
O resultado das eleições de 2026 provocou uma mudança significativa na correlação de forças do Senado Federal e fortaleceu uma das pautas que deverá dominar o início da próxima legislatura: a possibilidade de abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal.
O Senado terá, a partir de fevereiro de 2027, ao menos 49 dos 81 parlamentares que já manifestaram algum grau de apoio à abertura de processos por crime de responsabilidade contra ministros do STF. Desse grupo, 35 foram eleitos ou reeleitos no pleito de 4 de outubro, enquanto outros 14 possuem mandato até depois de 2026.
O número é politicamente relevante. Para que um ministro seja efetivamente afastado pelo Senado são necessários 54 votos, equivalentes a dois terços dos 81 senadores. Assim, considerando esse levantamento, o grupo favorável à medida estaria a apenas cinco votos desse patamar.
30 dos 54 senadores eleitos em 2026 que declararam apoio ao impeachment de integrantes do STF. A diferença entre os números ocorre porque algumas pesquisas contabilizam parlamentares que admitem analisar processos caso existam elementos jurídicos, enquanto outras consideram apenas manifestações mais explícitas.
Alexandre de Moraes concentra maior pressão
Entre os integrantes do Supremo, Alexandre de Moraes é, de longe, o ministro mais citado pelos parlamentares eleitos.
Entre os senadores eleitos ou reeleitos em 2026 que já manifestaram apoio à abertura de processos de impeachment de ministros do STF estão:
Márcio Bittar (PL-AC)
Plínio Valério (PSDB-AM)
Michelle Bolsonaro (PL-DF)
Bia Kicis (PL-DF)
Evair de Melo (Republicanos-ES)
Gustavo Gayer (PL-GO)
Gracinha Caiado (União-GO)
Lahesio Bonfim (Novo-MA)
Mauro Mendes (União-MT)
José Medeiros (PL-MT)
Reinaldo Azambuja (PL-MS)
Capitão Contar (PL-MS)
Domingos Sávio (PL-MG)
Filipe Barros (PL-PR)
Deltan Dallagnol (Novo-PR), cuja situação eleitoral ainda depende da definição judicial de seu registro
Carlos Jordy (PL-RJ)
Carlos Portinho (PL-RJ)
Styvenson Valentim (Podemos-RN)
Sanderson (PL-RS)
Marcel van Hattem (Novo-RS)
Fernando Máximo (PL-RO)
Bruno Scheid (PL-RO)
Nicoletti
Teresa Surita (MDB-RR)
Carlos Bolsonaro (PL-SC)
Caroline de Toni (PL-SC)
Guilherme Derrite (PP-SP)
André do Prado (PL-SP)
Alessandro Vieira (MDB-SE)
Eduardo Gomes (PL-TO)
O levantamento registra diferentes graus de compromisso. Alguns defendem explicitamente o impeachment de Moraes; outros afirmam apoiar processos contra ministros que eventualmente tenham cometido crimes de responsabilidade.
Rio de Janeiro elege dois nomes favoráveis à pauta
No Rio de Janeiro, Carlos Jordy e Carlos Portinho, ambos do PL, conquistaram as duas vagas em disputa e chegam ao Senado identificados com a pauta de enfrentamento ao Supremo.
Portinho, que foi reeleito, já chegou a defender a obstrução dos trabalhos legislativos até que um processo contra Alexandre de Moraes avance. Jordy também possui histórico de defesa de iniciativas de responsabilização de integrantes da Corte.
Marcel van Hattem coloca Gilmar Mendes diretamente na mira
O senador eleito pelo Rio Grande do Sul Marcel van Hattem (Novo) foi ainda mais explícito nesta semana.
Após uma manifestação de Gilmar Mendes sobre o resultado das eleições, Van Hattem afirmou publicamente que pretende iniciar, a partir de 1º de fevereiro de 2027, trabalhos pelo impeachment do ministro e de outros integrantes da Suprema Corte.
A declaração coloca Gilmar Mendes nominalmente entre os ministros que poderão enfrentar pedidos articulados pela nova composição do Senado.
