Depois de terminar o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 na primeira colocação, Flávio Bolsonaro (PL) iniciou uma nova fase de sua campanha com um objetivo central: transformar a vantagem obtida nas urnas em uma coalizão política capaz de ampliar sua votação no segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Com 100% das urnas apuradas, Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%. A diferença entre os dois ficou em apenas 1,87 ponto percentual, levando a disputa presidencial para uma nova votação marcada para 25 de outubro.

A proximidade dos números faz com que a campanha do candidato do PL trate as próximas semanas como uma nova eleição. O foco deixa de ser apenas a mobilização do eleitorado que já acompanha o bolsonarismo e passa a incluir a conquista dos votos destinados a candidatos eliminados no primeiro turno, além de eleitores que se abstiveram.

Busca pelos candidatos derrotados

Um dos primeiros movimentos de Flávio Bolsonaro após a votação foi intensificar as conversas com lideranças políticas que concorreram à Presidência.

Romeu Zema, do Novo, declarou apoio à candidatura de Flávio no segundo turno. Paralelamente, integrantes da campanha passaram a trabalhar pela aproximação com outras lideranças e partidos que ficaram fora da disputa final.

Nesta terça-feira (6), Flávio Bolsonaro e o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), têm agenda em Goiânia para uma articulação com Ronaldo Caiado. Segundo informações divulgadas pela imprensa, a movimentação busca formalizar a adesão do grupo político ligado ao ex-governador goiano à candidatura do PL.

O encontro demonstra uma das principais estratégias adotadas nesta segunda etapa da eleição: reunir diferentes setores da direita e da centro-direita em torno de uma candidatura única.

Tarcísio ganha papel estratégico

Reeleito governador de São Paulo no primeiro turno, Tarcísio de Freitas passou a desempenhar papel importante na articulação da campanha presidencial.

Além de participar das agendas de Flávio Bolsonaro, Tarcísio atua nas negociações com partidos e lideranças nacionais. Uma das frentes envolve o Republicanos, cuja direção discute o posicionamento da sigla para o segundo turno.

São Paulo, maior colégio eleitoral do país, deverá permanecer entre as prioridades da campanha. A participação direta de Tarcísio também permite que Flávio amplie suas agendas enquanto aliados realizam articulações simultâneas em diferentes regiões.

Consolidar a direita e avançar sobre o centro

Embora tenha conseguido votação expressiva no primeiro turno, o desafio da campanha agora será ultrapassar os limites do eleitorado tradicionalmente identificado com o bolsonarismo.

Por isso, a estratégia tende a combinar duas frentes: manter mobilizada a base conservadora e, ao mesmo tempo, apresentar propostas e discursos voltados aos eleitores de centro e centro-direita.

Reportagens publicadas após o primeiro turno apontam que aliados como Zema, Tarcísio e outras lideranças passaram a participar das articulações para ampliar esse arco político.

O cenário torna particularmente importantes os aproximadamente 9 milhões de votos destinados a outros candidatos no primeiro turno, além do contingente de eleitores que não compareceu às urnas. A abstenção ficou em torno de 21%, segundo dados citados após a apuração.

Minas, São Paulo e grandes colégios entram no radar

A campanha também deverá analisar de forma detalhada o mapa eleitoral do primeiro turno.

Flávio venceu em 14 estados e no Distrito Federal, enquanto Lula ficou à frente em 12 estados. Em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, Flávio registrou 48,2%, contra 43,3% de Lula. No Rio Grande do Sul, a diferença foi maior: 55,6% contra 35,7%.

O desempenho regional deverá orientar viagens, eventos e investimentos em comunicação durante as três semanas entre as duas votações.

Estados onde a diferença foi pequena, regiões nas quais existem grandes contingentes de eleitores indecisos e locais com disputas de segundo turno para governador também passam a ganhar peso na montagem da agenda presidencial.

Palanques estaduais serão usados para ampliar mobilização

Outro ativo da candidatura do PL é a presença de aliados envolvidos nas disputas estaduais.

Segundo levantamento do Poder360, candidatos ligados ao grupo político de Flávio estão presentes em diferentes disputas de segundo turno para governos estaduais, criando palanques regionais que podem ser utilizados para mobilizar o eleitorado presidencial.

Na prática, a estratégia permite que candidatos a governador, senadores, deputados e prefeitos aliados participem da campanha presidencial simultaneamente em diversos estados.

O fortalecimento do PL nas eleições legislativas também deverá ser utilizado politicamente pela candidatura. O desempenho do partido na Câmara e no Senado amplia a estrutura disponível para mobilização territorial e articulação com lideranças locais.

Campanha deve intensificar confronto de propostas

Com apenas dois candidatos na disputa, a tendência é de que o segundo turno concentre maior atenção nos posicionamentos de Flávio Bolsonaro e Lula sobre economia, segurança pública, emprego, programas sociais, relação com o Congresso e funcionamento das instituições.

Flávio já começou a confrontar propostas apresentadas pelo governo durante a campanha. Nesta terça-feira, por exemplo, criticou a proposta defendida por Lula relacionada ao fim da escala 6x1 e apresentou uma visão diferente para a organização das jornadas de trabalho.

Economia e mercado de trabalho devem ocupar espaço significativo no debate. O ex-presidente do Banco Central e ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles afirmou, nesta terça-feira, que ainda considera pouco claras as agendas econômicas apresentadas pelos dois candidatos, o que aumenta a pressão para que ambos detalhem suas propostas ao longo do segundo turno.

Segundo turno começa praticamente do zero

Apesar de Flávio Bolsonaro ter terminado o primeiro turno à frente, a diferença inferior a dois pontos percentuais mantém a disputa aberta.

O resultado da primeira votação oferece à campanha do PL uma base eleitoral expressiva, mas não garante automaticamente a repetição do desempenho no dia 25 de outubro.

Nas próximas semanas, Flávio terá de administrar simultaneamente diferentes desafios: preservar os quase 56 milhões de votos recebidos no primeiro turno, conquistar parcelas do eleitorado dos candidatos eliminados, ampliar alianças partidárias, reduzir resistências entre eleitores ainda distantes do bolsonarismo e aumentar o comparecimento de seus apoiadores às urnas.

Ao mesmo tempo, Lula reorganiza sua própria campanha e também busca novos apoios e eleitores que não participaram da primeira votação.

Assim, os primeiros movimentos de Flávio Bolsonaro depois do primeiro turno indicam que a campanha pretende transformar a liderança obtida nas urnas em uma frente política mais ampla, tendo Tarcísio de Freitas e outras lideranças como articuladores.

Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, a eleição entra agora em sua etapa decisiva: um confronto direto no qual cada apoio, cada estado e cada parcela do eleitorado que não escolheu nenhum dos dois finalistas no primeiro turno poderá assumir importância ainda maior.