Por Mara Costa
Carina Gonçalves Martins acumulou mais de uma década operando nos pontos cegos da logística internacional — onde um documento errado custa mais do que a própria carga, e onde conformidade simultânea com FDA, MAPA, ANVISA e CBP não é exceção, é rotina. Agora ela está sistematizando tudo isso em produto intelectual.
Carina Gonçalves Martins, CMILT, conhece o exato momento em que um erro deixa de ser corrigível. A carga já está no navio. Os documentos já foram submetidos. Qualquer inconsistência entre o que está no papel e o que está no contêiner pode resultar em retenção, multa, ou o pior cenário possível: devolução da carga ao país de origem. Ela passou mais de dez anos vivendo dentro desse limite — e construiu um histórico sem registros de incidentes críticos.
Analista de Exportação com base em Santos, o maior complexo portuário da América Latina, Carina desenvolveu ao longo de sua carreira algo que poucos profissionais do setor conseguem reivindicar: a capacidade de operar em conformidade simultânea com múltiplos sistemas regulatórios internacionais, em tempo real, com cargas de altíssima sensibilidade.
FDA. MAPA. ANVISA. CBP. SOLAS. IMDG Code. Não são siglas para enfeitar currículo — são os órgãos que decidem se uma exportação de sorvete da Nestlé chega ou não ao porto de destino nos Estados Unidos.
Agora, portadora da designação profissional CMILT e autora de livro publicado sobre o Porto de Santos, ela está fazendo o que poucos profissionais com esse nível de especialização técnica se propõem: transformar conhecimento operacional raro em metodologia acessível.
Santos como laboratório
A história começa, como costuma acontecer com quem trabalha sério, no chão de operação. Em dezembro de 2010, como estagiária na Vanguard Logistics Services — multinacional com operações de consolidação de cargas no mundo inteiro —, Carina entrou em contato pela primeira vez com a rotina do comércio exterior, dando continuidade à carreira na própria empresa. Conferência de documentos. Bills of Lading. Processos de desconsolidação.
Comunicação com agentes internacionais. O vocabulário técnico do comércio global, construído termo a termo.
Em 2013, ela migrou para a Indaiá Logística Internacional, empresa santista consolidada no setor, onde permaneceria por quase uma década. Foi ali que a trajetória ganhou escala — ecomplexidade.
A progressão foi conquistada gradualmente e em cada função ela acumulou conhecimento prático, tanto documental quanto operacional. Auxiliou na capacitação de colaboradores internos e contribuiu para a melhoria de processos e eficiência operacional, recebendo reconhecimentos internos por seu desempenho e dedicação.
Como Analista de Exportação, chegou ao nível mais exigente da função, atuando na gestão de centenas de embarques internacionais por ano, nos modais marítimo, aéreo e rodoviário, com cargas que incluíam produtos lácteos, sorvetes, café certificado, ração animal, mercadorias fumigadas classificadas como Dangerous Goods e produtos sujeitos à anuência do MAPA, para empresas multinacionais de grande porte, como Nestlé Brasil, Nestlé Purina e Chocolates Garoto.
Também passou a acumular conhecimentos específicos relacionados aos países de destino, especialmente aos Estados Unidos, incluindo a submissão do ISF/10+2 — o Importer Security exigido pela U.S. Customs and Border Protection para embarques marítimos — e o gerenciamento do envio de cargas alimentícias sensíveis em conformidade com os requisitos da FDA e da CBP.
“A conformidade em operações desse nível é essencial. Identificar inconsistências antes da movimentação da carga é fundamental para evitar que um simples erro documental gere custos altos e atrasos.”
Em logística internacional, essa disciplina de verificação antecipada tem valor econômico mensurável: cada retenção de carga evitada representa custos eliminados de armazenagem, demurrage e penalidades regulatórias.
A pandemia como prova de estresse
Em 2020, quando o mundo parou, as cadeias de suprimentos internacionais não tiveram esse luxo. E foi exatamente nesse momento que seu perfil profissional ficou mais evidente.
Durante a pandemia de COVID-19, a demanda por exportações na Indaiá aumentou de forma significativa, impulsionada principalmente por produtos alimentícios, café e alimentos para animais. Sem reforço proporcional de equipe e sob exigências regulatórias constantes, Carina absorveu o volume, manteve a conformidade e não deixou a continuidade operacional ser comprometida, gerenciando embarques mensais de alto volume e cargas com diferentes exigências regulatórias para clientes-chave da empresa.
“A pandemia foi o momento em que ficou claro o quanto os processos exigem conhecimento tácito. Em um cenário de alta demanda e mudanças constantes, era necessário adaptar a operação rapidamente sem comprometer os prazos e a cadeia logística”.
Esse tipo de atuação em condições adversas diferencia um profissional técnico de um profissional estratégico. A experiência acumulada durante esse período fortaleceu competências como continuidade operacional e adaptação a cenários de alta pressão, habilidades críticas em cadeias globais de suprimentos.
A certificação que poucos brasileiros têm
Em abril de 2026, Carina obteve a designação profissional CMILT — Chartered Member of the Chartered Institute of Logistics and Transport. Número de membro: 1772.
