Como a trajetória de Alex Sandro Monteiro Machado, de barbeiro e cabeleireiro a fundador de um instituto de educação técnica, ilustra um movimento maior: a profissionalização do setor de cuidados pessoais como estratégia de geração de emprego e revitalização econômica local 

Quase metade dos salões de beleza e barbearias fecha as portas antes de completar cinco anos de existência. A estatística – 49% de mortalidade, segundo dados setoriais – não é resultado de falta de talento atrás da cadeira. Na maioria dos casos, o problema é outro: gestão de fluxo de caixa inadequada, marketing ineficaz, ausência de diferenciação competitiva e subcapitalização no momento da abertura. É exatamente nessa lacuna, entre a habilidade técnica e a capacidade de sustentar um negócio, que uma nova geração de empreendedores está apostando. 

Um dos exemplos mais completos dessa transição é o de Alex Sandro Monteiro Machado, empresário brasileiro e fundador do Monteiro Excellence Institute. Depois de quase duas décadas à frente da tesoura e da navalha, e de outras duas décadas administrando os próprios salões, ele decidiu transformar a própria experiência em um sistema replicável de formação profissional e mentoria empresarial – voltado a ajudar outros profissionais de serviços pessoais a não apenas abrir um negócio, mas mantê-lo de pé. 

Do balcão do salão à sala de aula 

A trajetória de Alex Sandro Monteiro Machado começa no chão de loja. Formado cabeleireiro pelo SENAC em 2007 e barbeiro pela mesma instituição em 2018, ele soma mais de 16 anos de atuação técnica em cortes masculinos e femininos, coloração, descoloração e mechas – o tipo de domínio que só se constrói com milhares de horas de prática e atendimento direto ao cliente. 

Mas foi como empresário que sua experiência ganhou outra dimensão. Em janeiro de 2006, abriu seu primeiro salão, o Belíssima, em Araraquara, interior de São Paulo, onde permaneceu à frente do negócio por 13 anos. Em 2019, fundou a Monteiro & Machado Estética – hoje operando sob a marca Volo Beleza Descomplicada -, ampliando a atuação para formação de novos profissionais. “Ficamos muito conhecidos em toda a região como o salão que formava profissionais na área”, resume um dos pontos altos dessa fase, período em que o negócio se tornou referência local em técnicas modernas de colorimetria e fidelização de clientes. 

Foi ali, gerindo funcionários, fluxo de caixa, fornecedores e vendas de produtos ao mesmo tempo em que atendia clientes, que Alex Sandro Monteiro Machado absorveu – na prática, sem MBA – exatamente o conjunto de competências que hoje faltam à maioria dos profissionais recém-formados no setor: precificação, controle financeiro, logística de estoque, negociação de aluguel comercial e gestão de equipe. 

Um problema estrutural, não individual 

O projeto que Alex Sandro Monteiro Machado consolidou parte de um diagnóstico simples: o licenciamento básico para cabeleireiros e barbeiros garante apenas o padrão mínimo de segurança e saúde pública, não o domínio técnico avançado nem a capacidade empresarial necessária para sustentar um negócio. Segundo projeções setoriais citadas no plano de negócios do instituto, o setor de cuidados pessoais precisará de dezenas de milhares de novas contratações por ano na próxima década – a maior parte delas para repor profissionais que abandonam a carreira por ganhos insuficientes e falta de perspectiva de crescimento, não por falta de vagas. 

Some-se a isso as barreiras enfrentadas por populações de baixa renda e recém-chegadas a grandes centros: cursos de certificação com custo elevado, oferecidos majoritariamente em um único idioma, em horário comercial – inviáveis para quem já trabalha em outro turno ou ainda está se adaptando ao novo idioma local. É esse recorte que aproxima a proposta de Alex Sandro Monteiro Machado de um debate mais amplo sobre desenvolvimento econômico comunitário: não basta ensinar a cortar cabelo bem; é preciso remover as barreiras financeiras, linguísticas e de tempo que impedem alguém de se profissionalizar e, na sequência, abrir o próprio negócio. 

Da tesoura à produção acadêmica 

O que distingue Alex Sandro Monteiro Machado de outros empresários que decidem “abrir uma escola” é o fato de ele ter formalizado a própria experiência em produção acadêmica. Além de administrar o instituto, ele assina dois artigos de revisão de literatura que sustentam teoricamente o modelo de negócio: um sobre certificação profissional escalável e outro sobre inclusão econômica de populações sub-representadas através da formação técnica. 

No primeiro texto, Alex Sandro Monteiro Machado ancora a proposta do instituto em duas correntes clássicas da economia do trabalho: a Teoria do Capital Humano, de Gary Becker, segundo a qual certificações elevam a produtividade real do profissional, e a Teoria da Sinalização, de Michael Spence, segundo a qual a certificação funciona como um sinal de qualidade que reduz o risco percebido pelo empregador na hora de contratar. Na prática, é exatamente esse duplo efeito que o sistema de certificação em quatro níveis do instituto – Bronze, Prata, Ouro e Mestre – tenta reproduzir: cada nível qualifica tecnicamente o profissional e, ao mesmo tempo, sinaliza ao mercado local que aquele barbeiro ou cabeleireiro atingiu um padrão verificável de excelência. A literatura citada no artigo aponta que profissionais certificados no Brasil relatam ganhos salariais até 33% superiores aos de pares não certificados, e que estudos internacionais registram incrementos de renda entre 15% e 40% após a certificação – uma faixa compatível com os ganhos anuais projetados pelo instituto para seus próprios certificados, que podem chegar a dobrar a renda de origem conforme o nível alcançado. 

