Por Marcos Soares — Jornalista e Analista Político

O Brasil está a poucos dias de descobrir quem receberá das urnas a confiança necessária para comandar o país pelos próximos quatro anos. Mas, diante da crescente tensão política e institucional, surge uma questão ainda mais importante do que saber quem vencerá: todos estarão preparados para aceitar uma eventual derrota?

Essa pergunta precisa valer para a direita, para a esquerda, para o governo, para a oposição e também para as instituições responsáveis por garantir a normalidade democrática.

Nos últimos dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a tratar publicamente do risco de interferência estrangeira nas eleições brasileiras.

Em entrevista à CNN, no dia 21 de setembro, Lula afirmou ter pedido ao presidente norte-americano Donald Trump que os Estados Unidos não interferissem no processo eleitoral brasileiro. Na mesma entrevista, Lula disse que Trump teria informado que não pretendia se envolver na eleição brasileira. O presidente também falou em indícios relacionados ao uso de inteligência artificial, mas reconheceu naquele momento que havia apenas suspeitas.

O assunto não nasceu exclusivamente no discurso eleitoral de Lula.

Um relatório da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, alertou autoridades brasileiras sobre possíveis riscos de influência externa no processo eleitoral. Autoridades francesas e alemãs também receberam informações brasileiras sobre alegações de interferência estrangeira.

Mas existe outra pergunta legítima que precisa ser feita:

até que ponto a insistência antecipada nessa narrativa poderá ser utilizada politicamente caso o resultado das urnas seja desfavorável ao atual presidente?

O precedente perigoso da contestação antecipada

Toda democracia começa a entrar em terreno perigoso quando seus principais atores estabelecem, antes mesmo da abertura das urnas, explicações capazes de justificar uma eventual derrota.

Se um candidato vence, as instituições funcionaram.

Se perde, houve interferência externa?

Esse raciocínio seria perigoso independentemente de quem estivesse no Palácio do Planalto.

As urnas não podem ser legítimas somente quando confirmam as expectativas daqueles que estão no poder.

Democracia exige algo muito mais difícil: aceitar que o eleitor também possui o direito de mandar um governante embora.

É justamente por isso que as declarações sobre uma possível atuação estrangeira precisam ser acompanhadas por provas, transparência e investigação institucional. Havendo interferência, ela deve ser demonstrada. Havendo crime, os responsáveis devem responder.

Mas transformar suspeitas em justificativa política antecipada para uma eventual derrota produziria enorme instabilidade.

E onde entram Flávio Dino e Gilmar Mendes?

A preocupação aumenta porque o Poder Judiciário assumiu protagonismo incomum nesta reta final de campanha.

Nesta quinta-feira, 1º de outubro, o ministro Gilmar Mendes determinou a participação do candidato Renan Santos no debate da TV Globo, numa decisão relacionada diretamente às regras do confronto presidencial. A medida ocorreu depois de decisões anteriores diferentes envolvendo a participação de candidatos no encontro.

Ao mesmo tempo, Flávio Dino aparece no centro de outra disputa institucional envolvendo a fiscalização da propaganda eleitoral no TSE. Um pedido apresentado pelo deputado Paulinho da Força busca afastar Kassio Nunes Marques e André Mendonça da análise de determinadas ações, e o caso está sob responsabilidade de Dino.

Dino também participou das controvérsias jurídicas recentes envolvendo conteúdos relacionados a Nossa Senhora Aparecida e à candidatura de Flávio Bolsonaro, episódio que provocou decisões divergentes dentro do próprio Judiciário.

O STF e TSE estarão sob enorme pressão justamente no momento em que cada decisão judicial poderá produzir efeitos políticos.

E quanto maior o poder exercido por uma instituição, maior também precisa ser sua preocupação com transparência, previsibilidade e respeito aos limites constitucionais.

O Judiciário não pode se transformar em terceiro turno

A função dos tribunais não é escolher presidente da República.

É garantir que o povo possa escolhê-lo.

Se Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato vencer legitimamente, o resultado precisa ser respeitado pelos derrotados.

Não pode existir democracia de mão única.

Trocar a expressão “fraude nas urnas” por “interferência estrangeira” não pode se tornar um mecanismo para questionar um resultado sem provas.

E se Lula perder?

É aqui que estará o verdadeiro teste das instituições brasileiras.

Uma eventual derrota do atual presidente deverá significar apenas aquilo que significa em qualquer democracia madura: alternância de poder.

O governo termina.

Outro começa.

Simples assim.

Caso Lula seja derrotado, caberá ao presidente reconhecer o resultado depois da conclusão dos procedimentos previstos pela legislação eleitoral. Da mesma maneira, uma eventual derrota de seus adversários deverá ser respeitada por eles.

O que existe é um ambiente extraordinariamente tensionado, com acusações de interferência internacional, decisões judiciais interferindo em aspectos importantes da campanha e disputas internas dentro das próprias cortes superiores.

Isso já deveria ser suficiente para colocar toda a sociedade em estado de atenção democrática.

Não para antecipar conspirações.

Mas para exigir respeito rigoroso às regras.

Quem decidirá é o eleitor

Nem Washington.

Nem Brasília.

Nem o Palácio do Planalto.

Nem ministros do Supremo Tribunal Federal.

No domingo, quem possui a palavra decisiva é o cidadão brasileiro diante da urna.

Depois disso, cabe às instituições contar os votos, fiscalizar a legalidade do processo e cumprir a Constituição.

Se houver irregularidade, investigue-se.

Se houver interferência estrangeira, prove-se e responsabilizem-se os envolvidos.

Mas se houver simplesmente uma derrota eleitoral, ela deverá ser reconhecida como aquilo que é: a decisão soberana do eleitor brasileiro.

O maior perigo para uma democracia não está apenas em quem tenta derrubar suas instituições pela força.

Também aparece quando qualquer grupo passa a acreditar que somente o resultado que lhe interessa pode ser considerado legítimo.

A eleição de 2026 será, portanto, mais do que uma disputa entre Lula, Flávio Bolsonaro e os demais candidatos.

Será um teste para todos.

Quem vencer terá de governar dentro da Constituição.
Quem perder terá de respeitar as urnas.
E quem julgar terá de demonstrar absoluta imparcialidade.

Qualquer caminho diferente desses colocará o Brasil diante de uma crise institucional que ninguém deveria desejar.