Por Dra Kênia Quintal
Criminosos usam nomes de órgãos oficiais para roubar dados e dinheiro. Saiba como identificar as fraudes da Prova de Vida e da “pendência grave” no Imposto de Renda e proteja-se.
A criatividade dos golpistas voltou a atacar em duas frentes que afetam milhões de brasileiros: a Previdência Social e a Receita Federal. Usando táticas de engenharia social cada vez mais refinadas, os criminosos se passam por autoridades para criar um falso senso de urgência e levar as vítimas ao erro. As abordagens envolvem desde ligações sobre a Prova de Vida do INSS até mensagens de WhatsApp sobre “pendências graves” no Imposto de Renda.
A sofisticação dos golpes é notável. Em muitos casos, os fraudadores já possuem o nome completo e o CPF da vítima, o que confere uma perigosa camada de veracidade à comunicação. O cenário de vulnerabilidade é amplo: uma pesquisa de 2025 revelou que quatro em cada dez brasileiros com mais de 60 anos já foram vítimas de fraudes financeiras, enquanto o país lidera o ranking mundial de chamadas de spam.
A Falsa Prova de Vida do INSS
Nesta fraude, aposentados e pensionistas recebem uma ligação, supostamente da Central 135 do INSS, informando sobre uma pendência na Prova de Vida. Com um tom alarmista, uma gravação ou um falso atendente instrui a vítima a interagir com o teclado do telefone para “regularizar” a situação e não ter o benefício bloqueado. O objetivo é um só: roubar dados sigilosos para cometer outras fraudes.
O INSS é enfático ao afirmar que não realiza a Prova de Vida por telefone, SMS ou WhatsApp. Desde 2023, o procedimento é automático, baseado no cruzamento de dados de atividades do cidadão (como vacinação, consultas no SUS ou votação). Apenas quem não é identificado por esse sistema é notificado para realizar o procedimento, e esse aviso ocorre exclusivamente pelo extrato bancário.
A “Pendência Grave” na Receita Federal
A segunda fraude chega por WhatsApp. A mensagem, em nome da Receita Federal, usa o nome e o CPF da vítima para comunicar um “ÚLTIMO AVISO” sobre uma “PENDÊNCIA GRAVE” no Imposto de Renda. O texto ameaça com o bloqueio de contas, cartões e até do PIX caso a situação não seja resolvida imediatamente através de um link.
Esse link leva a um site que imita perfeitamente o portal oficial do governo (gov.br), mas com um endereço diferente (como .live ou outros domínios não oficiais). Na página falsa, a vítima é informada de uma dívida fictícia e oferecido um “desconto” para quitação via PIX. O valor, geralmente em torno de R$ 138, é transferido diretamente para a conta dos criminosos.
A Receita Federal não solicita pagamentos por telefone, e-mail ou mensagens. Documentos de arrecadação (DARF) são gerados apenas nos canais oficiais, como o portal e-CAC, que deve ser acessado digitando-se o endereço diretamente no navegador.
Como se Proteger: Um Guia Unificado Contra Fraudes
Apesar de usarem iscas diferentes, os golpes seguem um padrão. A principal arma do cidadão é a desconfiança e a informação. O problema é tão recorrente que o Governo Federal já precisou devolver mais de R$ 2,8 bilhões a vítimas de descontos fraudulentos em benefícios do INSS.
O primeiro sinal de alerta deve ser a urgência e as ameaças. Mensagens que gritam “Último aviso” ou “bloqueio definitivo amanhã” são clássicas de golpistas. Desconfie sempre. Órgãos oficiais não impõem prazos tão curtos por canais informais como telefone, WhatsApp ou e-mail. Quando a pressa bate à porta, é hora de ligar o sinal de alerta.
Outro indicador importante é a presença de links suspeitos. Endereços que não terminam em gov.br são praticamente garantia de fraude. A regra é simples: não clique. Se receber uma mensagem com um link, ignore-o completamente. Em vez disso, digite o endereço oficial do órgão diretamente no seu navegador (como `inss.gov.br` ou `receita.fazenda.gov.br`). Essa prática leva apenas alguns segundos e pode salvar seu dinheiro e seus dados.
Muitos golpes também incluem uma solicitação de pagamento imediato, frequentemente com a oferta de um “desconto” para quem pagar via PIX. Jamais caia nessa. Boletos e guias de pagamento oficiais são gerados apenas dentro dos portais seguros do governo, nunca por mensagem ou ligação. Se você realmente tem uma dívida, ela aparecerá no seu portal de contribuinte ou será comunicada através de correspondência oficial.
Finalmente, fique atento a contatos inesperados. Se você recebe uma ligação ou mensagem que não solicitou, especialmente de órgãos públicos, a desconfiança deve ser sua primeira reação. Desligue a chamada ou ignore a mensagem. Depois, procure o órgão por seus canais oficiais para confirmar se há alguma pendência real. Essa verificação cruzada é a melhor forma de se proteger.
Um dever de vigilância coletiva
Os golpes não escolhem classe social, escolaridade ou idade, mas os idosos e aposentados continuam sendo os mais vulneráveis. Cada fraude evitada é uma vida poupada de sofrimento financeiro e emocional. Pesquisas mostram que além das perdas monetárias, vítimas de golpes enfrentam ansiedade, insônia e sentimentos de vergonha que podem durar meses.
Por isso, a informação é mais que um conselho: é um ato de solidariedade.
A prevenção exige informação qualificada e postura crítica diante de comunicações inesperadas. Desligar a chamada suspeita. Ignorar o link recebido. Confirmar diretamente nos canais oficiais. Medidas simples que interrompem a cadeia do golpe.
Em um cenário de hiperconectividade, a fraude não se apresenta como ameaça evidente — ela se disfarça de autoridade.
Por isso, mais do que um alerta pontual, a conscientização deve ser permanente.
Porque, quando o crime utiliza o nome do Estado como instrumento de engano, a resposta mais eficaz continua sendo a mesma: lucidez, verificação e responsabilidade coletiva.
Informar-se é proteger-se. Compartilhar informação é proteger o outro!
Dra Kênia Quintal – Colunista – Advogada – Procuradora Geral do Munícipio de Carapebus – RJ

