Se você nasceu no estado do Rio de Janeiro, há uma palavra que também diz respeito a você: fluminense. Pode ser que nunca tenha usado o termo para se apresentar ou que, dependendo de onde nasceu, tenha aprendido a se identificar de outra maneira. É possível que, em cidades como Campos, Niterói, São Gonçalo, entre tantas outras, nossos pais e avós se reconhecessem muito mais por suas denominações próprias — campistas, niteroienses, são-gonçalenses — e, quem sabe, até como papa-goiabas.

Mas por que somos fluminenses? Porque fluminense é o gentílico historicamente atribuído a quem nasce no estado do Rio de Janeiro. A palavra atravessou diferentes momentos da formação do território e chegou até os nossos dias como uma denominação que reúne, sob uma mesma identidade, pessoas de 92 municípios bastante diferentes entre si. É possível ser campista, niteroiense, gonçalense, petropolitano ou sanjoanense e, ao mesmo tempo, ser fluminense. Uma identidade não elimina a outra; elas convivem e ajudam a contar a história de como esse estado foi sendo formado.

Papa-goiaba é uma história diferente. A expressão foi usada, ao longo do tempo, para se referir aos moradores de diferentes partes do estado do Rio de Janeiro e, especialmente, aos que viviam fora da capital. Sua origem não parece estar ligada a um único lugar ou a uma única explicação. Há diferentes versões para o surgimento da alcunha, muitas delas relacionadas à presença da fruta e aos hábitos alimentares ou às atividades econômicas das populações do interior. Em Campos, por exemplo, a tradição da produção de goiabada ajudou a fortalecer essa identificação e fez com que o termo permanecesse particularmente associado aos campistas. Mas a mesma denominação aparece relacionada a moradores de outras regiões fluminenses, mostrando que sua história é muito maior do que a de uma única cidade.

Ao longo do tempo, papa-goiaba acabou se tornando uma forma popular de identificar naturais ou moradores do antigo estado do Rio de Janeiro, em contraposição aos habitantes da capital. Niterói, que durante décadas foi a capital do estado, São Gonçalo e outras cidades do interior e da região metropolitana também aparecem associadas à alcunha. A palavra, portanto, não definia uma cidade específica, mas ajudava a marcar uma identidade construída em torno de quem estava do lado de fora da cidade do Rio de Janeiro. E é justamente essa relação entre a capital e o restante do estado que ajuda a entender por que o termo ganhou tanta força.

Para entender como essa palavra ganhou esse alcance, é preciso voltar um pouco no tempo.

Durante boa parte do século XX, o território que hoje conhecemos como estado do Rio de Janeiro estava dividido em duas unidades políticas. De um lado, havia o estado do Rio de Janeiro, cuja capital era Niterói. Do outro, estava a cidade do Rio de Janeiro, que, depois de deixar de ser a capital federal, em 1960, passou a constituir o estado da Guanabara.

Era uma situação bastante particular. Quem nascia na cidade do Rio de Janeiro era carioca. Quem nascia no estado do Rio de Janeiro era fluminense. E, no uso popular, esse segundo grupo também podia ser chamado de papa-goiaba.

A expressão, entretanto, nem sempre era usada de maneira carinhosa. Em determinados contextos, “papa-goiaba” carregava um tom pejorativo e servia para marcar a diferença entre quem vivia na capital e quem vinha do interior. Era uma forma de associar o morador do estado à figura do caipira, do roceiro, de alguém que estaria distante da vida urbana da então capital federal.

É curioso observar como as palavras mudam de significado conforme as pessoas passam a se apropriar delas. Aquilo que podia ser usado para diminuir acabou, em muitos lugares, transformando-se também em uma marca de identidade. Em Campos, a palavra se relacionava à própria tradição da cidade; em outras regiões, passou a representar uma identidade fluminense construída em oposição à capital. Com o tempo, porém, cada lugar foi encontrando suas próprias maneiras de dizer quem é e de onde veio.

Em 1975, os antigos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara foram fundidos. A cidade do Rio de Janeiro deixou de ser um estado e passou a integrar o novo estado do Rio de Janeiro como município e capital. A mudança alterou mapas, estruturas administrativas e relações de poder, mas não apagou as identidades que já existiam e que continuam presentes na maneira como os moradores reconhecem seus lugares de origem.

Talvez seja justamente por isso que falar em “ser fluminense” seja tão interessante. O Rio de Janeiro não é uma coisa só. Há quem seja carioca e fluminense, assim como há quem seja campista, niteroiense, sanjoanense, petropolitano, macaense, paratiense, gonçalense, itaperunense, volta-redondense ou cabo-friense. São identidades que não se anulam; ao contrário, contam diferentes partes da história de um mesmo estado.

E talvez esteja aí uma das melhores maneiras de compreender o Rio de Janeiro para além da imagem que o país inteiro aprendeu a reconhecer. O estado tem a capital, claro, mas também tem cidades históricas, antigas vilas, caminhos, festas, sotaques, comidas, personagens, patrimônios, paisagens e tradições que ajudam a explicar quem somos. Há histórias preservadas nos grandes livros e documentos, e outras que sobreviveram na memória das famílias. Há lugares conhecidos por todos e outros que podem estar a poucos quilômetros de nós sem que saibamos muito sobre eles.

São muitos Rios dentro de um mesmo estado. E, se existe uma palavra capaz de reunir toda essa diversidade, ela é justamente aquela que talvez a gente use pouco no dia a dia: fluminense. Mais do que um gentílico, a palavra nos ajuda a nomear uma identidade construída ao longo de séculos e que hoje reúne 92 municípios, cada um com suas próprias histórias, paisagens, tradições e modos de viver.

Antes de sermos campistas, niteroienses, petropolitanos ou cariocas, existe também uma história que nos conecta: a história de um estado muito mais diverso do que a imagem que costuma representá-lo. Um estado que ainda guarda personagens, lugares, costumes e acontecimentos capazes de surpreender até quem nasceu aqui.

É esse Rio que quero revelar a partir de agora, no REVELA RIO. A cada edição, vamos percorrer diferentes cidades e territórios para conhecer histórias, patrimônios, festas, tradições, paisagens e personagens que ajudam a contar o estado do Rio de Janeiro. Algumas dessas histórias serão conhecidas; outras, talvez, sejam uma descoberta para muitos de nós. O importante é que todas elas nos convidem a olhar novamente para lugares, pessoas e acontecimentos que fazem parte do estado onde vivemos.

REVELA RIO é uma coluna para descobrir o estado por suas histórias, suas culturas, suas memórias, seus lugares e, principalmente, por sua gente.