É quando estratégias ficam mais evidentes, discursos tornam-se mais agressivos e candidatos passam a disputar não somente propostas, mas emoções, símbolos, religiões e identidades.

Na campanha presidencial de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva e seus aliados intensificaram exatamente esse movimento. Diante de uma disputa eleitoral acirrada, a campanha petista ampliou agendas pelo país e passou a explorar temas capazes de mobilizar segmentos específicos do eleitorado.

Um dos episódios mais reveladores envolve Nossa Senhora Aparecida.

Nos últimos dias, grupo ligado a Lula, espalhou pelas redes sociais a afirmação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil caso fosse eleito. A informação foi contestada, e Flávio negou que tivesse tal intenção.

Mesmo assim, Lula incorporou o assunto ao discurso eleitoral.

Em entrevista ao Canal Livre, da Band, o presidente falou sobre a suposta ameaça à padroeira. Quando a jornalista Adriana Araújo o confrontou dizendo “mas foi uma fake news, né, presidente?”, Lula respondeu: “Eu não sei se foi fake news” e continuou tratando do assunto como verdade fosse.

Posteriormente, durante ato em Belém, declarou que, enquanto fosse presidente, ninguém iria “avacalhar com Nossa Senhora Aparecida”.

O problema político não está em Lula manifestar respeito pela fé católica. Todo governante deve respeitar católicos, evangélicos, religiões de matriz africana, judeus, espíritas, outras crenças e também aqueles que não possuem religião.

A questão que merece ser discutida é outra: até onde símbolos religiosos podem ser utilizados como instrumento eleitoral?

A primeira-dama Janja também entrou nessa disputa. Ela apareceu ao lado do presidente em manifestações relacionadas à religião, enquanto aliados governistas passaram a explorar publicamente o tema de Nossa Senhora Aparecida.

Quando a religião entra no centro da propaganda, o debate sobre inflação, segurança pública, saúde, educação, emprego e contas públicas corre o risco de perder espaço para uma batalha emocional.

E essa deveria ser uma preocupação independentemente de quem esteja praticando a estratégia.

Lula e as próprias palavras: a declaração que marcou o comício no Pará

Se a campanha tenta aproximar Lula cada vez mais do eleitorado feminino, as próprias palavras do presidente acabam criando situações que exigem explicações.

Na noite de segunda-feira, 28 de setembro de 2026, durante comício em Belém do Pará, Lula voltou a falar sobre exames para prevenção do câncer de próstata.

Ao comentar a resistência de homens ao exame, o presidente declarou:

“Porque o homem é covarde. O homem não gosta de fazer teste de próstata. Ele não gosta de toque. As mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas. O homem não, ele é cheio de trejeito.”

A declaração foi registrada em vídeo e reproduzida por diferentes veículos de comunicação.

Lula ainda prosseguiu afirmando que o homem que desenvolver câncer de próstata receberá “muito toque” durante o tratamento. O contexto era uma defesa da prevenção da doença e da realização de exames, mas isso não elimina a repercussão provocada pela maneira como o presidente escolheu se expressar.

A frase “as mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas” ganhou rapidamente repercussão nas redes sociais e foi explorada politicamente pelos adversários de Lula. A campanha de Flávio Bolsonaro, por exemplo, passou a relacionar a declaração a uma discussão sobre violência sexual contra menores. A campanha petista sustenta que Lula estava fazendo referência aos exames ginecológicos realizados pelas mulheres.

É justamente aí que mora o problema.

Não se trata de alterar as palavras do presidente ou de retirá-las artificialmente do contexto. O contexto era médico. Mas um presidente da República, em plena campanha eleitoral, precisa compreender que existem maneiras muito mais cuidadosas, técnicas e respeitosas de abordar assuntos relacionados ao corpo de mulheres e meninas.

A expressão utilizada por Lula pode ser analisada exatamente pelo que foi dita, sem necessidade de acrescentar palavras que não constam do registro.

Não foi a primeira vez que Lula recorreu ao termo “dedada”

O episódio de Belém não surgiu isoladamente.

Meses antes, também ao defender que homens realizassem exames preventivos de próstata, Lula utilizou uma expressão ainda mais informal.

Na ocasião, declarou que, enquanto a mulher se submete a diversos exames, “o homão tem vergonha de tomar uma dedada”.

O vídeo da declaração registra o presidente dizendo:

“Enquanto a mulher se submete a um monte de exames, o homão tem vergonha de tomar uma dedada.”

Em seguida, Lula recomendou que homens acima de determinada idade procurassem atendimento médico e realizassem exames preventivos.

A defesa da prevenção ao câncer de próstata é correta e necessária. O questionamento está na linguagem escolhida pelo chefe de Estado.

E isso ganha ainda mais relevância quando a campanha petista tenta apresentar Lula como uma das principais vozes de defesa das mulheres.

É inevitável perguntar: se uma declaração semelhante partisse de um candidato adversário, qual seria a reação dos setores progressistas, movimentos feministas e integrantes da própria campanha governista?

O debate político precisa ter coerência.

Não é razoável considerar determinada expressão ofensiva quando pronunciada por um adversário e tratá-la apenas como uma “forma popular de falar” quando parte do candidato apoiado.

Uma campanha que tropeça no próprio discurso

O episódio expõe uma dificuldade recorrente de Lula: discursos improvisados frequentemente produzem frases que desviam completamente o foco da pauta originalmente apresentada.

