentrada e estratégica. Perdas nesse fluxo exigiriam rearranjos logísticos e comerciais em um momento já marcado por custos elevados.
Seguro e frete mais caros
Outro fator que preocupa tradings e exportadores é o aumento do prêmio de risco no transporte marítimo. Conflitos na região elevam o custo dos seguros e dos fretes internacionais, impactando tanto a importação de insumos quanto a exportação de commodities. O Brasil, altamente dependente do modal marítimo para escoar sua produção, sente rapidamente essa pressão.
Risco de margens mais apertadas
Para o agronegócio brasileiro, o cenário combina três vetores negativos: energia mais cara, insumos pressionados e incerteza comercial. Mesmo que o país não esteja diretamente envolvido no conflito, os efeitos indiretos são suficientes para mexer com preços, contratos e planejamento de safra.
Se a tensão entre Estados Unidos e Irã permanecer localizada e de curta duração, o impacto tende a ser pontual. Mas, se houver prolongamento ou expansão regional, o agro brasileiro poderá enfrentar um ambiente de margens mais apertadas — justamente em um momento de busca por recuperação financeira após ciclos recentes de alta volatilidade.
No campo, como nos mercados, geopolítica também vira custo.
Gazeta Connect
As notícias do seu interesse, no seu WhatsApp. Escolha por editoria, cidade ou colunista — ou acompanhe as mais recentes.



