Por Mara Costa
Com 14 anos de obra nos bastidores de gigantes como JBS e Brookfield — e 3.000 metros de fibra de carbono aplicados com as próprias mãos —, Ricardo Augusto Pereira chegou aos Estados Unidos para preencher o maior vácuo técnico da história da infraestrutura americana. Ele não veio como imigrante. Veio como solução.
Em 24 de junho de 2021, às 1h22 da manhã, o Champlain Towers South desabou sobre si mesmo em Surfside, na Flórida. Noventa e oito pessoas morreram enquanto dormiam. A estrutura tinha 40 anos, e os sinais de deterioração progressiva estavam todos lá — invisíveis para quem não soubesse onde olhar. Fissuras progressivas nas fundações. Corrosão silenciosa das armaduras. Concreto que se desfazia por baixo de um revestimento que parecia íntegro.
Ricardo Augusto Pereira soubesse onde olhar. Não naquele edifício específico — mas em dezenas de outros, ao longo de uma trajetória que começou no canteiro de obras de Goiânia e hoje aponta para o maior mercado de reabilitação estrutural da história americana.
Engenheiro
civil formado pela PUC-GO, com pós-graduação em Estruturas de Concreto Armado e Fundações pelo INBEC, Pereira construiu em 14 anos de obra o que nenhum programa acadêmico ensina: a capacidade de diagnosticar, projetar e executar o reforço de estruturas críticas com fibra de carbono — do laudo forense à estrutura reabilitada, sob uma única responsabilidade técnica.
Hoje, essa expertise é o núcleo da StructuraCore, empresa que fundou para operar no mercado americano. O timing é calculado. O dinheiro federal está alocado. E a janela técnica está aberta.
“A maioria das patologias que comprometem uma estrutura não aparecem na inspeção visual convencional. Corrosão interna de armaduras, fadiga de conexões, degradação em camadas internas de concreto — uma vistoria de rotina deixa passar 30 a 40% desses problemas. É quando a tragédia espera.”
RICARDO AUGUSTO PEREIRA, ENGENHEIRO ESTRUTURAL E FUNDADOR DA STRUCTURACORE
A crise que US$ 1,2 trilhão ainda não consegue resolver
A American Society of Civil Engineers (ASCE) deu nota C à infraestrutura americana em seu relatório de 2025 — a mais alta desde 1998, mas ainda indicativa de um sistema em colapso lento e silencioso. Das 623.000 pontes em operação nos Estados Unidos, 42.400 estão classificadas pela Federal Highway Administration como estruturalmente deficientes. A idade média dessas estruturas supera 47 anos — acima da vida útil de projeto de muitas delas.
O colapso da ponte Francis Scott Key, em Baltimore, em março de 2024 — que matou seis trabalhadores e paralisou um dos portos mais movimentados da costa leste por meses — foi o lembrete mais brutal do custo de ignorar o envelhecimento da infraestrutura. Mas o Key Bridge era apenas o mais visível de uma lista que inclui dezenas de estruturas cuja deterioração avança sem que haja mãos suficientes para contê-la.
O governo federal respondeu com a Infrastructure Investment and Jobs Act: US$ 1,2 trilhão, dos quais US$ 40 bilhões destinados exclusivamente a pontes. É o maior investimento em infraestrutura da história americana. O dinheiro está alocado. Os contratos estão sendo publicados. O que não existe, em quantidade suficiente, é quem saiba executar.
O QUE É O CFRP — E POR QUE O MERCADO AMERICANO NÃO DOMINA
Fibra de carbono estrutural (CFRP): material composto formado por filamentos de carbono impregnados em resina epóxi. Relação resistência/peso até 5 vezes superior ao aço, sem aumentar a carga na estrutura.
Aplicação em reforço estrutural: laminados e mantas são colados ou ancorados em vigas, pilares e lajes deterioradas, restaurando — e frequentemente ampliando — a capacidade de carga original.
Por que é difícil de executar: a eficácia depende de diagnóstico forense preciso da patologia existente, projeto de reforço calibrado para cada caso e aplicação controlada em campo. Erros em qualquer etapa comprometem o resultado ou criam falsos positivos de segurança.
Custo-benefício: reabilitar com CFRP custa entre 30% e 60% do valor de demolição e reconstrução — e pode ser feito sem interromper a operação da estrutura, o que é crítico para pontes e instalações industriais.
Experiência de Pereira: mais de 3.000 metros lineares de manta CFRP aplicados em obras reais no Brasil, incluindo o edifício de 30 andares da Brookfield em Goiânia — um dos maiores projetos de reforço com fibra de carbono já executados no Centro-Oeste.
