Por Mara Costa
A América Latina está capturando investimentos que antes iam para a Ásia. Mas as empresas estão replicando o mesmo modelo operacional que criou o problema que prometiam resolver.
Toda temporada de liquidação conta a mesma história. Prateleiras com 40%, 60%, 70% de desconto – não porque houve demanda inesperada, mas porque não houve. Os produtos chegam. Os consumidores, não. O resultado tem nome: dead stock. E nos Estados Unidos, esse desperdício silencioso custa ao varejo dezenas de bilhões de dólares por ano em capital imobilizado, margens destruídas e mercadorias que terminam em aterros.1
O problema não é novo. O que mudou é a escala — e a urgência de encontrar uma saída que vá além de prateleiras em liquidação.
UM PROBLEMA ESTRUTURAL, NÃO LOGÍSTICO
Durante décadas, a resposta do setor ao desperdício de inventário foi ajustar a previsão de demanda.
Melhores algoritmos, mais dados históricos, ciclos de planejamento mais curtos. O pressuposto era que o modelo estava correto e a informação insuficiente. Essa premissa está sendo questionada.
Uma revisão sistemática da literatura recente, registrada em PROSPERO e conduzida por Royal Saluti Nunes – pesquisador brasileiro que publicou uma série de três artigos sobre gestão de estoques em comércio transfronteiriço -, conclui que o dead stock não é um problema de previsão, mas de arquitetura operacional?2 O modelo predominante foi otimizado para um mundo de demanda estável, custos de frete previsíveis e flutuações cambiais marginais. Esse mundo foi alterado de forma permanente a partir de 2020.
Os dados são consistentes com esse diagnóstico. Importadores latino-americanos enfrentam custos de frete até 57% mais elevados que contrapartes em economias desenvolvidas. Tarifas médias de importação de 12% em economias de baixa renda adicionam fricção. E a inviabilidade econômica de devoluções cross-border significa que quando uma previsão falha, o capital fica preso — indefinidamente.
O NEARSHORING NÃO É SUFICIENTE – AINDA-
O nearshoring para a América Latina está acelerando. O Banco Interamericano de
Desenvolvimento estima que a tendência pode adicionar até US$ 78 bilhões em exportações regionais adicionais a partir de 2024.3
O México sozinho registrou crescimento superior a 10% ao ano em investimento direto estrangeiro, atingindo US$ 34 bilhões em 2026. Os corredores logísticos entre os Estados Unidos e a América Latina estão se tornando economicamente competitivos com rotas transpacíficas que levam 30 dias ou mais.
O problema é o que as empresas fazem quando chegam. A maioria replicou na América Latina o mesmo modelo que usava com fornecedores asiáticos: contêineres cheios, previsões de longo prazo, estoques de segurança inflados. A geografia mudou. A arquitetura, não. O resultado é desperdício crônico em uma nova localização — com o agravante de que os mercados emergentes amplificam o problema em vez de atenuá-lo.
“O modelo asset-light é a próxima fronteira. Quem não adotar estará em desvantagem competitiva em cinco anos.”
ESPECIALISTA EM SUPPLY CHAIN, MIT CENTER FOR TRANSPORTATION & LOGISTICS 4
SINCRONIZAR COM A DEMANDA: O QUE ISSO SIGNIFICA NA PRÁTICA
A pesquisa de Nunes propõe um framework — denominado DSALP, de Demand-Synchronized Asset-Light Procurement – que inverte a lógica tradicional. Em vez de antecipar estoques com base em previsões, as aquisições são acionadas por sinais de demanda em tempo real. A compra do consumidor dispara um sinal que percorre a cadeia, acionando produção e transporte. Isso exige integração digital profunda – APis conectando ponto de venda a planejamento de produção, algoritmos que ajustam previsões em horas, não semanas — mas elimina estruturalmente a necessidade de estoques de segurança inflados.
O autor valida o framework em dois contextos operacionais distintos. No segmento B2C, uma operação de e-commerce que processou milhares de pedidos e gerou receita bruta superior a R$ 3 milhões ao longo de três anos, com ROAS acima de 3x durante o período pandêmico, sem infraestrutura de armazenagem fixa. No segmento B2B industrial, a estruturação da entrada de uma siderúrgica turca Fortune 500 em seis mercados latino-americanos — Peru, Brasil, Chile, Paraguai, Colômbia e Argentina — com dezenas de milhares de toneladas exportadas e receita em escala de dezenas de milhões de dólares, igualmente sem investimento direto em estrutura local.
A transferibilidade entre B2C e B2B, entre e-commerce de nicho e manufatura industrial, é o resultado mais relevante para operadores que pensam em escala. O framework não é setorial — é estrutural.
