A cena chama atenção em um estado no qual o próprio poder público reconhece a existência de territórios submetidos à influência de facções e milícias.

Eduardo Paes (PSD), candidato ao Governo do Rio de Janeiro, vem realizando atividades eleitorais em diferentes regiões populares da capital. Em 29 de agosto, por exemplo, esteve na Cidade de Deus durante sua agenda de campanha.

O fato de um candidato entrar em uma comunidade não constitui qualquer irregularidade. A pergunta que passou a movimentar a eleição fluminense é outra: como funciona o acesso político a territórios onde grupos armados exercem controle territorial?

É justamente essa questão que adversários de Paes passaram a explorar.

Ruas questiona: como eles conseguem entrar?

Douglas Ruas (PL), adversário de Paes na disputa pelo Palácio Guanabara, declarou que não pretende fazer campanha em territórios dominados por facções e passou a questionar publicamente a circulação de Paes em comunidades.

Durante uma sabatina em agosto, Ruas citou, inclusive, uma antiga visita de Lula e Eduardo Paes ao Complexo do Alemão, questionando como políticos conseguem realizar eventos nesses territórios enquanto forças policiais enfrentam forte resistência armada em operações.

A acusação política de Ruas foi ainda mais longe: ele declarou que candidatos que conseguem fazer campanha em comunidades controladas pelo crime teriam relações com organizações criminosas. 

Paes rejeitou o argumento. O candidato afirmou que nunca deixou de entrar em favelas por causa dos riscos e contra-atacou Ruas, dizendo que integrantes do grupo político do adversário também realizam campanhas em comunidades.

O controle territorial do crime no Rio não é retórica eleitoral.

Levantamento do GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado, publicado em dezembro de 2025, estimou que aproximadamente 4 milhões de moradores da Região Metropolitana do Rio viviam sob controle ou influência de grupos armados em 2024, o equivalente a 34,9% da população da região analisada.

O estudo apontou ainda que o Comando Vermelho concentrava a maior parcela da população diretamente submetida ao controle armado, enquanto as milícias possuíam grande presença territorial.

Nesse ambiente, liberdade de circulação não pode ser considerada uma questão trivial.

A situação é tão grave que o TRE-RJ instituiu, em março de 2026, um Grupo de Trabalho Unificado de Defesa da Integridade Eleitoral especificamente para combater a infiltração do crime organizado e das milícias nas eleições.

O próprio tribunal define como “área de risco” um território sob dominância ou influência de organização criminosa ou milícia em que as condições de segurança possam comprometer o exercício livre do voto.

Em julho, o TRE-RJ instalou ainda um gabinete extraordinário reunindo Justiça Eleitoral, Ministério Público, Polícia Federal, Polícia Civil, Polícia Militar, Forças Armadas e outros órgãos para impedir interferência criminosa no processo eleitoral.

Ou seja: o risco de organizações criminosas influenciarem a política no Rio é reconhecido oficialmente pelas instituições.

Mas os adversários realmente estão impedidos de entrar?

Há candidatos que afirmam serem proibidos de entrarem determinadas comunidades sob o controle de facções. Douglas Ruas, por exemplo, declarou publicamente que não pretende entrar em áreas dominadas por organizações criminosas para pedir votos.

Portanto, a investigação precisa distinguir três situações diferentes: candidatos que decidem não entrar por razões de segurança; candidatos que alegam ter sido ameaçados ou impedidos; e candidatos que conseguem realizar atividades normalmente.

Relações políticas de Paes já chegaram ao TRE

As suspeitas levantadas pelos adversários não ficaram apenas nos palanques.

O deputado Carlos Jordy (PL) apresentou uma ação para tentar impedir a candidatura de Eduardo Paes, alegando relações políticas e administrativas do ex-prefeito com pessoas investigadas por supostos vínculos com facções, milícias e contraventores.

Entre os nomes mencionados estavam políticos como Val Ceasa e Lucinha e o candidato João Drumond.

A Justiça Eleitoral, entretanto, rejeitou a tentativa de impugnação.

