Os Estados Unidos vêm ampliando sua atuação militar e estratégica na América do Sul, fortalecendo acordos de defesa, realizando exercícios conjuntos e aumentando a cooperação com diversos países que fazem fronteira com o Brasil. O movimento ocorre em meio a uma política de Washington voltada para ampliar sua presença no Hemisfério Ocidental e conter ameaças transnacionais e a influência de potências como China e Rússia.

O Brasil possui fronteiras terrestres com Argentina, Bolívia, Colômbia, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai, Venezuela e com a Guiana Francesa, território ultramarino da França.

Documentos e comunicados oficiais mostram uma ampla rede de cooperação militar norte-americana ao redor do território brasileiro.

O Comando Sul dos Estados Unidos, conhecido como SOUTHCOM, é responsável pelas operações e pela cooperação de segurança norte-americana em praticamente toda a América Latina e no Caribe. A área de responsabilidade do comando engloba 31 países e 12 dependências ou áreas de soberania especial, incluindo Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.

Peru recebeu militares norte-americanos em exercício na Amazônia

Um dos exemplos mais recentes ocorreu no Peru.

Em setembro de 2026, militares dos Estados Unidos participaram do exercício Southern Vanguard 2026, realizado na região amazônica peruana. Aproximadamente 400 integrantes das forças militares de Peru, Estados Unidos, Chile e Argentina participaram das atividades.

Segundo o SOUTHCOM, os treinamentos envolveram operações em ambiente de selva, deslocamento terrestre, técnicas de sobrevivência e operações aquáticas, além de atividades destinadas a aumentar a interoperabilidade entre as Forças Armadas participantes.

A localização chama atenção do ponto de vista estratégico por se tratar de território amazônico em um país que possui extensa fronteira com o Brasil.

Paraguai estreita relação militar com Washington

O Paraguai também tem intensificado a cooperação com os Estados Unidos.

Em julho de 2026, mais de 50 militares da Guarda Nacional de Massachusetts participaram de uma missão conjunta com as Forças Armadas paraguaias. Os trabalhos ocorreram em instalações militares próximas a Assunção e integraram o programa de parceria entre forças norte-americanas e paraguaias.

Meses antes, o presidente paraguaio Santiago Peña esteve na sede do SOUTHCOM, na Flórida, onde discutiu com autoridades militares norte-americanas o fortalecimento da parceria de defesa e ações contra organizações criminosas transnacionais.

Suriname realizou treinamento com forças dos EUA

No Suriname, país que também possui fronteira direta com o Brasil, militares norte-americanos participaram em abril de 2026 da operação Rumble in the Jungle.

Integrantes da Guarda Nacional de Dakota do Sul treinaram ao lado das Forças Armadas surinamesas em atividades de sobrevivência e operações em ambiente de selva.

A parceria militar entre Dakota do Sul e Suriname completou 20 anos em 2026, segundo informações divulgadas pelo próprio comando militar norte-americano.

Os Estados Unidos também mantêm programas de treinamento e assistência às forças de segurança do Suriname para combate ao tráfico internacional e ao crime organizado.

Colômbia permanece como parceiro estratégico

A Colômbia mantém uma das mais antigas e profundas relações militares dos Estados Unidos na América do Sul.

Em agosto de 2026, o comandante do SOUTHCOM, general Francis Donovan, visitou autoridades colombianas e participou de reuniões envolvendo estratégias conjuntas de segurança, combate ao narcotráfico e operações contra organizações criminosas.

Na ocasião, Donovan também esteve no Centro Nacional de Treinamento colombiano de Tolemaida.

A relação entre Washington e Bogotá inclui há anos treinamento militar, inteligência, combate às drogas e programas conjuntos entre as forças dos dois países.

Argentina aumenta aproximação militar

Outro movimento importante ocorre na Argentina.

Nos últimos anos, Buenos Aires ampliou significativamente sua relação militar com Washington. Em 2025, autoridades norte-americanas e argentinas discutiram o fortalecimento da parceria de defesa, modernização das Forças Armadas e cooperação regional.

