O uso de inteligência artificial em conteúdos sobre as eleições de 2026 nas redes sociais chegou a uma média de quase um caso por hora durante o primeiro turno. Entre 16 de agosto e 28 de setembro, o VigIA – projeto desenvolvido pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa e que tem o TRE-RJ como parceiro – identificou 920 posts produzidos ou alterados com IA, o que dá uma média de 20 casos por dia.
 

Ao todo, o VigIA coletou 1.941 conteúdos político-eleitorais suspeitos no período. Até o fechamento do levantamento, 972 haviam sido analisados: além dos 920 casos confirmados, 26 tiveram resultado inconclusivo e outros 26 não apresentaram indícios de uso de IA. Os demais conteúdos coletados ainda estão sob avaliação.
 

Entre os 920 casos de conteúdos sintéticos confirmados, 554 (cerca de 60%) eram deepfakes – conteúdos criados para simular artificialmente a aparência, a voz ou a identidade de pessoas reais. Foram identificadas 30 deepfakes de jornalistas, que apareciam, por exemplo, divulgando falsas pesquisas eleitorais. O monitoramento também flagrou celebridades retratadas falsamente declarando apoio a candidatos à Presidência.
 

Outro dado chama atenção para a dificuldade do eleitor identificar quando está diante de um material produzido artificialmente: 60% dos conteúdos confirmados não apresentavam qualquer indicação do uso de IA. Apenas 371, cerca de 40%, tinham algum rótulo de transparência, inserido pela própria plataforma ou pelo autor, conta ou campanha responsável pela publicação. A lei eleitoral exige que candidatos e partidos indiquem o uso de conteúdo sintético e suas postagens.
 

“Os dados do primeiro turno mostram que a IA já faz parte da comunicação política cotidiana, e não só de episódios isolados. Quando encontramos quase um conteúdo com IA por hora e vemos que a maioria não sinaliza o uso da tecnologia, temos uma dimensão do desafio que esse cenário representa não só para o eleitor como para os órgãos fiscalizadores”, comenta Cristina Tardáguila, fundadora e gerente de Inteligência e Formação da Agência Lupa.
 

Promoção de candidaturas lidera uso de IA
 

A promoção de candidaturas foi a finalidade mais frequente entre os conteúdos sintéticos identificados pelo VigIA, aparecendo em 414 dos 920 casos (45%). Outros 254 (27,6%) foram classificados como IA utilizada para produzir humor ou sátira e 226 (24,6%) tinham como objetivo atacar uma pessoa ou candidatura.
 

Quase metade dos conteúdos confirmados (cerca de 47%) foi publicada por contas de usuários de redes sociais, eleitores ou militantes. Outros 27% partiram de perfis desconhecidos, anônimos ou que utilizavam avatares. Contas oficiais de candidatos responderam por aproximadamente 24,5% dos casos analisados.
 

O estudo mostra ainda que 621 conteúdos, ou 67,5% do total, tratavam de temas de interesse nacional, principalmente da disputa pela Presidência. Outros 228 estavam relacionados a questões regionais, como eleições para governos estaduais e legislativo.
 

Entre as pessoas públicas retratadas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera com 379 registros. Flávio Bolsonaro (PL) apareceu em 190, seguido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, com 94. Como um mesmo conteúdo pode representar mais de uma pessoa, o número de menções supera o total de publicações analisadas.
 

Os vídeos predominaram entre os conteúdos identificados, com 56,8% dos casos, enquanto as imagens representaram 43,2%. O Facebook concentrou 559 ocorrências, seguido por Instagram (365), X (96), TikTok (70) e WhatsApp (3).
 

Parceria com TRE-RJ reforça monitoramento de IA durante as eleições
 

A cooperação entre a Lupa e o TRE-RJ prevê um fluxo direto para a análise de materiais suspeitos. O Tribunal poderá encaminhar ao VigIA links, vídeos, imagens e outros conteúdos recebidos por seus canais e estruturas eleitorais que apresentem indícios de geração ou manipulação por inteligência artificial.
 

A equipe do projeto, que atua em cooperação com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e a Meedan, analisará os materiais recebidos para verificar o uso de IA generativa. O Tribunal também receberá relatórios sobre as principais dinâmicas e o volume desse tipo de conteúdo durante a disputa eleitoral.
 

“Essa troca com a Justiça Eleitoral permite ampliar nossa capacidade de identificar como conteúdos sintéticos estão circulando e contribuir com conhecimento técnico para enfrentar um fenômeno que se transforma muito rapidamente”, conclui Cristina.