“Reabilitar uma estrutura com CFRP não é colar fita adesiva em coluna. É diagnóstico forense, cálculo estrutural, compatibilização de materiais e execução milimétrica. É o tipo de trabalho que não tem atalho — e que o mercado americano ainda não aprendeu a fazer em escala.”
— RICARDO AUGUSTO PEREIRA
12 anos de obra — e cada projeto foi uma aula que o mercado não oferece
Ricardo Augusto Pereira tem 33 anos. Nasceu em 1º de junho de 1992, no interior de Goiás, e chegou à engenharia civil pela PUC-GO em 2010. Mas o que define sua trajetória não é o diploma — é o que aconteceu antes de ele ser emoldurado.
Ainda como estagiário na Solar Botafogo, em Goiânia, entre 2011 e 2012, acompanhou a execução das fundações de um edifício residencial de 30 andares. Foi o primeiro contato com a escala que se tornaria sua especialidade. Em setembro de 2012, ainda recém-formado, assumiu na TCI Construtora a coordenação simultânea de dois empreendimentos — uma torre de 44 andares e outra de 42 — com 300 trabalhadores sob sua responsabilidade direta. Tinha 20 anos.
O LABORATÓRIO DA HIRATA (2014–2017)
Em julho de 2014, Ricardo migrou para a Hirata e Associados Consultoria e Projetos Estruturais, onde passou três anos imerso em um universo diferente: não mais a construção do novo, mas a salvação do que estava cedendo. Ali aprendeu a usar o SAP2000, o ETABS e o TQS não apenas para projetar, mas para investigar — a ler uma estrutura deteriorada como quem lê um prontuário médico.
Foi nesse período que desenvolveu o projeto que mais tarde chamaria atenção internacional: o reforço de um tanque de aeração em indústria farmacêutica em Senador Canedo, Goiás, utilizando concreto pós-tensionado. A solução foi apresentada no 58º Congresso Brasileiro do Concreto e no III Seminário Latino-Americano de Pós-Tensionamento — e em dezembro de 2017, o Post-Tensioning Institute (PTI), organização com mais de 2.200 membros em 50 países, indicou o projeto ao PTI Journal Project Award, um dos mais respeitados reconhecimentos internacionais em estruturas de concreto.
Também foi durante a Hirata que Pereira desenvolveu sua metodologia de avaliação pós-sinistro, que o distinguiria no mercado: em 2016, foi designado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região como consultor técnico para avaliar a estrutura do Complexo Trabalhista de Goiânia — um edifício danificado por incêndio, cujo estado comprometia decisões judiciais e administrativas. O laudo que produziu, com ART emitida pelo CREA-GO, exigiu análise forense de estrutura de concreto armado e protendido em ambiente degradado. Nenhum programa de pós-graduação ensina isso.
“Quando você avalia uma estrutura depois de um incêndio, você não está apenas medindo o que está visível. Está reconstituindo o histórico de calor, a perda de resistência das armaduras por zona, a carbonatação da superfície. É uma investigação forense. E o resultado do seu laudo pode salvar ou condenar um edifício — e as pessoas dentro dele.”
— RICARDO AUGUSTO PEREIRA
A RBP CONSTRUTORA — E O CRESCIMENTO QUE NINGUÉM ESPERAVA
Em junho de 2015, enquanto ainda trabalhava na Hirata, Ricardo Augusto Pereira fundou a RBP Construtora EIRELI com foco em reforço estrutural e recuperação de edificações. O crescimento foi vertiginoso: do segundo para o terceiro ano de operação, a receita cresceu 300%. No auge, a empresa operava com 90 profissionais em 7 frentes de trabalho distribuídas por 5 cidades de Goiás e Mato Grosso.
A carteira de clientes diz muito sobre o nível técnico exigido: JBS S/A — a maior processadora de proteína animal do mundo — contratou a RBP para intervenções estruturais em seis de suas unidades industriais. O desafio era técnico e logístico ao mesmo tempo: substituir 1.000 m² de lajes, vigas e colunas sem interromper as operações de uma das fábricas mais exigentes do país.
Para a Brookfield Engenharia, Ricardo executou em 2018 um dos maiores projetos de reforço com fibra de carbono do Centro-Oeste: a aplicação de 3.000 metros de laminados CFRP no modelo cut-in e 36 metros de laminados aderidos em viga, além de aumento de seção em concreto armado de vigas, lajes e pilares — tudo em um edifício residencial de 30 andares em operação, com moradores.