Em 2026, a Força Aérea dos Estados Unidos também auxiliou militares argentinos na integração dos caças F-16 adquiridos pelo país. O programa inclui intercâmbio técnico e transferência de conhecimento para operação e manutenção das aeronaves.

Uruguai possui programas militares com os EUA

No Uruguai, Washington mantém programas de assistência e treinamento destinados às Forças Armadas e às instituições de segurança.

Entre eles está o International Military Education and Training (IMET), utilizado para formação de militares uruguaios nos Estados Unidos, além de programas voltados para operações de paz e resposta a desastres.

Guiana ganha importância estratégica

A Guiana também se tornou uma área de interesse crescente para Washington.

Além da expansão da indústria petrolífera guianense, o país está envolvido em uma disputa territorial histórica com a Venezuela pela região de Essequibo.

Estados Unidos e Guiana mantêm cooperação de segurança, inclusive dentro da Caribbean Basin Security Initiative, voltada ao combate ao tráfico de drogas e ao crime transnacional.

A aproximação norte-americana com Georgetown ganhou ainda maior relevância diante da crescente importância energética e estratégica do pequeno país sul-americano.

Bolívia e Venezuela são exceções importantes

O cenário, entretanto, não é uniforme.

A relação entre Estados Unidos e Bolívia passou por forte deterioração a partir de 2008, quando o governo boliviano expulsou o embaixador norte-americano e representantes de agências dos Estados Unidos. Portanto, não existe no país uma estrutura de cooperação militar semelhante à registrada em Paraguai, Peru ou Colômbia.

A Venezuela representa uma situação ainda mais distinta. As relações entre Washington e Caracas permanecem marcadas por fortes divergências políticas e diplomáticas, sem uma parceria militar comparável à existente entre os Estados Unidos e diversos outros países sul-americanos.

Por isso, não há base factual para afirmar que tropas ou bases norte-americanas estejam instaladas em todos os países que cercam o Brasil.

Washington assume Hemisfério Ocidental como prioridade

A movimentação regional faz parte de uma estratégia mais ampla.

O SOUTHCOM declarou em 2026 que pretende fortalecer parcerias militares no Hemisfério Ocidental, ampliar exercícios conjuntos, investir em capacidades militares de países parceiros e aumentar a cooperação nas áreas espacial, marítima e cibernética.

Entre as prioridades declaradas pelo comando estão o fortalecimento do comando e controle hemisférico, o combate a organizações classificadas pelos Estados Unidos como terroristas, a modernização das forças e a proteção de áreas consideradas estratégicas.

Na prática, Washington possui hoje uma extensa rede de aliados, exercícios, programas de treinamento e acordos militares na América do Sul.

Brasil no centro de um novo tabuleiro geopolítico

Para o Brasil, o avanço dessas relações ocorre em uma região considerada estratégica tanto pela extensão da Amazônia quanto pelas reservas de petróleo, gás, minerais críticos, água doce e biodiversidade existentes no continente.

O cenário também está relacionado à disputa global por influência entre Estados Unidos e China. O próprio governo norte-americano afirma que pretende reduzir aquilo que classifica como influência externa adversária no Hemisfério Ocidental.

Assim, mais do que uma presença uniforme de soldados norte-americanos ao redor do território brasileiro, o que existe é uma rede crescente de cooperação militar e de segurança dos Estados Unidos com vários dos principais vizinhos do Brasil.

Peru, Paraguai, Colômbia, Argentina, Suriname, Guiana e Uruguai apresentam diferentes níveis de aproximação com Washington, enquanto Bolívia e Venezuela permanecem exemplos de relações muito mais limitadas ou politicamente adversas.

O avanço dessa rede transforma o entorno estratégico brasileiro em uma área cada vez mais relevante na disputa de influência entre as grandes potências e coloca a América do Sul novamente no centro das prioridades geopolíticas de Washington.