Após meses de distanciamento do campo progressista e sinais ambíguos em direção a setores conservadores, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), iniciou um movimento de recomposição política com o Palácio do Planalto. Na última terça-feira (13/01), em Brasília, Paes se reuniu de forma reservada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para tentar estancar uma crise de confiança que se aprofundou nos últimos meses entre seu grupo político e a esquerda fluminense.
O encontro ocorreu fora da agenda oficial e foi motivado por fatores concretos do tabuleiro eleitoral de 2026. Internamente, o PT do Rio passou a discutir com mais intensidade a possibilidade de lançar candidatura própria ao governo do Estado, rompendo com a estratégia de apoio automático a Paes. As conversas envolvendo o deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil), ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), acenderam um alerta no entorno do prefeito, ao indicar que o partido poderia buscar alternativas fora de sua órbita política.
Durante a conversa com Lula, Paes confirmou a intenção de deixar a prefeitura em 20 de março de 2026 para disputar o Palácio Guanabara e reiterou apoio ao presidente no próximo ciclo eleitoral. A sinalização de lealdade, no entanto, ocorre após um período marcado por desgaste com a esquerda, alimentado por discursos de perfil mais centrista, aproximações com lideranças conservadoras e uma condução administrativa frequentemente criticada por movimentos sociais e setores do PT.
Como gesto concreto de reaproximação, Paes se comprometeu a apoiar a deputada Benedita da Silva (PT) como candidata ao Senado. A decisão representa um recuo relevante em relação à estratégia inicial de seu grupo político, que defendia uma chapa majoritária sem nomes petistas, apostando na fragmentação da esquerda e na força de uma coalizão mais ampla ao centro.
Para interlocutores do PT, a iniciativa do prefeito é vista com cautela. Há o reconhecimento do peso eleitoral de Paes na capital e na Região Metropolitana, mas também persistem dúvidas sobre a consistência do alinhamento político. A avaliação predominante é de que o prefeito busca preservar o apoio de Lula como ativo eleitoral decisivo, especialmente em um cenário estadual marcado pela força de candidaturas à direita e pela influência de grupos conservadores no interior.
Ao mesmo tempo, o episódio expõe dilemas estratégicos da própria esquerda fluminense. A disposição em aceitar novamente um papel secundário em uma aliança liderada por Paes reacende debates internos sobre identidade política, autonomia programática e os limites do pragmatismo eleitoral. Parte do partido defende que a construção de uma candidatura própria ao governo estadual poderia fortalecer o campo progressista no médio prazo, ainda que implique riscos imediatos.
O movimento de Paes não encerra as tensões, mas inaugura uma fase de negociação mais explícita. O prefeito tenta se posicionar como candidato viável ao centro, sem romper definitivamente com a esquerda nem fechar portas à direita. Já o PT, pressionado por sua base e pelo cenário nacional, precisa decidir se aposta novamente em uma aliança pragmática ou se assume o custo político de trilhar um caminho próprio no Rio de Janeiro.
O desfecho dessa equação deve se tornar mais claro nos próximos meses, à medida que as articulações para 2026 avancem. Por ora, a reaproximação entre Paes e Lula parece menos um pacto político sólido e mais uma trégua tática em um ambiente de desconfiança mútua e interesses eleitorais concorrentes.
Por Marcos Soares – Jornalista – Analista Político