ONDE A ADOÇÃO ESTÁ: MUITO ATRÁS DO DISCURSO
A lacuna entre o que o setor discute e o que efetivamente opera é significativa. Estimativas recentes de mercado indicam que apenas uma fração das PMEs latino-americanas opera com modelos sincronizados com demanda, com projeção de crescimento para os próximos anos — mas os números precisos dependem do critério de classificação utilizado e devem ser tratados com cautela até que pesquisas setoriais com metodologia pública estejam disponíveis. Nos Estados Unidos, grandes varejistas como Amazon, Target e Walmart estão experimentando modelos híbridos, mas o varejo de médio porte ainda opera predominantemente no modelo tradicional.
A perspectiva da Gartner é mais cautelosa do que o otimismo de mercado sugere: “O modelo funciona bem para operações de volume médio com demanda volátil, mas exige investimento significativo em tecnologia e expertise digital. Não é adequado para todos os contextos.”6 Commodities de granel, setores com demanda altamente previsível e operações em estágios iniciais de digitalização podem não se beneficiar da transição imediata. A tese não é que o asset-light substitui tudo — é que, onde a demanda é volátil e o capital de giro é caro, o custo de não adotar está crescendo.
O QUE ESTÁ EM JOGO
Para o varejo americano, as projeções do framework indicam que a adoção de modelos sincronizados com demanda pode reduzir o dead stock em até 82% e liberar até 65% do capital atualmente imobilizado em estoques. A redução de lead time de mais de 100 dias para cerca de 25 dias não é apenas uma métrica operacional — é a diferença entre uma operação que responde a mudanças de mercado em tempo real e uma que toma decisões de compra que só se tornam visíveis na prateleira meses depois.
Para PMEs latino-americanas, o modelo oferece algo diferente: acesso. Historicamente, operar em comércio internacional de alto volume exigia capital massivo para infraestrutura. O modelo asset-light reduz essa barreira — uma PME brasileira ou mexicana pode integrar-se a cadeias globais de valor sem imobilizar capital em armazéns e frotas. A expertise digital substitui o capital bruto como vantagem competitiva.
O mercado de logística de e-commerce na América Latina deve crescer de US$ 5,7 bilhões em 2024 para US$ 14,5 bilhões até 2032 — taxa composta de aproximadamente 12% ao ano? Parte desse crescimento será capturado por operadores que chegaram primeiro à integração digital. Parte será perdida para o mesmo desperdício crônico que assola o varejo americano há décadas.
O nearshoring está acontecendo. A questão operacional — como estruturar a cadeia para que a proximidade geográfica se converta em eficiência real — ainda não tem resposta consolidada. A pesquisa acadêmica sobre o tema está avançando. As empresas que aguardarem a convergência entre os dois podem encontrar o mercado já definido.
- Estimativas de desperdício de inventário no varejo americano variam entre US$ 50 bilhões e US$ 100 bilhões anuais, a depender da metodologia. Ver: National Retail Federation, Retail’s Inventory Management Report (2023).
- Nunes, R.S. (2024). “Cross-Border Dead Stock: How Inventory Inefficiency Impacts International Trade in Specialty Consumer
Goods Between Emerging and Developed Markets.” Revisão sistemática registrada em PROSPERO. // Nunes, R.S. (2024). “Demand-Synchronized Procurement in Cross-Border Retail: A Framework for Asset-Light Operations Bridging Latin American Supply Chains and Digital Consumer Markets.” // Nunes, R.S. (2024). “Bridging the Americas: How Demand-Synchronized Models Can Reduce US
Retail Waste While Strengthening US-Latin America Trade Corridors.”
- Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Nearshoring in Latin America and the Caribbean (2023).
- MIT Center for Transportation & Logistics. Declaração de especialista em supply chain. [Nome a confirmar pelo autor — a publicação aguarda confirmação de atribuição para edição impressa.]|
- Dados de adoção de modelos asset-light em PMEs latino-americanas circulam em relatórios de consultorias, mas carecem de metodologia pública consolidada. Sugerimos referência a: McKinsey Global Institute, Supply Chain Resilience Report (2024), ou pesquisa setorial com amostra identificada.
- MIT Center for Transportation & Logistics. Declaração de especialista em supply chain. [Nome a confirmar pelo autor — a publicação aguarda confirmação de atribuição para edição impressa.]|
- Dados de adoção de modelos asset-light em PMEs latino-americanas circulam em relatórios de consultorias, mas carecem de metodologia pública consolidada. Sugerimos referência a: McKinsey Global Institute, Supply Chain Resilience Report (2024), ou pesquisa setorial com amostra identificada.
- Gartner, declaração de analista de operações. [Nome a confirmar — mesma observação da nota 4.]
- Grand View Research, Latin America E-Commerce Logistics Market Report (2024).

