BRASÍLIA — A atuação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), passou a ser acompanhada com atenção redobrada nos bastidores políticos e jurídicos de Brasília durante o período que antecede o segundo turno da eleição presidencial.

Segundo informações publicadas nesta segunda-feira (5) pelo jornalista Diego Amorim, do PlatôBR, advogados que atuam nos tribunais superiores e integrantes da classe política avaliam a possibilidade de novos desdobramentos envolvendo processos e investigações que estão sob responsabilidade do magistrado.

De acordo com a coluna, existe entre interlocutores políticos a avaliação de que decisões tomadas pelo Supremo ao longo do período eleitoral teriam contribuído para fortalecer a mobilização da direita e o desempenho de Flávio Bolsonaro no primeiro turno.

Essa interpretação, no entanto, representa uma leitura política dos interlocutores ouvidos pela publicação e não uma conclusão objetiva sobre as causas do resultado eleitoral.

Dentro desse ambiente de crescente tensão entre setores da política e do Judiciário, críticos da atuação de Dino chegaram a popularizar a expressão “Dinocracia”, utilizada em artigos e manifestações críticas ao protagonismo do ministro e do próprio Supremo em temas políticos e eleitorais.

Trajetória política de Dino volta ao debate

A reportagem do PlatôBR também recupera um episódio ocorrido há aproximadamente duas décadas, quando Flávio Dino deixou a magistratura para ingressar na política e disputar uma cadeira de deputado federal pelo PCdoB do Maranhão.

Na ocasião, conforme relatado pela coluna, ao ser questionado sobre a decisão de abandonar temporariamente a carreira jurídica, Dino teria respondido:

“Se não der certo, faço concurso de novo e volto para a magistratura.”

O episódio é citado pelo jornalista como exemplo da personalidade e da trajetória política do atual ministro do Supremo.

Expectativa sobre próximos movimentos

Ainda segundo o PlatôBR, pessoas próximas ao ministro não compartilhariam da avaliação de que a atuação do STF teria contribuído para impulsionar eleitoralmente Flávio Bolsonaro ou candidatos identificados com a direita.

É justamente diante dessa divergência de interpretações que setores políticos e jurídicos acompanham quais poderão ser os próximos movimentos do ministro nas semanas decisivas entre o primeiro e o segundo turno.

Entre advogados e lideranças consultados pela coluna, há expectativa sobre a possibilidade de novas decisões ou operações decorrentes de investigações já existentes alcançarem personagens politicamente próximos ao candidato Flávio Bolsonaro.

Até o momento, porém, não há confirmação de que uma operação específica contra a campanha de Flávio Bolsonaro tenha sido determinada por Dino. As possibilidades mencionadas pelo PlatôBR são apresentadas como avaliações e especulações de interlocutores de Brasília.

Emendas parlamentares estão entre os temas acompanhados

Um dos assuntos que alimentam essas avaliações é a fiscalização sobre emendas parlamentares.

Flávio Dino já determinou, em processos relacionados ao tema, medidas envolvendo a atuação da Polícia Federal e o controle da destinação de recursos públicos. Em agosto, por exemplo, o STF informou que o ministro determinou o envio à PF de informações sobre indicações de emendas atribuídas a presidentes de partidos, após considerar que dirigentes partidários sem mandato parlamentar não poderiam determinar a destinação desses recursos.

Em outro procedimento, Dino determinou que a Polícia Federal investigasse possíveis irregularidades identificadas em auditoria do Tribunal de Contas da União envolvendo transferências especiais conhecidas como “emendas Pix”. Entre os nomes alcançados naquela apuração estavam políticos de diferentes partidos.

Por isso, interlocutores mencionados pelo PlatôBR avaliam que novas etapas de investigações relacionadas às emendas podem produzir repercussões políticas durante a campanha eleitoral.

Willer Tomaz é citado em especulações

Outro personagem mencionado nas conversas de bastidores relatadas pela publicação é o advogado Willer Tomaz, apontado pelo PlatôBR como próximo de Flávio Bolsonaro.

Reportagem anterior do próprio veículo descreveu Tomaz como amigo do senador e mencionou sua presença em diferentes episódios de repercussão política e policial em Brasília.

Apesar das especulações mencionadas pela coluna, não há, até o momento, confirmação pública de uma nova operação determinada por Flávio Dino tendo Tomaz ou integrantes da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro como alvos.

Segundo turno aumenta tensão entre política e Judiciário

O ambiente institucional já vinha demonstrando sinais de tensão antes mesmo do primeiro turno.

Recentemente, a defesa de Flávio Bolsonaro solicitou ao presidente do STF, Edson Fachin, a suspeição de Flávio Dino em processos relacionados às eleições de 2026, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao próprio candidato do PL. A defesa argumentou existir uma relação histórica entre Dino e Lula que, na avaliação dos advogados, poderia comprometer a percepção de imparcialidade do magistrado.

Com o segundo turno presidencial entrando em sua fase decisiva, cada movimento do Supremo envolvendo candidatos, aliados políticos, emendas parlamentares ou investigações com potencial repercussão eleitoral deverá receber forte atenção de partidos, campanhas e da opinião pública.

Nesse cenário, Brasília entra nas próximas semanas sob intensa vigilância política: de um lado, setores que defendem a atuação do STF como parte do cumprimento de suas atribuições constitucionais; de outro, grupos que questionam o crescente protagonismo do Judiciário em assuntos diretamente relacionados ao ambiente político.

As expectativas relatadas nos bastidores, entretanto, precisam ser diferenciadas de decisões ou investigações efetivamente anunciadas. Até que novas medidas sejam oficialmente adotadas, eventuais operações envolvendo aliados de Flávio Bolsonaro permanecem no terreno da especulação política.