A poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega à fase decisiva da campanha enfrentando um cenário de forte polarização, índices relevantes de desaprovação e questionamentos sobre declarações feitas durante entrevistas e discursos públicos.

Levantamentos recentes mostram um quadro de desgaste político persistente: a avaliação negativa do governo permanece acima da positiva, enquanto a disputa eleitoral contra Flávio Bolsonaro (PL) aparece tecnicamente empatada em diferentes pesquisas.

Declarações de Lula são contestadas por checagens

Além dos desafios econômicos e políticos enfrentados pelo governo, declarações de Lula passaram novamente pelo crivo de agências especializadas em verificação de fatos.

Na entrevista concedida à TV Globo em 27 de agosto, por exemplo, o Aos Fatos apontou informações falsas ou imprecisas nas declarações do presidente. Segundo a agência, Lula afirmou nunca ter se encontrado com a lobista Roberta Luchsinger, sócia de seu filho Fábio Luís Lula da Silva, embora existam ao menos dois registros públicos de encontros entre ambos. A checagem também contestou afirmações feitas pelo presidente sobre temas como fome e crescimento econômico em governos anteriores.

Outro episódio ocorreu quando Lula insistiu em dizer que Flávio Bolsonaro, pretende retirar o título de Nossa Senhora como padroeira do Brasil.

Avaliação negativa continua acima da positiva

Os números do Datafolha ajudam a dimensionar a dificuldade enfrentada pelo governo na reta final.

Pesquisa realizada nos dias 22 e 23 de setembro mostrou que 40% dos entrevistados consideravam o governo Lula ruim ou péssimo, enquanto 34% o avaliavam como ótimo ou bom. Outros 24% classificavam a administração como regular.

Quando a pergunta foi diretamente sobre o desempenho pessoal do presidente, 50% disseram desaprovar Lula e 47% aprovar. O levantamento ouviu 2.002 pessoas e tem margem de erro de dois pontos percentuais.

Os números representam uma pequena melhora em relação a levantamentos anteriores do próprio instituto. No início de setembro, 42% avaliavam o governo como ruim ou péssimo e 31% como ótimo ou bom, enquanto 51% desaprovavam pessoalmente o presidente e 45% o aprovavam.

Portanto, embora Lula ainda enfrente um saldo desfavorável de avaliação, os dados mais recentes do Datafolha não indicam uma queda contínua nas semanas finais; mostram, na realidade, alguma recuperação dentro de um quadro ainda marcado por elevada rejeição.

Já o AtlasIntel/Bloomberg mostrou cenário mais desfavorável em pesquisa realizada entre 4 e 9 de setembro. Segundo o instituto, 53,8% desaprovavam Lula e 43,7% aprovavam. Em agosto, os percentuais haviam sido de 52,9% de desaprovação e 45,4% de aprovação.

Disputa presidencial chega à reta final apertada

A consequência política mais importante aparece nas pesquisas eleitorais.

Levantamento Quaest divulgado em 28 de setembro colocou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 34% de Flávio Bolsonaro. Em uma eventual disputa de segundo turno entre os dois, o resultado foi de 42% para Lula e 42% para Flávio, configurando empate. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores e tem margem de erro de dois pontos percentuais.

O Datafolha também vinha registrando equilíbrio. Em levantamento divulgado no início de setembro, Lula tinha 46% em uma simulação de segundo turno contra 44% de Flávio Bolsonaro — diferença dentro da margem de erro de dois pontos.

Pesquisa Palver divulgada em 29 de setembro mostrou os dois candidatos com 44% no primeiro turno. No segundo turno, Flávio registrou 47% e Lula 45%, também dentro da margem de erro. O mesmo levantamento apontou rejeição de 51% a Lula e de 48% a Flávio Bolsonaro.

A AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta terça-feira (29) igualmente mostrou empate estatístico entre Lula e Flávio em cenário de segundo turno.

Reeleição deixa de ser cenário confortável

Os levantamentos não permitem afirmar antecipadamente quem vencerá a eleição. O que os números permitem concluir é que Lula chega à reta final sem uma vantagem suficiente para afastar a possibilidade de derrota.

A combinação entre avaliação negativa elevada, rejeição pessoal significativa, declarações posteriormente contestadas por verificadores e crescimento da competitividade eleitoral de seu principal adversário cria um cenário bastante diferente daquele de uma candidatura com reeleição encaminhada.

Ao mesmo tempo, Lula continua liderando numericamente algumas pesquisas de primeiro turno e mantém um eleitorado expressivo. Por isso, os próprios levantamentos apontam para uma eleição aberta e altamente polarizada, e não para uma tendência consolidada de derrota.

Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro de 2026, os últimos dias de campanha serão decisivos para Lula e seus adversários. Para o presidente, o desafio será reduzir sua rejeição e evitar que novas controvérsias dominem o debate. Para a oposição, será necessário transformar o empate técnico registrado em diferentes pesquisas em votos efetivos nas urnas.

O quadro apresentado pelos institutos é claro em um aspecto: a reeleição de Lula não aparece como garantida, e a definição dependerá do comportamento dos eleitores na reta final e, eventualmente, em um segundo turno. 



Por Marcos Soares - Jornalista e Analista Político