8 DE MARÇO — DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Mulher: de quantas lutas é feita a sua história
Conquistamos muito. Mas ainda sangra muito. A data precisa ser mais do que flor e parabéns — precisa ser espelho, cobrança e compromisso.
Um mês que não cabe em um dia
Março chegou. E com ele, aquela conversa que a gente precisa ter todo ano, não porque virou moda, mas porque a realidade ainda exige.
O 8 de março não nasceu numa vitrine de floricultura. Nasceu na rua, no grito, na voz de mulheres que cansaram de pedir o que era delas por direito. A Organização das Nações Unidas só reconheceu a data em 1975, mas a luta já vinha de muito antes, regada a suor, resistência e, em muitos casos, sangue.
E olha, a gente avançou. Isso não tem como negar, e também não tem por que negar. Mulheres ocupam hoje espaços que, há poucas décadas, eram impensáveis. Governam estados, lideram empresas, sentam em cadeiras de ministério, vestem toga, defendem teses, comandam salas de cirurgia. O Brasil elegeu uma presidente. Temos leis que, no papel, garantem igualdade, proteção, punição a quem viola direitos. É muita coisa, sim. E foi conquistado com muita peleja.
Mas nós não podemos parar aqui. Porque se de um lado existe essa vitrine de conquistas, do outro existe uma realidade que dói e ainda mata.
A violência que não some com lei nenhuma
O Brasil é um dos países com mais altos índices de feminicídio no mundo. Uma mulher é assassinada a cada seis horas no nosso país. Não é estatística fria: é nome, é rosto, é filha, é mãe, é vizinha. E antes de virar número em relatório, essa mulher quase sempre passou por anos de humilhação, controle, ameaça — aquele ciclo cruel que começa com uma palavra, uma piada, um gesto de posse, e escala até o ponto sem volta.
O episódio recente em Itumbiara, onde um pai tirou a vida dos próprios filhos como forma de punir e destruir a ex-companheira, escancarou o que a violência doméstica pode fazer quando é normalizada, minimizada, tratada como “assunto de casal” pela vizinhança e, muitas vezes, pelo próprio sistema. Não foi um crime passional. Foi um crime de poder. De controle. De homem que não aceitou que a mulher fosse livre.
A Lei Maria da Penha existe desde 2006 e já foi chamada de uma das melhores leis de proteção à mulher do mundo. Mas lei boa no papel não substitui delegacia especializada, não substitui casa de acolhimento, não substitui promotoria com estrutura para agir rápido. Enquanto o Estado não entender que proteção à mulher não é gasto, é investimento, e investimento urgente, a lei vai continuar existindo muito mais no papel do que na prática.
E a violência não começa só com o soco. Começa na fala do jogador de futebol que rebaixa a mulher na frente de câmera e recebe aplausos. Começa na risada que legitima. No silêncio que absolve. A cultura que tolera o desrespeito pequeno cria o terreno fértil para o crime grande.
O divórcio que a mulher paga mais caro
Tem uma injustiça que vive nas sombras, que não aparece tanto nas manchetes, mas que eu vejo de perto no meu dia a dia como advogada: a desigualdade que a mulher enfrenta quando um casamento termina.
Durante anos, muitas mulheres abriram mão de uma carreira, de uma promoção, de um projeto pessoal, para cuidar da casa e dos filhos. Essa escolha foi feita dentro de um casamento — um projeto comum. Só que na hora da separação, o mercado não vai dar para ela de volta os anos que ficaram fora. O currículo parado tem preço. A lacuna profissional tem preço. A aposentadoria menor tem preço. E quem paga essa conta, na maioria das vezes, é a mulher, sozinha.
A lei brasileira prevê partilha de bens, alimentos, proteção patrimonial. Mas a realidade do processo é outra. Processos arrastados por anos. Negociações desequilibradas, onde quem tem menos recurso financeiro acaba cedendo mais cedo por exaustão. A mulher que não trabalhou fora durante o casamento chega ao divórcio sem renda, sem reserva, dependente de uma pensão que o ex-marido vai fazer de tudo para reduzir ou eliminar.
E não para por aí. Existe ainda a invisibilidade do patrimônio construído pelo trabalho doméstico. Quem cuidou da casa, criou os filhos, sustentou a estrutura emocional e logística da família por décadas — esse trabalho tem valor econômico real. Mas é exatamente esse valor que mais resiste a ser reconhecido formalmente na divisão dos bens.
Falar sobre isso não é atacar o divórcio. O divórcio, quando necessário, é libertação. É recomeço. Mas ele precisa ser justo. E para ser justo, precisa enxergar a mulher como alguém que contribuiu igualmente — mesmo que de formas diferentes — para a construção daquilo que está sendo dividido.
O caminho é longo, mas a gente não para
Conquistamos muito. Muito mesmo. E cada conquista foi paga com coragem de mulheres que vieram antes da gente e de mulheres que ainda estão na luta hoje. Mas a gente não pode confundir avanço com chegada. Não chegamos. Estamos no meio do caminho — e esse caminho ainda tem trechos muito duros pela frente.
Igualdade salarial real entre homens e mulheres no mesmo cargo ainda não existe. Mulheres ainda são interrompidas em reuniões, questionadas na autoridade, cobradas dobrado para provar o mesmo. A maternidade ainda penaliza a carreira. O teto de vidro ainda existe, e em muitos lugares é de aço.
Então o 8 de março precisa ser isso: memória de onde viemos, honestidade sobre onde ainda estamos, e compromisso com onde precisamos chegar. Não é dia de receber flor. É dia de cobrar. De refletir. De olhar para a mulher ao lado e perguntar: o que ela precisa? O que o sistema ainda deve a ela?
Março é mais do que um mês. É uma convocação. E a resposta precisa vir não só das mulheres — precisa vir de todos. De uma sociedade que decide, de uma vez por todas, que igualdade não é favor. É obrigação.
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ADRIANA DE ANDRADE RAMOS BORRACHINI
Graduada pela Universidade Nove de Julho/SP
Especialista em Divórcio, Guarda e Pensão Alimentícia
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