A trajetória da taxa Selic ao longo das últimas décadas ajuda a revelar os diferentes desafios enfrentados pela economia brasileira. Depois de conviver com juros extremamente elevados no período posterior à estabilização da moeda, o país passou por ciclos de redução e aumento da taxa básica, acompanhando mudanças na inflação, nas expectativas econômicas e nas condições fiscais.

Durante os primeiros anos do regime de metas de inflação, no início dos anos 2000, os juros permaneceram em níveis elevados. Posteriormente, a Selic iniciou um processo de redução, embora tenha voltado a subir de forma significativa em momentos de deterioração do cenário econômico.

Entre 2015 e 2016, durante o governo Dilma Rousseff, a taxa básica chegou a 14,25% ao ano, em meio a uma forte recessão, inflação elevada e deterioração das contas públicas. Nos anos seguintes, os juros recuaram e atingiram níveis historicamente baixos durante o governo Jair Bolsonaro, chegando a 2% ao ano em 2020, durante a pandemia, antes de um novo ciclo de aperto monetário diante da aceleração inflacionária.

Atualmente, no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Selic permanece novamente em patamar elevado. Em setembro de 2026, o Comitê de Política Monetária reduziu a taxa para 13,75% ao ano, após ela ter alcançado 15% em 2025 e no início de 2026.

Política fiscal entra no centro do debate

Embora os juros não sejam determinados exclusivamente pelos gastos do governo, a situação das contas públicas exerce influência importante sobre as expectativas econômicas.

O próprio Banco Central tem reiterado que dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida pública, menor disciplina fiscal e dificuldades na estabilização das contas governamentais podem elevar o chamado prêmio de risco e contribuir para uma taxa de juros estruturalmente mais elevada.

Segundo o Copom, a política fiscal pode afetar a economia tanto no curto prazo, por meio de estímulos à demanda, quanto no médio e longo prazo, pela percepção dos investidores sobre a trajetória da dívida pública. O Banco Central sustenta que políticas fiscais previsíveis e capazes de reduzir o risco contribuem para o processo de convergência da inflação à meta.

Esse cenário coloca pressão sobre o governo federal para demonstrar capacidade de controlar despesas, elevar a credibilidade das regras fiscais e sinalizar uma trajetória sustentável para a dívida.

Ao mesmo tempo, o atual patamar dos juros não pode ser explicado apenas pela política fiscal. O Banco Central também aponta fatores como expectativas de inflação ainda acima da meta, mercado de trabalho aquecido, incertezas internacionais, preços de energia e condições financeiras globais entre os elementos considerados nas decisões do Copom.

Juros altos chegam ao bolso da população

A manutenção da Selic em níveis elevados produz consequências diretas para empresas e consumidores.

Quando a taxa básica permanece alta, financiamentos, empréstimos, cartões de crédito e capital para investimentos tendem a ficar mais caros. As condições mais restritivas também podem reduzir o consumo e desacelerar projetos empresariais.

O Banco Central já identificou, durante o atual ciclo monetário, elevação das taxas bancárias, menor disposição das instituições financeiras para assumir riscos e desaceleração na concessão de determinadas modalidades de crédito.

Esse mecanismo faz parte justamente da estratégia de combate à inflação: juros elevados diminuem a demanda na economia e ajudam a conter pressões sobre os preços. O custo, porém, pode aparecer na forma de atividade econômica mais fraca e crédito mais restrito.

O desafio de equilibrar inflação, gastos e crescimento

O debate econômico, portanto, vai além de simplesmente aumentar ou reduzir a Selic.

Para que os juros possam cair de maneira sustentável, o Banco Central considera necessário que as expectativas de inflação se aproximem da meta e que haja maior previsibilidade econômica. Nesse processo, a situação fiscal exerce papel relevante, porque dúvidas relacionadas ao crescimento da dívida pública podem elevar o risco percebido pelos investidores.

O desafio do governo Lula é mostrar que será possível conciliar políticas públicas, crescimento econômico e responsabilidade nas contas públicas sem aumentar as incertezas fiscais.

Enquanto essa confiança não estiver plenamente consolidada e a inflação continuar exigindo atenção, a população continuará convivendo com um dos efeitos mais visíveis desse cenário: dinheiro caro para financiar consumo, empresas e investimentos.