
Reportagem especial | Gazeta Popular — Internacional
A crise de segurança pública no Haiti ganhou um novo capítulo com a entrada de milhares de militares de El Salvador em território haitiano. A iniciativa do presidente salvadorenho, Nayib Bukele, representa uma das mais ousadas ações internacionais de sua política de combate às organizações criminosas e coloca em evidência dois países que enfrentam, de maneiras diferentes, o desafio da violência das gangues.
De um lado está o Haiti, país caribenho marcado por instabilidade política, instituições fragilizadas, graves dificuldades econômicas e organizações criminosas que controlam extensas áreas de sua capital. Do outro, El Salvador, que passou por uma profunda transformação em sua política de segurança, reduzindo drasticamente os homicídios registrados oficialmente, mas acumulando denúncias de violações dos direitos humanos.
Segundo informações divulgadas pela agência Reuters, aproximadamente 2 mil militares salvadorenhos foram enviados ao Haiti após o desaparecimento de quatro técnicos de aviação de El Salvador durante uma emboscada atribuída a grupos criminosos, em 18 de outubro.
Haiti: um país sob o domínio das organizações criminosas
A situação haitiana se agravou especialmente após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em julho de 2021. Desde então, o enfraquecimento das instituições abriu espaço para a expansão de grupos armados, que passaram a disputar territórios, controlar vias de circulação, promover sequestros e impor regras à população.
De acordo com informações divulgadas pela Associated Press em novembro de 2026, as gangues controlam aproximadamente 70% de Porto Príncipe, capital haitiana.
A violência não se limita às disputas entre criminosos. Moradores convivem com ameaças, extorsões, ataques armados e deslocamentos forçados. Escolas, hospitais, estabelecimentos comerciais e serviços públicos também são afetados pela insegurança.
Dados das Nações Unidas indicam que mais de 5.700 pessoas foram mortas ou ficaram feridas em episódios de violência no Haiti entre janeiro e meados de setembro de 2026.
Bukele leva sua política de segurança ao território haitianoConhecido internacionalmente pela ofensiva contra as gangues MS-13 e Barrio 18, Nayib Bukele adotou em El Salvador uma estratégia baseada na ampliação das operações policiais, mobilização das Forças Armadas, prisões em massa e manutenção de um regime de exceção.
O governo salvadorenho apresenta a queda dos homicídios e a recuperação de áreas anteriormente dominadas por gangues como resultados importantes dessa política.
A decisão de enviar tropas ao Haiti representa, entretanto, um desafio diferente. Enquanto El Salvador desenvolveu sua ofensiva dentro de suas próprias instituições, os militares salvadorenhos agora atuam em um país com dificuldades estruturais de governança, forças de segurança limitadas e grupos criminosos fortemente armados.
A operação, inicialmente apresentada como missão de resgate dos quatro técnicos desaparecidos, ganhou proporções maiores, levantando dúvidas sobre sua duração, seus objetivos e os mecanismos de comando das tropas.
O primeiro-ministro haitiano, Alix Didier Fils-Aimé, agradeceu publicamente o apoio de Bukele e afirmou que as forças estrangeiras devem auxiliar, e não substituir, as autoridades do Haiti.
Ofensiva registra morte de importante líder criminoso
Em 6 de novembro, as autoridades haitianas confirmaram a morte de Mathias Saintil, apontado como liderança de uma organização criminosa atuante nos arredores de Porto Príncipe.
Segundo a Reuters, o criminoso sofreu ferimentos graves durante um ataque com drone na região de Boston, área sob influência de gangues, e morreu posteriormente.
A morte foi considerada um golpe importante contra a liderança dos grupos armados, em meio à intensificação das operações de segurança. Entretanto, não há confirmação de que o ataque específico tenha sido executado por militares salvadorenhos.
A ofensiva também tem provocado manifestações de apoio a Bukele em algumas regiões do Haiti, onde parte dos moradores vê na participação estrangeira uma possibilidade de recuperar a segurança.
O modelo de El Salvador pode funcionar no Haiti?
A experiência salvadorenha desperta interesse internacional pela redução expressiva da violência homicida. Entretanto, especialistas alertam que os resultados registrados em El Salvador não significam que a mesma estratégia possa ser reproduzida integralmente em outra realidade.
No Haiti, as organizações criminosas possuem forte influência territorial e atuam em meio a uma crise humanitária que envolve deslocamentos populacionais, insegurança alimentar e dificuldades de acesso aos serviços públicos.
Além disso, organismos internacionais apontam que a política salvadorenha de prisões em massa apresenta problemas relacionados a detenções arbitrárias, ausência de garantias processuais e denúncias de maus-tratos.
A Anistia Internacional publicou, em julho de 2026, um relatório sobre possíveis crimes contra a humanidade relacionados às práticas de repressão adotadas em El Salvador.
Assim, o desafio para os dois governos não se resume a neutralizar integrantes de gangues. Também envolve assegurar que as operações respeitem a população civil e que os territórios recuperados não voltem ao domínio das organizações criminosas.
Comunidade internacional acompanha a intervenção
A Organização das Nações Unidas mantém atenção sobre a crise haitiana e a participação de forças estrangeiras nas operações de segurança.
Em setembro de 2026, o Conselho de Segurança prorrogou o mandato da Força de Repressão às Gangues até março de 2027.
A participação salvadorenha, contudo, despertou questionamentos porque a maior parte das tropas enviadas recentemente não estava operando dentro da estrutura da missão apoiada pela ONU.
Especialistas defendem maior transparência sobre os acordos de cooperação, as regras de atuação militar e a responsabilidade por eventuais danos à população civil.
Dois países, um mesmo desafio: devolver a segurança à população
O cenário atual coloca Haiti e El Salvador no centro de um debate que ultrapassa as fronteiras da América Central e do Caribe: como enfrentar organizações criminosas capazes de controlar territórios e desafiar a autoridade do Estado?
Em El Salvador, a redução da violência registrada trouxe reconhecimento ao governo Bukele, embora persistam controvérsias sobre os métodos empregados.
No Haiti, a situação é mais complexa. A retomada do controle territorial depende não apenas das operações militares, mas também do fortalecimento das instituições, da recuperação dos serviços essenciais e da criação de condições para a estabilidade política.
A grande questão é saber se a intervenção de El Salvador poderá contribuir para uma mudança duradoura no Haiti ou se a operação acabará ampliando um conflito que já provocou milhares de vítimas.
Para a população haitiana, que há anos convive com o medo e a violência, a prioridade permanece a mesma: recuperar o direito de viver, trabalhar, estudar e circular pelas ruas sem o domínio das organizações criminosas.
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