Para a Flora Produtos de Higiene e Limpeza, executou em 2018 a recuperação estrutural de laje de cobertura com tratamento de armadura em processo de corrosão. Para a Cosmed Indústria de Cosméticos, projetou em 2015 o reforço estrutural em concreto armado e protendido da ETA da unidade de Senador Canedo. Para a Hexistar Farmacêutica, realizou em 2023 projeto e assessoria de reforço em console metálica para retirada de pilar em concreto armado — uma das operações mais delicadas da engenharia estrutural.
“O mercado americano vai gastar US$ 40 bilhões em pontes. Mas dinheiro não sabe aplicar fibra de carbono. Dinheiro não faz laudo forense. Dinheiro não salva estrutura. Engenheiro faz isso. E engenheiro com esse histórico é o que eles não têm em quantidade suficiente.”
— RICARDO AUGUSTO PEREIRA
O LADO QUE O CURRÍCULO NÃO MOSTRA — E QUE DIZ MUITO SOBRE QUEM ELE É
Antes de ser engenheiro estrutural de referência em Goiás, Ricardo Augusto Pereira foi fazendeiro. Em junho de 2010, durante a graduação, assumiu a gestão da Agrotex Agropecuária, em Aurilândia — uma fazenda produtora de borracha natural que ele ajudou a criar do zero: limpeza da área, plantio e extração do látex, gestão de 90 funcionários e construção de uma operação que atingiu receita de US$ 1 milhão ao ano.
A experiência não foi um desvio de trajetória. Foi uma formação paralela em gestão de operações em ambiente rural, tomada de decisão sob pressão e liderança em contextos sem manual. Em 2019, foi eleito presidente da APROB-GO/TO — Associação dos Produtores de Borracha Natural dos Estados de Goiás e Tocantins — cargo que ocupou até 2021. A capacidade de articular interesses setoriais, negociar com governos e representar uma classe produtiva diante de adversidades é o tipo de liderança que o mercado corporativo cobra, mas raramente ensina.
Também entre 2017 e 2020, atuou como Administrador e Conselheiro da Corporio Empreendimentos Imobiliários, sediada em Bruxelas com operações no Brasil — responsável pela direção da empresa no país, estudos de viabilidade para incorporação e loteamentos, assessoria técnica e estratégica, e pela recuperação de US$ 4 milhões perdidos por gestão anterior.
De Goiânia para o mundo — o engenheiro que também publica
Em paralelo às obras, Ricardo Augusto Pereira construiu uma trajetória acadêmica que poucas vezes acompanha quem trabalha na intensidade que ele trabalhou. Publicou três artigos científicos como autor principal na Revista FT — periódico com classificação Qualis B2 e registro DOI Crossref, o padrão internacional de indexação científica.
Em 2025, lançou pela Golden Int. o livro ‘Gestão de Projetos de Engenharia Civil em Ambientes Multiculturais: Estratégias para o Mercado Global’ (ISBN 978-65-986494-2-5). O título não é acidental: é um mapa do que ele viveu e do que pretende fazer nos Estados Unidos — gerenciar projetos complexos em ambientes onde o idioma, a regulação e a cultura construtiva são diferentes dos que aprendeu.
“Gestão multicultural não é só falar outro idioma. É entender por que o inspetor americano pensa diferente do engenheiro brasileiro. É saber que o cliente europeu quer relatório antes da obra e o cliente brasileiro quer resultado depois. É calibrar sua comunicação para cada contexto sem perder a precisão técnica.”
— RICARDO AUGUSTO PEREIRA, EM ‘GESTÃO DE PROJETOS DE ENGENHARIA CIVIL EM AMBIENTES MULTICULTURAIS’
A StructuraCore — e a aposta no maior mercado de infraestrutura do mundo
A StructuraCore não nasceu de um plano de negócios elaborado em escritório. Nasceu de uma leitura de mercado feita por um engenheiro que passou 14 anos identificando o que as estruturas têm — e o que elas precisam. E que percebeu, ao olhar para os Estados Unidos, que o que o mercado americano precisava era exatamente o que ele sabia fazer.
O modelo da StructuraCore integra três etapas que o mercado americano normalmente terceiriza para atores diferentes: (1) inspeção e diagnóstico forense, com identificação de patologias que inspeções visuais convencionais não captam; (2) projeto de reforço estrutural com materiais avançados, especialmente CFRP; e (3) execução supervisionada em campo, com monitoramento pós-obra. A integração das três etapas sob uma única responsabilidade técnica elimina a perda de informação entre fases — e reduz o risco de retrabalho.
