O Paraguai vem ganhando espaço no radar de empresários, investidores e brasileiros que buscam estabelecer negócios ou uma nova residência fora do país. O movimento, que já vinha sendo observado nos últimos anos, ganhou força em 2025 e 2026, impulsionado por incentivos à produção, menor carga tributária em determinadas atividades, custos operacionais competitivos e proximidade geográfica com o Brasil.

Dados oficiais da Direção Nacional de Migrações do Paraguai mostram que o país recebeu 47.687 pedidos de residência de estrangeiros em 2025, crescimento superior a 63% em relação ao ano anterior. No mesmo período, foram concedidas 40.600 residências. Os brasileiros lideraram com ampla vantagem: 23.526 autorizações foram destinadas a cidadãos do Brasil, o equivalente a cerca de 58% do total concedido.

O movimento também avançou em 2026. Já nos primeiros 20 dias do ano, o Paraguai havia recebido 2.817 solicitações de residência, aproximadamente 79% acima do registrado no mesmo período de 2025.

Empresas brasileiras ampliam presença

O interesse não está restrito às pessoas físicas. Empresas brasileiras também vêm ampliando investimentos e operações no território paraguaio.

Segundo a Câmara de Comércio Paraguai-Brasil, o Brasil permaneceu no início de 2026 como uma das principais origens de investimento estrangeiro no país, com recursos concentrados especialmente nos setores de comércio, serviços, agroindústria e manufatura. Grandes grupos brasileiros, inclusive dos setores têxtil, alimentício, metalúrgico, de autopeças e plástico, passaram a avaliar ou executar projetos de instalação no Paraguai.

Dados divulgados pelo Banco Central do Paraguai também reforçam a importância brasileira. Entre 2016 e 2024, investimentos originários do Brasil representaram aproximadamente 21% dos fluxos de investimento direto recebidos pelo país, segundo estudo divulgado em agosto deste ano.

Ao final de 2024, o estoque de investimento direto estrangeiro no Paraguai alcançava aproximadamente US$ 10,4 bilhões, com comércio, intermediação financeira, produção de óleos e transporte entre as atividades de maior participação. Brasil aparece entre os principais países investidores.

Regime de maquila é um dos principais atrativos

Entre os mecanismos que ajudam a explicar o interesse empresarial está o chamado Regime de Maquila, utilizado principalmente por indústrias e empresas voltadas à exportação.

A legislação paraguaia atualizada em 2025 estabelece um tributo único de 1%, calculado sobre o valor agregado no território paraguaio ou sobre o valor da fatura de exportação, prevalecendo o maior deles, para operações enquadradas no programa. A legislação também prevê exonerações de outros tributos nacionais relacionados às atividades realizadas dentro do regime, observadas as condições legais.

O sistema permite que empresas instaladas no Paraguai importem temporariamente matérias-primas e determinados insumos, realizem processos industriais ou de serviços no território nacional e posteriormente exportem a produção.

Para setores industriais intensivos em energia, mão de obra e logística, essa estrutura tem colocado cidades próximas da fronteira brasileira entre as regiões observadas por novos investidores.

O Paraguai também possui alíquota geral de 10% para o Imposto de Renda Empresarial (IRE). Já a distribuição de dividendos e lucros está sujeita a regras próprias: atualmente, o imposto correspondente é de 8% para residentes e 15% para não residentes.

Alto Paraná ganha protagonismo

Regiões como Ciudad del Este, Hernandarias e outras cidades do departamento de Alto Paraná estão entre os locais beneficiados pela expansão de atividades empresariais ligadas ao Brasil.

Um exemplo divulgado pela própria Rede de Investimentos e Exportações do Paraguai, a Rediex, envolve a brasileira BOOS Mangueiras e Eletrodutos. A companhia iniciou processo para instalar uma unidade industrial em Alto Paraná utilizando o regime de maquila, com o objetivo de atender inclusive ao mercado brasileiro a partir do Paraguai.

O movimento mostra uma mudança na relação econômica entre os dois países. Se durante décadas o Paraguai foi associado no imaginário brasileiro principalmente ao comércio de fronteira, hoje o país procura se posicionar também como plataforma de produção industrial, exportação, serviços e investimentos.

Quase 2,4 mil empresas demonstraram interesse

O interesse internacional pelo país também cresceu de maneira significativa.

Segundo a Rediex, aproximadamente 2.354 empresas de 41 países demonstraram interesse em investir no Paraguai durante 2025, número que quase dobrou o recorde registrado anteriormente. O Brasil aparece entre os países de origem dessas companhias.

Outro levantamento divulgado em 2026 aponta que já existiam 165 empresas maquiladoras com participação de capital brasileiro, integral ou em associação com investidores de outros países.

Brasileiros também procuram custo de vida e oportunidades

Entre pessoas físicas, os motivos para a mudança são diversos.

Reportagens e dados migratórios apontam procura por custo de vida competitivo, oportunidades de empreendedorismo, proximidade com o Brasil e condições tributárias diferentes das brasileiras. Há também trabalhadores remotos, aposentados, empresários e famílias entre aqueles que estão buscando residência no país.

A própria Direção Nacional de Migrações do Paraguai atribui parte do crescimento à combinação de sistema tributário considerado competitivo pelo governo local, localização estratégica, potencial logístico, custo de vida e processos de residência relativamente acessíveis.

Mudar de país não significa automaticamente deixar de pagar impostos no Brasil

Apesar do interesse crescente, especialistas alertam que obter residência paraguaia ou abrir uma empresa no país vizinho não elimina automaticamente obrigações tributárias no Brasil.

Para brasileiros que deixam efetivamente o país em caráter permanente, a Receita Federal estabelece procedimentos específicos para mudança da residência fiscal, incluindo a Comunicação de Saída Definitiva e posteriormente a Declaração de Saída Definitiva do País.

A Receita Federal também advertiu, em agosto de 2026, que o aumento nas regularizações de saída fiscal não deve ser interpretado automaticamente como número de brasileiros que deixaram recentemente o país. Segundo o órgão, parte dos registros corresponde a pessoas que já viviam no exterior e apenas regularizaram posteriormente sua situação.

Por isso, estruturas empresariais internacionais e mudanças de domicílio fiscal exigem análise jurídica, contábil e tributária individualizada.

Paraguai tenta mudar de patamar econômico

O crescimento das solicitações de residência, a expansão do regime de maquila e a chegada de novos investimentos mostram um Paraguai que tenta assumir posição cada vez mais relevante dentro das cadeias produtivas da América do Sul.

Para empresas brasileiras, a proximidade territorial facilita logística e integração com fornecedores e consumidores do Brasil. Para o Paraguai, a entrada dessas companhias representa potencial geração de empregos, aumento da produção industrial, exportações e incorporação de novas tecnologias.

Os números indicam que não se trata apenas de um fenômeno relacionado ao comércio de fronteira. O Paraguai está se consolidando como alternativa regional para brasileiros interessados em morar, empreender e produzir fora do Brasil, enquanto o capital brasileiro assume papel relevante na transformação econômica do país vizinho.

O tamanho e a duração desse movimento dependerão, porém, da evolução das economias dos dois países, da estabilidade das regras tributárias, da infraestrutura paraguaia e da capacidade do país de absorver novos investimentos sem perder as vantagens competitivas que atualmente ajudam a atrair empresários e residentes.