Preso desde 12 de setembro do ano passado, Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, articula uma proposta de delação premiada que promete ampliar o alcance político do escândalo envolvendo descontos e desvios em benefícios de aposentados e pensionistas. A movimentação ocorre em meio ao avanço das investigações e ao cerco judicial que passou a atingir membros de sua própria família.
A disposição para colaborar com as autoridades teria se intensificado após a prisão de seu filho, Romeu Carvalho Antunes, detido em dezembro sob acusação de atuar como braço operacional do pai no esquema. A ampliação do foco investigativo também alcançou Tânia Carvalho dos Santos, convocada a depor pela CPMI do INSS — oitiva ainda não realizada, o que, segundo interlocutores, aumentou a tensão nos bastidores.
Nas últimas semanas, o operador reuniu advogados para formalizar uma proposta de colaboração. Segundo apuração, ele estaria disposto a detalhar supostas relações de negócios com Fábio Luiz Lula da Silva, envolvendo atividades de lobby nas áreas de educação e saúde, além de conexões com o próprio esquema que operava no Instituto Nacional do Seguro Social.
O eventual conteúdo da delação lança nova pressão sobre o governo Lula da Silva, que já enfrenta críticas pela fragilidade nos mecanismos de controle e fiscalização da máquina pública. Para opositores, o caso expõe falhas estruturais na supervisão de contratos e convênios do órgão responsável por milhões de beneficiários.
A relatoria do caso no Supremo Tribunal Federal está sob responsabilidade do ministro André Mendonça, que também deverá conduzir a análise de desdobramentos ligados ao Banco Master, após a saída de Dias Toffoli da relatoria.
Há, contudo, incertezas quanto à aceitação de uma eventual delação. O Ministério Público já rejeitou acordos em casos recentes, como no episódio envolvendo Beto Louco, acusado de participação em esquema de adulteração de combustíveis. A sinalização foi interpretada por juristas como indicativo de maior rigor na concessão de benefícios a colaboradores.
Outro elemento que alimenta o debate político é o fato de Fábio Luiz residir atualmente em Madri, na Espanha. Ele nunca comentou publicamente as investigações. Coube ao próprio Lula se manifestar, em entrevista ao UOL, afirmando ter orientado o filho a assumir responsabilidades caso haja irregularidades e a se defender se inocente.
A depender do teor das revelações, o escândalo do INSS pode deixar de ser apenas mais um episódio administrativo e se transformar em um teste político de grandes proporções para o Palácio do Planalto.

