E agora, Doutora?
Durante muito tempo, falar sobre divórcio dentro de ambientes religiosos parecia um tema proibido. Muitas pessoas que enfrentavam o fim do casamento carregavam, além da dor da separação, sentimentos de culpa, vergonha e medo de serem julgadas.
Por isso, chamou a atenção o anúncio de que um encontro promovido pelo Vaticano, previsto para outubro, terá entre seus principais temas o acompanhamento de famílias que vivem situações como a separação e o divórcio.
Mais do que discutir o fim de um casamento, a proposta é refletir sobre como acolher pessoas que enfrentam uma das fases mais difíceis da vida familiar. O documento preparatório destaca a necessidade de ouvir a realidade concreta das famílias, reconhecendo tanto a beleza do matrimônio quanto as fragilidades humanas.
Essa é uma mudança importante de perspectiva.
Acolher não significa incentivar o divórcio.
Significa reconhecer que ele existe, que milhares de famílias convivem com essa realidade e que essas pessoas continuam precisando de orientação, apoio e respeito.
Como advogada atuante exclusivamente no Direito das Famílias, acompanho diariamente mulheres que permanecem durante anos em relacionamentos marcados por violência psicológica, violência patrimonial, abandono afetivo, manipulação e humilhações porque acreditam que buscar o divórcio seria um fracasso pessoal ou até mesmo um afastamento de Deus.
Infelizmente, esse sentimento faz com que muitas suportem situações que comprometem sua dignidade e, muitas vezes, também a saúde emocional dos filhos.
O casamento continua sendo um dos pilares mais importantes da sociedade. Sempre que houver respeito, diálogo e possibilidade de reconstrução, preservar a família é um valor que merece ser incentivado.
Mas também é preciso reconhecer que nem todo casamento pode ou deve ser mantido a qualquer custo.
Quando o vínculo se transforma em um ambiente permanente de violência, medo, controle ou sofrimento, proteger a integridade física e emocional da família passa a ser igualmente um dever.
Nesse contexto, o Direito exerce um papel fundamental.
O divórcio não representa apenas o encerramento de um casamento. Ele envolve questões patrimoniais, guarda dos filhos, pensão alimentícia, convivência familiar e proteção jurídica que podem impactar toda a vida das pessoas envolvidas.
Por isso, decisões tomadas sob pressão, culpa ou desinformação costumam gerar consequências difíceis de reparar.
Como cristã, acredito que justiça, misericórdia e responsabilidade não são valores incompatíveis. Pelo contrário: caminham lado a lado quando o objetivo é proteger a dignidade humana.
Independentemente da convicção religiosa de cada pessoa, uma sociedade mais justa é aquela capaz de olhar para quem sofre sem condenação precipitada, oferecendo orientação, acolhimento e, sobretudo, caminhos para reconstruir a própria vida.
O debate proposto pelo Vaticano evidencia uma realidade que há muito tempo já está presente nos tribunais e na vida de milhares de famílias: falar sobre o divórcio não enfraquece a instituição familiar. Pelo contrário, permite enfrentar essa realidade com mais responsabilidade, humanidade e respeito às pessoas que vivem esse momento tão delicado.
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ADRIANA DE ANDRADE RAMOS BORRACHINI
Graduada pela Universidade Nove de Julho/SP
Especialista em Divórcio, Guarda e Pensão Alimentícia
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