A possibilidade de o ministro Alexandre de Moraes assumir a Presidência do Supremo Tribunal Federal em 2027 ganha uma dimensão muito mais delicada diante da atual crise enfrentada pela Corte. Mais do que uma simples troca administrativa, a eventual chegada de Moraes ao comando do STF colocaria nas mãos de um dos ministros mais controversos do país poderes importantes sobre o funcionamento e a agenda do tribunal.

Atualmente vice-presidente, Moraes deverá suceder Edson Fachin caso seja mantida a tradição do Supremo de escolher para a Presidência o ministro mais antigo que ainda não tenha exercido o cargo. Embora a eleição seja formalmente realizada pelos integrantes da Corte, essa regra informal de antiguidade vem sendo seguida historicamente.

O problema é que o cenário de 2026 está longe de representar uma transição institucional comum.

Banco Master amplia questionamentos

Alexandre de Moraes passou a enfrentar novos questionamentos após a revelação de informações relacionadas ao Banco Master, de Daniel Vorcaro.

Reportagens publicadas a partir de documentos analisados pela Polícia Federal apontaram que Moraes teve acesso e realizou alterações em uma minuta de contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia comandado por sua esposa, Viviane Barci de Moraes. O contrato mencionado nas apurações previa valores que poderiam chegar a aproximadamente R$ 131 milhões.

O escritório afirmou que Moraes teria sido consultado para verificar eventuais impedimentos legais relacionados à contratação. Ainda assim, a revelação colocou o ministro no centro de um debate sobre conflito de interesses, transparência e os limites entre atividades particulares de familiares de integrantes da mais alta Corte do país.

É importante registrar que a existência dessas informações não significa, por si só, prova de participação de Moraes em irregularidades financeiras praticadas pelo Banco Master. Entretanto, a proximidade revelada e os questionamentos decorrentes do episódio são fatos politicamente e institucionalmente relevantes — ainda mais diante da possibilidade de ele assumir a Presidência do Supremo.

A gravidade do momento ficou ainda mais evidente após o presidente Edson Fachin convocar o plenário para discutir informações relacionadas às investigações e às tensões provocadas pelo caso.

Um histórico de decisões que divide o país

Paralelamente ao episódio envolvendo o Banco Master, Moraes acumula há anos decisões que despertam intensos debates no meio jurídico e político.

Inquéritos conduzidos no Supremo, bloqueios de perfis em redes sociais, ordens de prisão, medidas cautelares e condenações relacionadas principalmente aos acontecimentos políticos dos últimos anos fizeram com que críticos do ministro levantassem questionamentos sobre proporcionalidade das penas, devido processo legal, liberdade de expressão e concentração de funções investigativas e judiciais.

Para seus defensores, Moraes teve papel fundamental na reação institucional a movimentos considerados antidemocráticos e na defesa das instituições.

Para seus críticos, porém, alguns processos conduzidos sob sua relatoria ultrapassaram limites que deveriam existir justamente para proteger o cidadão do poder do Estado.

E essa discussão deixa de ser apenas acadêmica quando o mesmo magistrado pode passar a comandar o Supremo Tribunal Federal.

O poder de definir o que o Supremo julga

O presidente do STF não possui poder para decidir sozinho o resultado dos processos, já que os julgamentos continuam dependendo dos votos dos ministros.

Mas seria um erro imaginar que a função seja meramente simbólica.

O presidente exerce influência decisiva sobre a organização da pauta do Plenário. Cabe a ele determinar quais processos serão colocados em julgamento e quando isso ocorrerá, além de conduzir sessões, convocar julgamentos extraordinários, representar institucionalmente o Supremo e comandar também o Conselho Nacional de Justiça.

Em períodos de recesso, a Presidência ainda assume competências importantes para decidir questões consideradas urgentes.

Portanto, controlar a agenda da mais alta Corte significa exercer enorme influência sobre o momento em que temas de grande repercussão política, econômica e institucional serão decididos.

É justamente aí que reside uma das principais preocupações sobre uma eventual Presidência de Alexandre de Moraes.

Quem fiscaliza quem concentra tanto poder?

Nenhuma democracia saudável deve depender da confiança irrestrita em uma única autoridade.

O problema central não deve ser analisar se determinado ministro pertence à direita ou à esquerda, mas perguntar se o sistema dispõe de mecanismos suficientes de controle quando uma mesma autoridade acumula enorme influência institucional e, simultaneamente, está no centro de controvérsias que exigem esclarecimentos.

O Supremo deveria ser a última barreira contra abusos praticados pelo Estado.

Quando parte expressiva da população passa a enxergar justamente a mais alta Corte com desconfiança, existe um problema institucional que não pode ser simplesmente ignorado ou tratado como ataque à democracia.

Tribunais constitucionais dependem não apenas da força jurídica de suas decisões, mas também de legitimidade pública, imparcialidade percebida e transparência.

Fachin intervém em momento de tensão no Supremo

A preocupação ganha ainda mais força diante da crise instalada dentro do próprio STF.

Nos últimos dias, divergências envolvendo Alexandre de Moraes, André Mendonça, Flávio Dino e a Polícia Federal levaram Fachin a adotar medidas extraordinárias para conter decisões conflitantes e organizar institucionalmente os acontecimentos.

A Corte chegou a convocar uma sessão extraordinária para 15 de setembro, quando deverá enfrentar questões relacionadas às informações que atingem integrantes do próprio Supremo.

Ou seja: falar hoje sobre Moraes como futuro presidente do tribunal sem considerar essa crise seria ignorar o contexto mais importante.

Antes de ocupar a principal cadeira do Judiciário brasileiro, todas as dúvidas envolvendo qualquer ministro deveriam ser devidamente esclarecidas.

Presidência de Moraes pode aprofundar crise de confiança

Uma eventual Presidência de Alexandre de Moraes, a partir de 2027, poderá ocorrer justamente quando o STF enfrenta um de seus períodos de maior desgaste institucional.

E esse é o verdadeiro alerta.

Não se trata de antecipar culpa nem de transformar suspeitas em condenações. Trata-se de reconhecer que o presidente da Suprema Corte precisa possuir não apenas autoridade jurídica, mas credibilidade suficiente para representar uma instituição que julga presidentes, parlamentares, empresários, autoridades e cidadãos.

Se questionamentos relevantes permanecerem sem respostas, entregar a Presidência do STF a um ministro já colocado no centro de disputas institucionais poderá ampliar a percepção de concentração de poder e aprofundar ainda mais a desconfiança de parcela da sociedade em relação à Corte.

Alexandre de Moraes tem direito, como qualquer cidadão ou autoridade, ao contraditório e à presunção de inocência diante de qualquer acusação.

Mas a sociedade também possui o direito de cobrar respostas.

Quanto maior o poder, maior deve ser a transparência.

Em 2027, caso Moraes realmente assuma a Presidência do Supremo, o Brasil poderá ter à frente de sua mais alta Corte justamente o ministro que simboliza um dos debates mais profundos dos últimos anos sobre os limites do Poder Judiciário.

A questão, portanto, ultrapassa o nome de Alexandre de Moraes.

A pergunta que o país precisa enfrentar é outra:

até onde pode chegar o poder de um ministro do Supremo sem que existam mecanismos igualmente fortes, transparentes e independentes de fiscalização?