A Polícia Federal aponta que o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro teria recebido vantagens econômicas por meio de terceiros dentro de um suposto esquema de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial investigado na Operação Sem Refino. A apuração busca esclarecer possíveis favorecimentos ao Grupo Refit, antiga Refinaria de Manguinhos, e eventuais relações entre integrantes do grupo empresarial e agentes públicos.

Entre os episódios analisados pelos investigadores está uma compra de R$ 10,5 mil em caviar, realizada em abril de 2026. Segundo a PF, Castro teria negociado diretamente a encomenda com o fornecedor e recebido os dados para pagamento. Entretanto, o comprovante apresentado indicaria que a transferência foi realizada por uma empresa ligada ao advogado Antonio Carlos da Conceição Santos, conhecido como “Pipo”.

Para os investigadores, Pipo teria desempenhado papel relevante na movimentação de recursos e na utilização de empresas de terceiros dentro do esquema sob apuração. A PF considera o pagamento da encomenda um dos elementos que podem indicar o custeio de despesas particulares do ex-governador por pessoas vinculadas ao núcleo investigado.

Mansão em Petrópolis também entrou na mira da investigação

Outro ponto destacado pela Polícia Federal envolve uma residência de alto padrão em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, formalmente vinculada a terceiros.

De acordo com o relatório, mensagens, documentos e outros elementos reunidos durante a investigação indicariam que Castro acompanhava obras e serviços realizados no imóvel e adotava comportamentos que, na avaliação da PF, seriam compatíveis com os de quem exercia a posse de fato da propriedade.

Entre os projetos identificados pelos investigadores está o planejamento de uma adega climatizada avaliada em aproximadamente R$ 245 mil.

A PF investiga se o uso do imóvel e os investimentos realizados no local poderiam representar vantagem econômica indireta e se haveria relação entre esses benefícios e interesses de empresários ou empresas com contratos ou demandas perante o governo fluminense.

Aluguel de cobertura na Barra é questionado

A investigação também analisa a cobertura onde Cláudio Castro reside na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio.

Segundo os documentos citados pela PF, o contrato estabelece pagamento mensal de cerca de R$ 10 mil de aluguel. Os investigadores, porém, apontam que imóveis de padrão semelhante na região poderiam alcançar valores próximos de R$ 25 mil ou mais por mês.

A diferença chamou a atenção da Polícia Federal, que procura esclarecer se as condições da locação representariam uma vantagem econômica concedida ao ex-governador ou se possuem justificativa comercial regular.

A existência de aluguel abaixo de estimativas de mercado, isoladamente, não comprova irregularidade. O ponto integra o conjunto de circunstâncias que está sendo analisado pelos investigadores.

PF apura possível atuação em favor da Refit

Além das despesas e dos imóveis, o relatório registra contatos entre Cláudio Castro e pessoas relacionadas à Refit.

Os investigadores procuram determinar se houve atuação do então chefe do Executivo fluminense em demandas de interesse da companhia perante órgãos do Estado do Rio.

A Polícia Federal sustenta, em seu relatório, que havia um canal de interlocução entre Castro e pessoas ligadas ao grupo empresarial e analisa se decisões administrativas ou ações de órgãos estaduais podem ter beneficiado indevidamente a refinaria.

A segunda fase da Operação Sem Refino também investiga suspeitas relacionadas à concessão de licenças e à possível lavagem de capitais vinculada ao esquema.

Os documentos da investigação tiveram o sigilo retirado em 3 de setembro de 2026 pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, após diligências autorizadas no âmbito do inquérito.

Defesa nega acusações

A defesa de Cláudio Castro rejeita as suspeitas levantadas pela Polícia Federal e afirma que o ex-governador não participou de esquema de lavagem de dinheiro, não recebeu vantagens indevidas e não favoreceu a Refit.

Em relação aos imóveis, os advogados sustentam que existem contratos regulares e contestam a interpretação dos investigadores de que as propriedades ou condições de locação representariam benefícios ilícitos.

Sobre a compra de caviar, a defesa afirma que Castro teria apenas retirado uma encomenda feita por um amigo e consumido uma unidade com autorização dele, negando que o episódio represente pagamento de vantagem indevida.

As suspeitas permanecem sob investigação e não representam condenação judicial. Caberá às autoridades responsáveis analisar o material reunido e determinar se existem elementos suficientes para eventual responsabilização criminal.