Um levantamento identificou que nove ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e 12 parentes diretos — entre filhos e cônjuges — figuram como sócios de pelo menos 31 empresas em atividade no país. Do total, 13 são escritórios de advocacia ou institutos voltados à área jurídica, enquanto seis atuam no setor imobiliário, com foco em gestão, compra, venda e locação de imóveis próprios.
Os dados foram compilados a partir de registros públicos e juntas comerciais, mas o número de empresas pode ser ainda maior. A legislação brasileira permite a existência de sócios ocultos, cuja participação não aparece formalmente nos documentos acessíveis ao público, o que dificulta o mapeamento completo das estruturas societárias.
Participações e setores de atuação
A maior concentração de empresas está na área jurídica, segmento tradicionalmente associado à trajetória profissional de ministros que, antes de ingressarem na Corte, atuaram como advogados, professores ou consultores. Em muitos casos, os negócios permanecem sob responsabilidade de familiares ou sócios remanescentes após a nomeação ao tribunal, conforme permitem as regras de afastamento da advocacia.
Além do setor jurídico, o mercado imobiliário aparece como segunda principal área de investimento, reunindo seis empresas com atividades relacionadas à administração e exploração de patrimônio próprio. Há ainda participações em companhias com atuação diversificada, incluindo consultorias e holdings patrimoniais.
Caso Dias Toffoli
Entre as situações que ilustram a complexidade do rastreamento societário está a participação do ministro Dias Toffoli na empresa Maridt, uma das proprietárias do resort Tayayá Resort, localizado no interior do Paraná. O empreendimento foi posteriormente vendido a um fundo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
No caso específico, a participação societária não aparecia de forma direta em todos os registros públicos, o que reforça a possibilidade de subnotificação quando se consideram apenas dados formalmente disponíveis.
Metodologia do levantamento
O mapeamento das empresas foi realizado com base em registros oficiais em nome dos ministros do STF e de seus filhos e cônjuges. A análise também incluiu três empresas nas quais os nomes dos magistrados não constam formalmente no quadro societário, mas que apresentam indícios de ligação indireta, como coincidência de endereços, vínculos familiares ou participação anterior.
Especialistas em direito público observam que a mera condição de sócio não implica irregularidade, desde que respeitadas as regras de impedimento e suspeição previstas na legislação. No entanto, o tema reacende o debate sobre transparência, conflito de interesses e a necessidade de maior clareza na divulgação de informações patrimoniais de autoridades públicas.
Até o momento, não há indicação de ilegalidade nas participações identificadas. O assunto, contudo, deve alimentar discussões sobre governança e accountability no mais alto escalão do Judiciário brasileiro.

