De aliado circunstancial a foco de tensão entre política, mercado e instituições
Por Marcos Soares – Jornalista e Analista Político
Alexandre de Moraes nunca foi, em essência, um nome da esquerda brasileira. Indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 2017 pelo então presidente Michel Temer, o ministro construiu sua trajetória no campo do centro político, com trânsito histórico entre quadros do establishment paulista e proximidade com figuras como Gilberto Kassab. À época da indicação, era alvo frequente de críticas do Partido dos Trabalhadores, que o via como representante de um perfil conservador na Corte.
A guinada ocorreu quando interesses passaram a convergir. Com a ascensão do bolsonarismo e o agravamento dos conflitos institucionais, setores da esquerda enxergaram em Moraes um aliado tático no enfrentamento ao então presidente Jair Bolsonaro e a seus apoiadores. Não houve conversão ideológica, mas um alinhamento pragmático. Prevaleceu a lógica clássica da política: o inimigo do meu inimigo é, ao menos por enquanto, meu aliado.
Esse apoio circunstancial, no entanto, ajudou a impulsionar Moraes a uma posição de protagonismo incomum no Supremo. Relator de inquéritos sensíveis, figura central no combate à desinformação e voz ativa na defesa das instituições, o ministro acumulou poder e visibilidade em ritmo acelerado. Foi justamente esse crescimento rápido que acendeu alertas em diferentes círculos de poder.
Nos bastidores de Brasília e da Faria Lima, a avaliação recorrente é que Moraes se tornou grande demais — e, pior para alguns interesses, imprevisível. Paralelamente à ampliação de sua influência institucional, a expansão patrimonial e o aumento da projeção de membros de sua família passaram a gerar desconforto em setores tradicionais da política e do mercado, historicamente avessos a figuras que fogem do controle tácito do sistema.
Fontes descrevem a existência de pactos informais e duradouros entre grandes bancos e conglomerados de mídia, numa engrenagem de proteção mútua que atravessa governos e crises. Nomes como André Esteves, BTG Pactual, Itaú Unibanco e o Grupo Globo surgem com frequência nesse contexto, não como prova de conspiração, mas como exemplo de uma elite econômica acostumada a operar com previsibilidade e estabilidade institucional.
A pergunta que circula nos corredores do poder é direta: por que grupos que antes apoiavam ou, ao menos, toleravam Alexandre de Moraes agora demonstram interesse em enfraquecê-lo? Para interlocutores próximos a esse debate, o receio central é que o ministro tenha ultrapassado limites implícitos, passando a tocar em interesses sensíveis demais, inclusive dentro do próprio sistema que o sustentou.
O caso do Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, é citado como um dos episódios mais delicados desse tabuleiro. Com forte presença política e trânsito por diferentes partidos e governos, o banco tornou-se um ator relevante em disputas de bastidores. Vorcaro, descrito por fontes como alguém identificado com a direita, teria acumulado poder suficiente para incomodar concorrentes mais tradicionais do setor financeiro.
Tudo isso se desenrola sobre um pano de fundo paradoxal. O atual modelo econômico, marcado por juros elevados e alta concentração bancária, tem sido extremamente favorável aos grandes bancos. Sob o governo Lula, os lucros do sistema financeiro atingiram patamares históricos. Ainda assim, longe de pacificar o ambiente, esse cenário intensificou disputas internas por espaço, influência e controle.
No caso do Banco Master — e, em sentido mais amplo, na tensão em torno de Alexandre de Moraes — uma conclusão se impõe entre analistas e fontes do poder: há poucos inocentes. A disputa não é moral nem ideológica. É, como quase sempre nos andares altos da política e do mercado, uma briga por poder.