O objetivo em Belém era destacar investimentos na saúde e a realização da primeira cirurgia robótica de próstata no Pará e na Região Norte.

Mas boa parte da repercussão nacional acabou concentrada justamente na declaração de que mulheres “aprendem a tomar toque desde pequenas”.

Ou seja: aquilo que poderia ser uma agenda positiva de saúde pública passou a dividir espaço com uma nova polêmica provocada pelas próprias palavras do presidente.

Não é a oposição que colocou essas palavras na boca de Lula.

Elas foram pronunciadas pelo próprio candidato.

Cabe naturalmente ao eleitor interpretar seu significado, considerando o contexto completo em que foram ditas.

Fé não deveria precisar de campanha eleitoral

Nossa Senhora Aparecida é Padroeira do Brasil independentemente de quem esteja sentado na cadeira presidencial.

Sua posição não depende da vontade pessoal de Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato.

Por isso, transformar a santa em personagem de campanha é uma escolha política que precisa ser analisada criticamente. Da mesma maneira, declarações de adversários misturando governo e religião também merecem escrutínio.

Flávio Bolsonaro, por exemplo, declarou anteriormente que, caso eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Sua campanha posteriormente afirmou que se tratava de um gesto simbólico de oração, e não de alteração jurídica da condição laica do Estado ou do título de Nossa Senhora Aparecida.

Esse contexto é fundamental porque mostra que a exploração eleitoral da religião não acontece em apenas um lado da disputa.

É precisamente por isso que o eleitor deveria receber fatos completos, e não versões moldadas para provocar medo ou indignação.

Futebol também entra no palanque

O futebol igualmente passou a fazer parte das manifestações do presidente nesta reta final.

Em evento no Pará, ao defender o fim das bets, Lula citou títulos históricos da Seleção Brasileira e de clubes brasileiros. Mencionou, entre outros, o Mundial conquistado pelo Flamengo em 1981 e ainda aproveitou para provocar o Palmeiras por não reconhecer a equipe paulista entre os campeões mundiais citados em seu discurso.

Isso, entretanto, não significa que Lula tenha se tornado flamenguista.

A informação documentada é que Lula historicamente se apresenta como torcedor do Corinthians.

O que merece análise política é como futebol, religião e referências populares passam a aparecer cada vez mais nos discursos de candidatos durante uma campanha em que cada segmento do eleitorado se torna decisivo.

O desespero não pode substituir a responsabilidade

Na reta final, campanhas ficam mais agressivas.

Cada palavra passa a ser calculada.

Cada grupo religioso ganha importância.

Cada segmento feminino ou masculino passa a ser disputado.

Cada torcida pode se transformar em palco eleitoral.

É exatamente nesses momentos que se espera ainda mais responsabilidade de quem pretende comandar o país.

Ao mesmo tempo em que Lula busca se apresentar como defensor das mulheres, suas próprias palavras em Belém geraram uma enorme controvérsia ao afirmar que elas “aprendem a tomar toque desde pequenas”.

Ao mesmo tempo em que sua campanha procura destacar respeito à religião, Nossa Senhora Aparecida passou a ocupar espaço central numa disputa eleitoral originada por uma informação contestada sobre seu adversário.

E, ao mesmo tempo em que o Brasil enfrenta discussões fundamentais sobre economia, segurança, saúde, educação e corrupção, parte da campanha presidencial passa a girar em torno de religião, futebol e frases de efeito.

Isso revela muito sobre a qualidade do debate eleitoral que estamos construindo.

A campanha não pode atropelar os fatos

É compreensível que candidatos aumentem o tom na reta final. Eleição é disputa. Campanhas procuram votos. Estratégias mudam conforme pesquisas, rejeições e movimentos dos adversários.

Mas existe uma linha que não deveria ser ultrapassada: a dos fatos.

Criticar Lula pelas palavras que efetivamente pronunciou é legítimo.

Não é necessário inventar frases.

Ele próprio forneceu material suficiente para o debate quando afirmou que mulheres “aprendem a tomar toque desde pequenas” e, em outra ocasião, utilizou o termo “dedada” para falar da resistência masculina ao exame de próstata.

A análise política séria deve trabalhar justamente dessa forma: mostrar o vídeo, reproduzir a declaração corretamente, apresentar o contexto e permitir que cada brasileiro tire sua própria conclusão.

O Brasil tem problemas concretos demais para que uma eleição presidencial seja decidida por boatos, montagens ou informações distorcidas.

Da mesma forma, nenhum candidato deve ser poupado da responsabilidade por aquilo que realmente disse.

Na minha avaliação, o ponto central desta reta final não deveria ser descobrir qual candidato consegue aparecer mais próximo de uma santa, de uma igreja ou de uma torcida.

A pergunta necessária é muito mais objetiva:

Qual projeto cada candidato apresenta para governar o Brasil a partir de 2027?

É nesse terreno — economia, segurança, saúde, educação, liberdade, responsabilidade fiscal, combate à corrupção e eficiência do Estado — que uma eleição presidencial deveria ser enfrentada.

Porque fé merece respeito.

Futebol merece paixão.

Saúde pública merece responsabilidade.

E eleição merece fatos.

Marcos Soares
Jornalista e Analista Político