O Novo estabeleceu durante o processo eleitoral uma posição partidária especialmente dura sobre o assunto, vinculando suas candidaturas ao Senado à defesa da possibilidade de responsabilização de integrantes do STF.
Flávio Dino também entra na mira
Outro ministro que enfrenta oposição direta de integrantes da nova bancada é Flávio Dino.
No Maranhão, o senador eleito Lahesio Bonfim (Novo), adversário político de Dino desde a época em que este comandava o governo estadual, afirmou após sua eleição que pretende atuar contra o ministro no Senado.
Bonfim declarou que irá lutar pelo impeachment de ministros do STF e fez críticas especialmente duras a Flávio Dino, a quem acusa de perseguição política durante seu período como prefeito de São Pedro dos Crentes.
Dino, que deixou o Senado para assumir uma cadeira no Supremo em fevereiro de 2024, passa, portanto, a ter como um de seus principais adversários um senador eleito justamente pelo Maranhão.
Gilmar já vinha criticando movimento durante a campanha
O crescimento da pauta não passou despercebido pelo próprio Supremo.
Ainda durante a campanha eleitoral, Gilmar Mendes afirmou que candidatos estavam transformando o impeachment de ministros do STF em uma bandeira eleitoral e avaliou que a implementação da medida encontraria dificuldades institucionais.
Naquele momento, levantamento apontava que grande parcela dos candidatos ao Senado apoiados pelo campo político de Flávio Bolsonaro defendia a pauta.
O resultado das urnas transformou aquela possibilidade em uma força parlamentar concreta.
PL terá 28 senadores
Outro fator decisivo será o tamanho das bancadas.
O PL deverá iniciar 2027 com 28 senadores, tornando-se a maior bancada individual da Casa. Somados parlamentares do Novo, Republicanos, PP, Podemos, MDB, União Brasil e outras siglas que já manifestaram concordância com processos de responsabilização, o bloco pode se aproximar do quórum constitucional necessário para afastar um ministro.
Entre os 54 senadores escolhidos em 2026, 19 foram eleitos pelo PL.
Presidência do Senado será decisiva
O primeiro grande obstáculo está na Presidência do Senado, responsável por decidir sobre o andamento das denúncias apresentadas contra ministros do Supremo.
Por isso, a disputa pelo comando da Casa, marcada para fevereiro de 2027, tornou-se estratégica.
O grupo ligado ao bolsonarismo trabalha com nomes como Rogério Marinho (PL-RN) para assumir a Presidência do Senado. Também há setores que enxergam Tereza Cristina (PP-MS) como alternativa capaz de reunir apoio mais amplo entre partidos de centro e centro-direita.
Alexandre de Moraes aparece como principal alvo e possui o maior número de manifestações explícitas.
Flávio Dino enfrenta oposição especialmente de parlamentares ligados ao Novo e ao bolsonarismo, com destaque para Lahesio Bonfim.
Gilmar Mendes, por sua vez, passou a ser citado nominalmente por senadores eleitos como Marcel van Hattem, além de sofrer críticas relacionadas às suas decisões sobre as regras para processamento de pedidos de impeachment.
Portanto, o que já está consolidado é a existência de uma grande bancada pró-impeachment de ministros do STF. A definição de quais ministros serão efetivamente alvo de processos dependerá das denúncias apresentadas, da decisão do futuro presidente do Senado e, principalmente, da capacidade dos grupos políticos de alcançar os votos necessários.
Senado de 2027 pode protagonizar maior enfrentamento com STF em décadas
A eleição de 2026 alterou profundamente o cenário.
Uma pauta que durante anos permaneceu limitada a grupos minoritários poderá chegar à nova legislatura respaldada por dezenas de senadores.
Com 49 parlamentares apontados em um dos levantamentos como favoráveis à possibilidade de impeachment, o grupo ainda não possui, sozinho, os 54 votos necessários para uma condenação. A distância, porém, tornou-se pequena o suficiente para colocar o assunto no centro das articulações para 2027.
A nova composição do Senado indica, portanto, que a relação entre Congresso e Supremo Tribunal Federal deverá estar entre os principais focos de tensão política do próximo ano — e Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes aparecem entre os nomes mais citados no debate sobre os limites e a responsabilização dos integrantes da Corte.



