Em mais uma declaração que deve acender alertas no debate sobre o uso de recursos públicos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (25), em Moçambique, que o BNDES está sendo preparado para um “novo ciclo” de investimentos internacionais, incluindo o retorno de financiamentos para obras de infraestrutura no continente africano — prática duramente criticada em gestões anteriores.
Durante encontro bilateral em Maputo, Lula disse que Moçambique pode receber parte desses aportes devido às “lacunas” em portos, estradas, usinas e linhas de transmissão. Segundo ele, o governo trabalha para que o banco “recupere a capacidade de financiar a internacionalização de empresas brasileiras”, o que, na visão do presidente, abriria espaço para parcerias comerciais capazes de “reduzir desigualdades”.
A fala, no entanto, reacende um desgaste antigo: o questionamento sobre a prioridade do governo em financiar obras fora do país enquanto o próprio Brasil enfrenta gargalos estruturais graves, especialmente nas áreas de saneamento, logística e infraestrutura energética. Críticos apontam que, historicamente, empréstimos desse tipo geraram riscos financeiros e pouca transparência — além de envolverem casos investigados por sobrepreço, calotes e relações obscuras entre empreiteiras e governos estrangeiros.
Embora Lula tente enquadrar o movimento como estratégia diplomática e comercial, o anúncio surge num momento de aperto fiscal, aumento da dívida pública e pressão por investimentos internos. Para opositores, a sinalização sugere que o governo volta a priorizar uma política externa de viés ideológico, repetindo modelos que já trouxeram prejuízos bilionários ao BNDES.
No mesmo evento, Brasil e Moçambique firmaram nove acordos em áreas variadas, em comemoração aos 50 anos de relações diplomáticas. Lula desembarcou no país logo após participar da cúpula do G20 na África do Sul, reforçando a ação diplomática voltada ao continente africano — iniciativa que, segundo críticos, vem sendo tratada como prioridade maior do que muitos problemas urgentes dentro de casa.
Enquanto o Palácio do Planalto celebra a retomada da integração com países africanos, crescem as cobranças internas: afinal, deve o BNDES voltar a financiar obras internacionais quando o Brasil ainda patina em suas próprias necessidades essenciais?