Em 14 de setembro, o TRE-RJ julgou improcedente a ação. O Ministério Público Eleitoral havia apontado que as alegações apresentadas não estavam acompanhadas de provas concretas suficientes para ligar pessoalmente Eduardo Paes às organizações criminosas mencionadas.

Essa decisão é fundamental para qualquer reportagem responsável.

É possível questionar relações políticas. É legítimo investigar nomeações, alianças e acessos territoriais. Mas o tribunal não reconheceu como comprovada a acusação de vínculo de Paes com essas organizações.

Ex-secretário de Paes chegou a ser preso em investigação sobre o CV

Outro episódio adicionou combustível ao debate.

O vereador Salvino Oliveira (PSD), ex-secretário municipal durante a administração de Paes, foi preso temporariamente em março em investigação relacionada a suposta ligação com integrantes do Comando Vermelho.

Então quem permite a entrada?

É aqui que está a pergunta que uma investigação mais profunda precisa responder.

Em um território efetivamente controlado por uma organização criminosa, existem várias hipóteses possíveis para que uma caminhada política aconteça: Pode simplesmente existir algum tipo de autorização informal concedida pelo poder armado local com pagamentos, prometido vantagens, realizado acordo político ou oferecido benefícios públicos a organizações criminosas em troca de acesso eleitoral.

A ausência dessa prova não encerra as perguntas.

A pergunta é?

Quem negocia previamente as agendas?; 

Quem faz contato com lideranças locais?; 

Se houve restrições impostas a adversários?; 

Quais contratos públicos ou nomeações existem envolvendo intermediários locais?; 

Doações e a comunicações entre integrantes das campanhas e pessoas investigadas.

Paes promete justamente retomar territórios

A situação produz um evidente debate político porque Paes colocou o combate ao domínio territorial do crime entre suas promessas de campanha.

Ele afirmou que pretende começar pelo Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, que classificou como uma espécie de quartel-general do Comando Vermelho, e defendeu a ocupação permanente de territórios controlados por organizações criminosas.

Dias depois, voltou a defender a retomada de áreas sob domínio do crime e afirmou que pretende realizar operações de segurança baseadas em planejamento técnico.

É exatamente por defender essa política que o candidato deve ser questionado de maneira objetiva sobre suas próprias atividades eleitorais:

Sua campanha comunica previamente às forças de segurança quando entra em comunidades controladas por facções?

Quem organiza o acesso?

Há contatos com associações de moradores ou outras lideranças locais?

A campanha já recebeu exigências, ameaças ou condições impostas por criminosos?

Paes ou seus assessores já receberam aviso de que poderiam ou não entrar em algum território?

E por que alguns candidatos afirmam não ter condições de realizar o mesmo tipo de campanha?

São perguntas legítimas — e que merecem respostas igualmente claras.

A pergunta permanece aberta

A influência de organizações criminosas nas eleições fluminenses não é uma teoria.

Somente em setembro, o TRE-RJ já havia indeferido dez registros de candidatura com fundamento em vínculos considerados suficientemente robustos com organizações criminosas ou estruturas paramilitares.

Nesta terça-feira, 22 de setembro, a Reuters também destacou o esforço sem precedentes das autoridades eleitorais brasileiras para impedir a infiltração de organizações criminosas nas eleições de 2026.

Por isso, saber quem consegue fazer política dentro de territórios dominados pelo poder armado — e em quais condições — é assunto de interesse público.

No caso de Eduardo Paes, há questionamentos políticos documentados, alianças que já foram objeto de questionamento judicial e agendas eleitorais realizadas em comunidades.

O que ainda não apareceu publicamente é a peça essencial para transformar suspeita em acusação: prova de que o acesso do candidato às comunidades decorra de pacto, autorização negociada ou concessão de benefícios a criminosos.

Enquanto essa evidência não existir, a pergunta jornalística permanece válida — mas a resposta continua em aberto:

em um Rio onde o próprio Estado reconhece que milhões vivem sob a influência de poderes armados, quais são exatamente as condições que permitem a um candidato circular e fazer campanha nesses territórios? 


Por Marcos Soares - jornalista e Analista Político