O mercado-alvo imediato são os estados que endureceram sua legislação de segurança estrutural após o colapso do Champlain Towers em 2021: Flórida, Nova York, Nova Jersey, Maryland e Virgínia, entre outros. Nesses estados, condomínios residenciais com mais de três andares e determinada idade são obrigados a realizar inspeções estruturais periódicas — e a executar os reparos indicados. É um pipeline de demanda que se formou por força de lei e que crescerá nos próximos anos.
O segundo mercado são as pontes. Com US$ 40 bilhões federais destinados à reabilitação de pontes, os estados estão publicando editais para contratos de diagnóstico, projeto e reforço de estruturas de até 60 anos. A maioria desses contratos exige capacidade técnica em materiais compostos avançados — exatamente o que a StructuraCore oferece. O endereço digital da empresa, structuracore.store, é o primeiro ponto de contato de um posicionamento que está sendo construído para o longo prazo.
A chegada de Pereira aos Estados Unidos não é a história de um imigrante em busca de oportunidade. É a história de um especialista que identificou onde sua competência técnica resolve um problema de escala nacional — e decidiu estar lá no momento certo. A diferença entre as duas narrativas é pequena na forma, mas enorme no posicionamento de mercado.
‘O mercado americano não precisa de mais um engenheiro’, diz Pereira. ‘Precisa de alguém que sabe exatamente o que está vendo quando olha para
uma ponte de 50 anos. Precisa de alguém que já fez isso — não em simulação, não em laboratório, mas com as mãos, em estrutura real, com consequência real.’ É uma frase que resume 14 anos de obra em uma sentença. E que o mercado americano, neste momento, não tem como contradizer.
LINHA DO TEMPO — RICARDO AUGUSTO PEREIRA
2007: International Student Program — Burnaby South Secondary School, Vancouver, Canadá.
2008–2009: Primer Bachillerato — Colegio Néstor Almendros, Sevilha, Espanha.
2010–2015: Graduação em Engenharia Civil — PUC-GO, Goiânia. Gestão da Agrotex Agropecuária, Aurilândia.
2011–2012: Estágio — Solar Botafogo, Goiânia. Fundação de edifício de 30 andares.
2012–2014: Engenheiro Civil — TCI Construtora. Gestão de torres de 44 e 42 andares, 300 trabalhadores.
2013: Business English — University of California San Diego (UCSD).
2014–2017: Engenheiro Estrutural — Hirata e Associados. Projeto de tanque pós-tensionado indicado ao PTI Journal Award (dez/2017). Consultor técnico do TRT 18ª Região (2016).
2015–presente: Fundador e CEO — RBP Construtora EIRELI. Crescimento de 300% da receita. Projetos para JBS, Brookfield, Cosmed, Hexistar, Flora. 90 funcionários, 7 frentes, 5 cidades.
2017–2020: Administrador e Conselheiro — Corporio Empreendimentos Imobiliários (Bruxelas/Brasil).
2019–2021: Presidente da APROB-GO/TO — Associação dos Produtores de Borracha Natural de GO e TO.
2025: Publicação do livro ‘Gestão de Projetos de Engenharia Civil em Ambientes Multiculturais’ (Golden Int., ISBN 978-65-986494-2-5). Fundação da StructuraCore para o mercado americano.
“Cada ponte reabilitada é uma ponte que não desaba. Cada edifício diagnosticado é uma família protegida. Vim para os Estados Unidos porque é aqui que está o maior número de estruturas que precisam de alguém que sabe o que está fazendo. E eu sei.”
— RICARDO AUGUSTO PEREIRA, FUNDADOR DA STRUCTURACORE
A infraestrutura americana está envelhecendo. As tragédias de Surfside e de Baltimore deixaram legislação permanente, orçamentos históricos e uma demanda técnica que o mercado local ainda não consegue suprir. O dinheiro federal está alocado. Os contratos estão sendo publicados. O que falta, como sempre na engenharia, é quem saiba exatamente o que está vendo — e o que fazer com isso.
Ricardo Augusto Pereira passou 14 anos aprendendo exatamente isso. Em canteiros de obras de Goiás e Mato Grosso. Em seis unidades industriais da maior processadora de proteína do mundo. Em um edifício de 30 andares com moradores. Em um tribunal federal que precisava de um laudo para tomar uma decisão. Em um tanque de aço que virou estudo de caso internacional.
Agora ele chegou. E trouxe as ferramentas certas, na hora certa, para o lugar certo.

