
A nomeação da esposa de um policial militar cedido à Prefeitura do Rio de Janeiro para um cargo remunerado no Riocentro colocou em evidência a política de contratação e distribuição de funções na administração municipal. Glaucia Lobato Miranda da Silva ocupa um cargo de assessora com remuneração bruta mensal de R$ 21,8 mil, após ingressar na estrutura da prefeitura durante a gestão do ex-prefeito Eduardo Paes (PSD).
As informações foram divulgadas nesta quarta-feira (23) pelo jornalista investigativo Ruben Berta, em sua coluna Sem Filtro, publicada no portal Ururau Notícias.
Segundo a reportagem, o subtenente da Polícia Militar Gilberto Dias da Silva Sobrinho, marido de Glaucia, foi designado em janeiro de 2021 para exercer atividades na Casa Militar da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Em agosto daquele mesmo ano, aproximadamente sete meses após a transferência do policial, Glaucia passou a integrar a administração municipal, inicialmente como assistente do Núcleo de Articulação Social.
Sua trajetória profissional na estrutura pública ganhou um novo capítulo em abril de 2022, quando foi nomeada assessora no Riocentro, vinculado à administração indireta do município. Atualmente, sua remuneração bruta mensal chega a R$ 21,8 mil.
Falta de esclarecimentos sobre as atividades exercidas
Um dos pontos levantados pela reportagem diz respeito às funções efetivamente desempenhadas por Glaucia no Riocentro.
Até a publicação das informações, não haviam sido apresentados esclarecimentos sobre suas atribuições específicas, os critérios utilizados para sua nomeação ou as atividades desenvolvidas no exercício do cargo.
O levantamento também identificou registros em redes sociais relacionados a uma empresa ligada à assessora, especializada na locação de móveis e equipamentos para festas e eventos.
Procurada pelo jornalista responsável pela apuração original, a assessoria de imprensa da Prefeitura do Rio não apresentou respostas sobre os motivos da nomeação nem sobre as responsabilidades profissionais da funcionária. Glaucia também não foi localizada para comentar o caso.
A ausência dessas informações mantém em aberto questionamentos sobre os critérios administrativos adotados para o preenchimento do cargo e a compatibilidade entre a remuneração e as atribuições exercidas.
Marido recebe remuneração da Polícia Militar e adicional da prefeitura
A situação funcional de Gilberto Dias da Silva Sobrinho também foi abordada no levantamento.
Conforme os dados divulgados, o subtenente recebe aproximadamente R$ 15,9 mil de remuneração da Polícia Militar, além de R$ 4,4 mil pagos pela Prefeitura do Rio a título de adicional de encargos especiais.
A soma dos valores informados corresponde a uma remuneração mensal de aproximadamente R$ 20,3 mil para o policial.
Considerando os vencimentos brutos divulgados de Glaucia e os valores recebidos por Gilberto, o casal reúne aproximadamente R$ 42,1 mil em remunerações mensais provenientes de vínculos com a administração pública.
Discurso de Paes sobre policiais cedidos entra em debate
A divulgação do caso ocorre em um momento em que Eduardo Paes, candidato ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, tem defendido a redução do número de policiais militares e civis cedidos para exercer funções em gabinetes e repartições públicas.
Em entrevista ao programa Balanço Geral, da Record, realizada em agosto, Paes afirmou que pretende promover o retorno desses profissionais às atividades de segurança pública, caso seja eleito.
A permanência de policiais militares em funções administrativas na prefeitura, durante sua gestão, acrescenta um elemento ao debate sobre a distribuição do efetivo policial entre atividades operacionais e funções em órgãos públicos.
De acordo com o levantamento de Ruben Berta, informações obtidas em diários oficiais apontam que pelo menos 40 policiais militares estavam cedidos à Prefeitura do Rio em junho de 2026.
A administração municipal também foi questionada sobre o número de agentes cedidos com ônus para o governo estadual, mas não apresentou resposta à reportagem original.
Transparência e critérios de nomeação
O episódio evidencia a importância da publicidade dos critérios de nomeação, das atribuições funcionais e dos valores pagos a ocupantes de cargos públicos.
Embora a nomeação de familiares de servidores não configure, por si só, irregularidade administrativa, a análise de eventuais conflitos de interesses exige informações sobre a existência de vínculo de subordinação, influência no processo de contratação e observância das normas aplicáveis.
No caso de Glaucia, os dados divulgados não demonstram que o marido tenha participado de sua nomeação nem estabelecem a ocorrência de favorecimento indevido.
Permanecem, entretanto, sem esclarecimento público as circunstâncias da escolha da assessora para o cargo no Riocentro e as atividades específicas que justificam sua remuneração.
O espaço permanece aberto para manifestações de Eduardo Paes, da Prefeitura do Rio de Janeiro, de Glaucia Lobato Miranda da Silva e de Gilberto Dias da Silva Sobrinho.