Já o segundo artigo debruça-se sobre um problema que Alex Sandro Monteiro Machado conhece por experiência própria: as barreiras estruturais – socioeconômicas, geográficas, culturais, institucionais e de capital social – que mantêm populações inteiras afastadas da formação técnica de qualidade. É esse arcabouço teórico que explica, em boa medida, o desenho dos programas comunitários gratuitos do instituto, do formato de fim de semana e da oferta multilíngue: cada um desses elementos responde diretamente a uma categoria de barreira mapeada no próprio artigo. O texto argumenta que a mentoria e o acompanhamento próximo – e não apenas o acesso ao curso – são o que efetivamente converte capital social em mobilidade econômica para populações sub-representadas, o que ajuda a justificar por que a mentoria empresarial de 6 a 12 meses ocupa posição central na estratégia do instituto, e não um papel secundário. 

Um sistema, não um curso 

O instituto fundado por Alex Sandro Monteiro Machado, o Monteiro Excellence Institute, foi desenhado para atacar as quatro causas de mortalidade de pequenos negócios ao mesmo tempo, combinando cinco frentes de atuação: 

  • Certificação técnica progressiva, em quatro níveis (Bronze, Prata, Ouro e Mestre), reconhecida por estabelecimentos empregadores como critério de contratação e promoção; 
  • Plataforma digital de educação continuada por assinatura, a um custo até 85% menor do que workshops presenciais equivalentes, ampliando o alcance geográfico sem custo marginal proporcional; 
  • Workshops presenciais de 40 horas em formato de fim de semana, oferecidos em múltiplos idiomas, permitindo que profissionais empregados se qualifiquem sem perder renda; 
  • Programas comunitários gratuitos de introdução ao setor, voltados a jovens de baixa renda, recém-chegados e pessoas em transição de carreira; 
  • Mentoria empresarial estruturada de 6 a 12 meses, dividida em uma fase de planejamento pré-abertura e outra de acompanhamento pós-lançamento – a etapa que, segundo o próprio plano de negócios, é a que mais impacta a taxa de sobrevivência do negócio. 

É esse último ponto que talvez resuma melhor a proposta central do projeto. Programas de mentoria empresarial estruturada, segundo referências citadas no plano, têm o potencial de elevar a taxa de sobrevivência de pequenos negócios de cerca de 51% para 72% em cinco anos – uma diferença que, aplicada à escala projetada pelo instituto, representaria a preservação de um volume expressivo de capital que, de outra forma, seria perdido em falências evitáveis. 

Números de um modelo pensado para durar 

As projeções do instituto para os primeiros três anos de operação dão a medida do que está em jogo: 500 profissionais certificados, entre 40 e 50 microempresas formadas com apoio direto de mentoria, e entre 86 e 215 empregos diretos criados nas comunidades onde o instituto atua. Em termos de atividade econômica, a estimativa é de que essas novas empresas gerem um volume expressivo de receita agregada ao longo do período – dinheiro que circula em aluguel comercial, fornecedores locais, folha de pagamento e impostos locais. 

O modelo de receita do próprio instituto também foi desenhado para se sustentar sem depender de doações ou de uma única fonte: certificações, assinaturas da plataforma digital, workshops presenciais e contratos de mentoria dividem o faturamento projetado, que mais que triplica entre o primeiro e o terceiro ano de operação – com margens operacionais projetadas acima de 65% a partir do segundo ano, típicas de negócios de educação escaláveis por tecnologia. 

Da cadeira de barbeiro à formação de outros empreendedores 

Há algo simbólico no fato de que o instituto nasce da experiência de alguém que viveu, na pele, tanto o sucesso quanto os riscos de administrar um pequeno negócio no setor de beleza – e que também enfrentou parte das barreiras que hoje o projeto se propõe a remover para outros. Essa dupla perspectiva, técnica e empresarial, é o que distingue a proposta de um curso de corte de cabelo convencional: o objetivo declarado não é apenas formar bons profissionais atrás da cadeira, mas donos de negócio capazes de sobreviver ao mercado. 

Se cumprir a trajetória prevista – presença física em cinco praças metropolitanas e alcance digital em múltiplas regiões dentro de cinco anos -, o instituto de Alex Sandro Monteiro Machado se soma a um movimento mais amplo, que começa a ganhar espaço em diferentes setores de serviços: o de tratar a formação técnica e a educação empresarial não como etapas separadas da carreira de um profissional, mas como as duas faces de uma mesma estratégia de desenvolvimento econômico local. Não à toa, cobertura anterior sobre sua trajetória já descrevia essa transição como a passagem “do salão à estratégia empresarial” – um resumo que, à luz do instituto agora em operação, deixou de ser uma expectativa para se tornar um modelo de negócio em funcionamento. 

Por Milena Verardo