Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) avaliam que uma ala da Corte estaria construindo um ambiente político e jurídico capaz de sustentar questionamentos sobre o resultado das eleições presidenciais de 2026 caso o senador Flávio Bolsonaro (PL) vença a disputa.

Segundo a reportagem publicada nesta segunda-feira (28), os magistrados consultados enxergam a formação de uma narrativa segundo a qual decisões judiciais, investigações e vazamentos de informações estariam sendo influenciados por interesses político-eleitorais. A avaliação foi apresentada pelas fontes de forma reservada e não representa uma manifestação institucional do Supremo.

Um dos pontos de tensão envolve o ministro André Mendonça, atualmente vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e relator de processos relacionados ao Banco Master no STF. Nos bastidores descritos pela reportagem, questionamentos sobre uma suposta parcialidade do magistrado fariam parte do cenário de divergências internas na Corte.

Um dos ministros consultados pela revista afirmou que estaria sendo criado um ambiente para futuros questionamentos. Outro avaliou que o cenário poderia alimentar dúvidas sobre a neutralidade das instituições envolvidas no processo eleitoral. As fontes não foram identificadas.

Gilmar fala em “politização” da Justiça Eleitoral

As discussões ganharam força depois de declarações públicas do decano do STF, ministro Gilmar Mendes.

Em publicação feita em 19 de setembro, Gilmar afirmou considerar grave o risco de “politização da Justiça Eleitoral” e defendeu que integrantes do TSE mantenham atuação imparcial e apartidária. O ministro declarou ainda que partidos políticos e o Ministério Público Eleitoral devem questionar situações de eventual suspeição quando identificarem elementos para isso.

Gilmar também afirmou que o Supremo continuará funcionando como “instância de supervisão”, intervindo quando considerar necessário para assegurar seus precedentes e a Constituição. A expressão utilizada pelo ministro foi “instância de supervisão”, e não propriamente “instância revisora”.

A manifestação ocorre num momento de atritos públicos entre integrantes do STF. Gilmar Mendes teve divergências recentes com André Mendonça e com o atual presidente do TSE, Kassio Nunes Marques. Ambos também integram o Supremo e estarão na cúpula da Justiça Eleitoral durante o processo eleitoral de 2026.

Resultado eleitoral no centro das preocupações

Ministros consultados interpretam essas manifestações sobre imparcialidade, suspeição e supervisão do processo eleitoral como elementos que poderiam ganhar importância caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente.

Até o momento, não há decisão oficial do STF anunciando qualquer iniciativa para contestar antecipadamente um eventual resultado eleitoral, nem demonstração pública de que a Corte tenha adotado institucionalmente a avaliação relatada pelas fontes da revista.

O que existe é uma disputa de interpretações dentro e fora do Judiciário sobre os limites da atuação do STF em relação à Justiça Eleitoral e sobre até que ponto a Corte poderia intervir em decisões do TSE.

O episódio acrescenta um novo componente à tensão institucional às vésperas das eleições de outubro. Com ministros do Supremo também integrando o TSE e divergências internas cada vez mais expostas publicamente, o debate sobre imparcialidade, limites institucionais e respeito ao resultado das urnas tende a permanecer no centro da discussão política e jurídica durante a reta final da campanha.