O CILT não é um curso de extensão nem um certificado online de fim de semana. É a principal associação profissional internacional do setor de logística e transporte, com presença em mais de 30 países. A designação Chartered Member — distinta de uma filiação simples — é concedida mediante avaliação de experiência técnica comprovada, qualificação acadêmica e compromisso com padrões internacionais de excelência. No Brasil, profissionais com essa designação formam um grupo muito restrito.
“O título CMILT não é algo que se conquista da noite para o dia. É o reconhecimento formal de uma trajetória construída ao longo de anos de atuação, alinhada a padrões técnicos internacionais.”
O livro que ninguém mais escreveu — e por que 52 páginas são suficientes
Em abril de 2026, Carina lançou Santos, Mar de Conexões: O Papel Estratégico do Porto de Santos no Comércio Exterior do Brasil pela Editora Clube de Autores. Com 52 páginas e ISBN registrado (978-6502055311), a obra não tem pretenção de ser um tratado acadêmico — e essa é uma escolha deliberada. É um guia de acesso rápido, pensado para estudantes de comércio exterior, profissionais em formação e qualquer pessoa que precise entender como o maior complexo portuário da América Latina realmente funciona.
O diferencial não está no volume, mas na origem: o livro não foi escrito por um acadêmico que estudou o porto de longe. Foi escrito por alguém que operou dentro dele durante mais de uma década. Essa distinção importa — e é precisamente o que dá à obra sua autoridade prática.
Santos é o ponto de passagem de aproximadamente 28% do comércio exterior brasileiro, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX/MDIC). É o local onde regulações nacionais e exigências internacionais se encontram em tempo real, onde uma carga de café certificado precisa satisfazer simultaneamente o ICO, a FDA e a Receita Federal.
“Eu quis escrever o livro que eu mesma teria querido ler quando comecei. Não existe muita literatura prática sobre como o Porto de Santos realmente funciona por dentro — sobre os processos, os órgãos, os custos reais. Esse era o vazio que eu queria preencher”.
O fio que conecta tudo: o mapeamento regulatório do comércio Brasil-EUA
A produção intelectual de Carina não é aleatória. Há um eixo temático preciso atravessando cada publicação — e ele é mais estratégico do que parece à primeira vista.
Paralelamente ao livro, ela publicou na plataforma SSRN — repositório acadêmico internacional da Elsevier, utilizado por pesquisadores e profissionais globalmente — o paper Fumigated Cargo As Dangerous Goods In International Maritime Transport: Regulatory Complexity, Operational Risk, And Compliance Challenges In Global Supply Chains (DOI: 10.2139/ssrn.6641678).
O tema é altamente específico e praticamente inexplorado na literatura nacional: cargas fumigadas com pesticidas para fins fitossanitários são frequentemente enquadradas como mercadorias perigosas no transporte marítimo internacional, criando uma camada de complexidade regulatória e documental que a maioria dos profissionais do setor simplesmente não domina. Carina não apenas domina — ela operou com esse tipo de carga por anos, coordenando embarques para os Estados Unidos em conformidade simultânea com o IMDG Code e as exigências da CBP.
Na Academia.edu, onde mantém perfil como pesquisadora independente, ela publicou ainda The Impact of Coffee Certifications on the Global Market: Sustainability, Quality, and Challenges for Producers — working paper de 2026 que dialoga diretamente com sua experiência em exportação de café certificado. Dois artigos no Jornal Tribuna completam o quadro: um sobre o crescimento das exportações de soja brasileira para os EUA em 2025, outro sobre o impacto das certificações de café sustentável no comércio global.
O fio condutor é claro: cargas fumigadas, café certificado, soja, porto de Santos. Todos esses temas têm em comum a interseção entre regulação brasileira e exigências do mercado norte-americano — exatamente o terreno onde Carina passou uma década operando. Ela não está escrevendo sobre o que estudou. Está sistematizando o que viveu.
“Cada artigo que publico parte de algo que eu precisei resolver na prática e que não encontrei documentado em nenhum lugar. Esse conhecimento existe nas pessoas que operam. Ele raramente sai das empresas.”
O próximo passo: metodologia, não metáfora
Carina não está apenas publicando. Está construindo uma ponte entre o conhecimento operacional que acumulou e os profissionais que operam sem ele.
O plano em desenvolvimento inclui conteúdo técnico estruturado sobre compliance regulatório internacional para o mercado brasileiro de comércio exterior — um segmento com milhares de profissionais que lidam diariamente com exigências da FDA, do MAPA e da CBP sem ter acesso a referências práticas consolidadas em português. A certificação CMILT posiciona esse conteúdo com credencial internacional. O livro e os papers estabelecem a autoridade acadêmica. A experiência operacional fornece o que nenhum curso teórico pode dar: a visão de quem já viu o erro acontecer — e aprendeu a evitá-lo antes.
“O que eu quero fazer é documentar o que os profissionais da operação sabem e não está escrito em lugar nenhum. Existe um gap enorme entre a regulação no papel e a regulação na prática. Eu vivi esse gap por mais de dez anos. Agora quero ajudar outros a atravessá-lo com mais clareza.”
Santos foi o laboratório. A metodologia é o produto. E o mercado — tanto o de comércio exterior quanto o de formação profissional — ainda não tem o que ela está construindo.

