Equipe médica durante o procedimento inédito no Estado do Rio. (CRÉDITOS DA IMAGEM: Assessoria de Comunicação/SES-RJ) 

O Estado do Rio de Janeiro deu um passo importante na área de transplantes. Pela primeira vez, foi realizada a captação de um intestino para transplante no estado, ampliando as possibilidades de tratamento para pacientes que enfrentam casos graves de falência intestinal.

A captação foi realizada pela equipe do Programa RJ Transplantes, da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ), no último sábado (5 de setembro), em uma unidade pública da Região Metropolitana.

Foram captados o intestino grosso e o intestino delgado de um doador. Os órgãos foram destinados a uma paciente de 40 anos, que estava internada no Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro, única unidade habilitada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no estado para realizar esse tipo de procedimento.

A realização do primeiro transplante de intestino representa um avanço importante para a saúde pública fluminense.

Na prática, pacientes que antes precisavam ser transferidos para outros estados em busca desse tratamento especializado passam a ter a possibilidade de serem atendidos dentro do próprio Rio de Janeiro.

Segundo o diretor do RJ Transplantes, Alan Melquíades, a realização do procedimento amplia a capacidade da rede pública para atender pacientes com falência intestinal grave.

“O procedimento, que é considerado complexo, amplia a capacidade da rede pública fluminense para atender pacientes com falência intestinal. Hoje, eles conseguem ser tratados e reabilitados no Estado do Rio, não sendo mais necessária a transferência.”

Um procedimento de alta complexidade

O transplante de intestino isolado é diferente do transplante multivisceral ou do transplante combinado de fígado e intestino.

Na modalidade isolada, o objetivo é substituir especificamente o intestino comprometido. Para isso, é necessário que o fígado do paciente esteja saudável e funcionando adequadamente.

Já o transplante multivisceral é indicado para situações ainda mais complexas e pode envolver a substituição de vários órgãos localizados na região abdominal.

De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde, atualmente não há pacientes aguardando por transplante multivisceral no estado e também não existe uma fila exclusiva para transplante de intestino isolado no Rio de Janeiro.

Doação de órgãos é o ponto de partida

Por trás de cada transplante existe uma decisão que pode significar a diferença entre a vida e a morte para outra pessoa: a autorização da família para a doação de órgãos.

O secretário de Estado de Saúde, Ronaldo Damião, destacou que o Rio de Janeiro ocupa atualmente o segundo lugar entre os estados brasileiros em autorização familiar para doação de órgãos, de acordo com o Registro Brasileiro de Transplantes.

“É um gesto de amor ao próximo, que já salvou mais de 17 mil vidas no estado.”

A campanha ganha ainda mais importância durante o Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos e à importância de conversar sobre o assunto com familiares.

Isso porque, apesar dos avanços, ainda existe um grande desafio: convencer mais famílias a dizerem sim.

Nos primeiros sete meses de 2026, a taxa de negativa familiar para a doação de órgãos no Rio de Janeiro ficou em torno de 38%, segundo os dados apresentados pelo RJ Transplantes.

Para o diretor-geral do programa, aumentar a autorização das famílias é fundamental.

“Estarmos em segundo lugar no Brasil é importante, mas podemos alcançar ainda mais e sermos, de fato, referência no país em relação à doação. Não há transplante sem doação e só temos a doação quando a família diz sim.”

Informação também salva vidas

Um dos principais desafios está justamente na informação.

Muitas famílias ainda têm dúvidas sobre o processo de doação, especialmente em relação à morte encefálica.

Por isso, as equipes responsáveis pelo acolhimento e pela abordagem das famílias recebem treinamento permanente.

Mas o trabalho não pode ficar restrito aos profissionais de saúde.

É preciso que a informação chegue à população antes mesmo de uma família enfrentar uma situação tão difícil.

Conversar sobre doação de órgãos em casa pode fazer diferença.

Quando uma pessoa manifesta claramente à família que deseja ser doadora, seus familiares estarão mais preparados para tomar uma decisão diante de uma eventual situação de morte encefálica.

Mais transplantes, mais esperança

Os números do RJ Transplantes mostram a dimensão desse trabalho.

Até 8 de setembro de 2026, o programa registrava a captação de centenas de órgãos no estado, entre rins, fígados, corações, pulmões e, agora, também intestino.

O primeiro transplante intestinal realizado no Rio não representa apenas um novo procedimento médico.

Representa a abertura de uma nova possibilidade para pacientes que enfrentam uma condição grave e que, até então, poderiam precisar deixar o estado em busca de tratamento.

É também um lembrete de que a medicina avança quando existe uma rede preparada para transformar uma situação de dor em uma oportunidade de vida.

No fim das contas, nenhum transplante começa dentro de um centro cirúrgico.

Começa muito antes.

Começa quando alguém decide doar.

E, principalmente, quando uma família, mesmo diante da dor da perda, consegue dizer sim.