
A investigação envolvendo o Banco Master ganhou um novo e potencialmente explosivo capítulo. João Carlos Mansur, fundador e ex-dono da Reag Investimentos, firmou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e apresentou informações sobre operações financeiras que, segundo seu relato, teriam sido utilizadas para ocultar pagamentos de vantagens indevidas atribuídos a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
De acordo com informações reveladas pela imprensa, Mansur afirmou aos investigadores que fundos administrados pela Reag teriam integrado uma complexa estrutura destinada a movimentar e ocultar recursos. Entre os elementos apresentados na colaboração estariam informações sobre pessoas utilizadas como intermediárias — os chamados “laranjas” —, fundos de investimento e estruturas financeiras mantidas no exterior.
A colaboração de Mansur busca detalhar não apenas quem teria participado das operações, mas também como o dinheiro teria circulado pelo sistema financeiro, permitindo às autoridades reconstruir caminhos utilizados para movimentação e eventual ocultação de patrimônio.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Mansur relatou que fundos administrados pela antiga gestora teriam sido usados para esconder pagamentos de propina supostamente realizados por Vorcaro a autoridades públicas. As afirmações integram uma colaboração premiada e ainda precisam ser confrontadas com documentos, movimentações financeiras e demais provas reunidas pelos investigadores.
Offshores entram no centro da investigação
Outro ponto considerado relevante pelos investigadores é a indicação de que parte dos recursos estaria vinculada a estruturas offshore localizadas no exterior.
Mansur teria fornecido informações sobre a localização desses ativos e sobre o caminho percorrido pelo dinheiro. Caso os dados sejam confirmados, eles podem auxiliar as autoridades brasileiras no rastreamento, bloqueio e eventual recuperação de recursos.
A capacidade de localizar patrimônio fora do país é considerada uma das principais frentes da investigação, já que estruturas societárias internacionais frequentemente ampliam a complexidade das apurações financeiras.
Multa de R$ 40 milhões integra acordo
Como parte das condições negociadas com a Procuradoria-Geral da República, Mansur se comprometeu ao pagamento de R$ 40 milhões.
Antes da assinatura, a proposta de colaboração apresentada pelo empresário continha diversos anexos com informações relacionadas às suspeitas de crimes financeiros e às operações envolvendo Vorcaro e estruturas administradas pela Reag.
O acordo foi assinado pela PGR em 2 de setembro de 2026 e encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, relator das investigações relacionadas ao Banco Master.
A colaboração depende da análise judicial prevista para esse tipo de acordo. A homologação não significa que todas as declarações do delator foram comprovadas, mas verifica aspectos como legalidade, regularidade e voluntariedade da colaboração.
Primeira delação da Compliance Zero
O acordo de João Carlos Mansur foi o primeiro firmado pela PGR no âmbito das investigações da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de crimes financeiros relacionados ao Banco Master.
A relevância da colaboração está justamente na posição ocupada pelo empresário no mercado financeiro e no conhecimento que ele afirma possuir sobre as estruturas utilizadas nas operações investigadas.
A Reag administrou fundos relacionados a negócios que posteriormente passaram ao centro das investigações. Mansur deixou o controle da empresa anteriormente e também passou a ser investigado em operações envolvendo suspeitas de irregularidades financeiras.
Desde então, investigadores tentam reconstruir uma extensa rede de fundos, empresas, intermediários e movimentações financeiras.
Delação pode ampliar alcance do caso Master
Se as informações entregues por Mansur forem confirmadas por provas independentes, o caso Banco Master poderá ganhar uma nova dimensão, avançando das suspeitas de irregularidades financeiras para a possível identificação de beneficiários de pagamentos indevidos e operadores responsáveis pela movimentação dos recursos.
O material entregue à PGR poderá ainda servir de base para novas quebras de sigilo, bloqueios patrimoniais, depoimentos e outras medidas investigativas, desde que autorizadas pelas autoridades competentes.
A colaboração também aumenta a pressão sobre outros investigados, uma vez que permite aos investigadores confrontar versões, documentos e movimentações bancárias já existentes.
Por enquanto, porém, os nomes eventualmente citados e as acusações apresentadas pelo colaborador devem ser tratados como elementos de investigação, e não como fatos definitivamente comprovados.
O avanço das apurações e a análise das provas anexadas à delação serão decisivos para determinar até onde alcançava a estrutura financeira descrita por Mansur — e quem, efetivamente, poderá ser responsabilizado.
O caso Banco Master, que já figura entre as maiores investigações financeiras recentes do país, entra assim em uma nova fase, com a possibilidade de rastreamento de patrimônio, identificação de intermediários e aprofundamento das suspeitas sobre a destinação final de recursos movimentados por meio de fundos de investimento.



