
A trajetória recente de Otoni de Paula terminou com um recado difícil de ignorar nas urnas. O deputado federal, que durante anos construiu parte importante de sua projeção política identificado com Jair Bolsonaro e com o eleitorado conservador e evangélico, viu sua votação despencar na eleição de 2026.
Em 2022, Otoni conquistou 158.507 votos para deputado federal no Rio de Janeiro. Quatro anos depois, concorrendo pelo PSD, recebeu apenas 19.364 votos, terminou na condição de suplente e ficou muito distante da reeleição. A redução foi de aproximadamente 87,8%, equivalente à perda de mais de 139 mil votos.
Os números permitem uma leitura política evidente: a mudança de posicionamento do parlamentar teve um custo eleitoral enorme.
Durante anos, Otoni esteve associado ao campo bolsonarista. Foi defensor de Bolsonaro, ocupou espaço entre lideranças evangélicas próximas à direita e adotou discurso duro contra adversários desse grupo político. Com o passar do tempo, entretanto, rompeu com esse ambiente e passou a fazer críticas cada vez mais contundentes ao bolsonarismo.
Em outubro de 2024, durante cerimônia no Palácio do Planalto, Otoni elogiou políticas sociais dos governos Lula e afirmou que programas como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida haviam beneficiado famílias humildes e integrantes das próprias igrejas evangélicas. A manifestação surpreendeu antigos aliados exatamente pelo contraste com sua atuação política anterior.
Pouco depois, Otoni chegou a comparar a relação de parte dos evangélicos com Bolsonaro à construção de um “bezerro de ouro”, argumentando que havia ocorrido uma espécie de idolatria política em torno do ex-presidente. Também declarou que gostaria de ajudar a retirar essa influência da igreja.
Em 2025, voltou a reforçar a ruptura ao afirmar que a igreja “não é Bolsonaro” e defender que os evangélicos não fossem tratados como massa de manobra política.
Para antigos apoiadores, porém, o movimento deixou de representar independência política e passou a ser interpretado como abandono do grupo responsável por impulsionar sua projeção nacional.
Da retórica conservadora à aproximação com antigos adversários
Outra contradição que marcou a trajetória recente de Otoni envolveu o prefeito Eduardo Paes.
Em 2024, ao decidir apoiar Paes na disputa pela Prefeitura do Rio, Otoni entrou em confronto público com o pastor Silas Malafaia. Na ocasião, Malafaia acusou o deputado de ter anteriormente chamado Paes de termos como “corrupto”, “incompetente”, “malandro” e “macumbeiro”, para depois participar da articulação da campanha do prefeito junto ao segmento evangélico.
Essa acusação deve ser registrada exatamente dessa forma: foi feita por Silas Malafaia contra Otoni, e não há base suficiente para transformar a frase atribuída ao parlamentar em citação direta sem essa ressalva.
O episódio simbolizou justamente aquilo que seus críticos passaram a apontar como incoerência: um político que durante anos utilizou linguagem fortemente direcionada ao público conservador e evangélico passou posteriormente a construir alianças com personagens que antes combatia.
“Nosso voto tem princípios e valores”
A mudança chama ainda mais atenção porque o próprio Otoni continuou utilizando, em outros momentos, linguagem conservadora.
Em abril de 2025, discursando na Câmara dos Deputados diretamente para Lula, afirmou:
“Nosso voto, Presidente Lula, tem princípios e tem valores.”
Na mesma manifestação, criticou duramente a posição do governo sobre o aborto e questionou de que adiantaria um eleitor apoiar políticas sociais quando discordasse moralmente do governo em questões consideradas fundamentais pela comunidade evangélica.
A fala evidencia uma das principais dificuldades políticas enfrentadas pelo deputado: Otoni tentou manter a identidade conservadora enquanto simultaneamente se afastava do bolsonarismo e estabelecia pontes com Lula e outros antigos adversários.
Em política, entretanto, reposicionamentos precisam convencer o eleitor. E, desta vez, os números indicam que essa reconstrução não funcionou.
De 158 mil para apenas 19 mil votos
A dimensão da derrota fica mais clara na comparação direta.
Em 2022:
158.507 votos.
Em 2026:
19.364 votos.
Foram 139.143 votos a menos.
Uma queda de aproximadamente 87,8%.
Otoni terminou apenas na 106ª colocação nominal entre os candidatos a deputado federal no Rio e ficou como suplente pelo PSD.
Sua carreira nacional cresceu justamente em meio ao avanço da direita, do conservadorismo e do bolsonarismo entre o eleitorado fluminense. Ao se afastar desse grupo, apoiar Eduardo Paes, aproximar-se institucionalmente de Lula e elevar o tom contra antigas lideranças, Otoni assumiu o risco de perder aqueles que antes enxergavam nele um representante desse campo político.
As urnas de 2026 mostraram o tamanho desse risco.
O eleitor conservador não acompanhou Otoni
O resultado deixa uma mensagem particularmente incômoda para o parlamentar: Otoni mudou de posição, mas grande parte de seus antigos eleitores aparentemente não mudou com ele.
Enquanto tentou apresentar sua transformação como independência política e rejeição à “idolatria”, muitos conservadores passaram a enxergá-la como abandono do bolsonarismo.
O julgamento definitivo sobre suas escolhas pertence ao eleitor.
E o eleitor falou.
De quase 160 mil votos para menos de 20 mil, a queda não pode ser tratada como detalhe estatístico.
Para seus críticos, foi a conta política de uma ruptura.
Para Otoni, representa agora o desafio de explicar como um deputado que chegou à Câmara impulsionado por uma poderosa base conservadora perdeu, em apenas uma eleição, quase nove de cada dez votos que havia conquistado quatro anos antes.
No fim, discursos podem mudar, alianças podem ser reconstruídas e adversários podem se transformar em parceiros.
Mas as urnas guardam memória.
Por: Marcos Soares - Jornalista e Analista Político



