
O Paraguai enfrenta uma das mais graves crises políticas e financeiras de sua história recente. O ex-presidente Santiago Peña foi preso após ser destituído do cargo por meio de um processo de impeachment, aprovado pelo Senado na sexta-feira (6). A decisão ocorreu em meio a um escândalo envolvendo o Ueno Bank, instituição financeira que entrou em colapso e deixou milhões de clientes sem acesso aos próprios recursos.
Neste sábado (7), a Justiça paraguaia decretou a prisão preventiva do ex-chefe de Estado, que passou a ficar sob custódia no Regimento de Escolta Presidencial, em Assunção. A medida foi determinada pelo juiz Humberto Otazú, que considerou a existência de risco de fuga e possível interferência nas investigações.
Escândalo financeiro derrubou o governo
A crise ganhou proporções nacionais após o Banco Central do Paraguai intervir no Ueno Bank, em 3 de novembro, diante de problemas relacionados à solvência da instituição.
O banco, que possuía aproximadamente 2,9 milhões de clientes, administrava mais de US$ 800 milhões em recursos públicos, segundo estimativas apresentadas pelas autoridades paraguaias.
A investigação busca esclarecer se houve favorecimento político, interferência em órgãos reguladores e utilização irregular de recursos estatais para beneficiar a instituição financeira.
Santiago Peña, que foi acionista da holding controladora do banco até 2025, é investigado por suspeitas de lesão de confiança e administração em proveito próprio. As autoridades também apuram a atuação de ex-integrantes do Banco Central.
Prisão preventiva e investigação criminal
A situação jurídica do ex-presidente se agravou após sua destituição. Inicialmente colocado em prisão domiciliar, Peña foi posteriormente submetido à prisão preventiva por determinação judicial.
O Ministério Público sustenta que existem indícios de irregularidades que justificam o aprofundamento das investigações. A Justiça também determinou o bloqueio de bens do ex-presidente.
Peña nega ter cometido crimes. Sua defesa contesta a justificativa de risco de fuga e afirma que não existem elementos concretos que comprovem intenção de obstruir a investigação.
A prisão é cautelar e não representa condenação definitiva. O ex-presidente permanece amparado pelo princípio da presunção de inocência.
Pedro Alliana assume a Presidência
Com a saída de Santiago Peña, o então vice-presidente Pedro Alliana foi empossado pelo Congresso Nacional na sexta-feira (6).
Integrante do Partido Colorado, mesma legenda de Peña, Alliana assumiu o comando do país com a responsabilidade de administrar a crise institucional e restabelecer a confiança no sistema financeiro.
O novo presidente deverá concluir o mandato presidencial até agosto de 2028.
Uma de suas primeiras medidas foi priorizar a devolução de depósitos aos clientes prejudicados pela crise bancária. Segundo informações divulgadas pelo governo, aproximadamente 1,2 milhão de contas já haviam recebido pagamentos, totalizando cerca de US$ 160 milhões.
População protesta e cobra responsabilização
O colapso do Ueno Bank provocou manifestações nas ruas de Assunção e aumentou a pressão sobre as autoridades.
Milhares de cidadãos foram afetados pelas restrições de acesso ao dinheiro, incluindo aposentados, trabalhadores e empresas que mantinham recursos na instituição.
A preocupação também alcançou fundos previdenciários, aumentando o temor sobre a segurança dos recursos destinados ao pagamento de aposentadorias.
As manifestações registraram confrontos entre manifestantes e forças policiais, enquanto organizações de trabalhadores passaram a exigir garantias para a recuperação do dinheiro depositado no banco.
Crise pode ter novos desdobramentos
A queda e a prisão de Santiago Peña representam um episódio de grande repercussão para a política sul-americana. O caso reúne acusações de irregularidades administrativas, suspeitas de favorecimento financeiro, crise bancária e questionamentos sobre a fiscalização das instituições públicas.
As investigações prosseguem e poderão alcançar outras autoridades e dirigentes ligados ao setor financeiro.
Para o Paraguai, o desafio agora vai além da substituição presidencial: será necessário recuperar a estabilidade econômica, garantir a proteção dos correntistas e esclarecer as responsabilidades pelo colapso bancário que desencadeou a crise.
O episódio coloca novamente em discussão a importância da transparência na administração pública, da independência dos órgãos fiscalizadores e da responsabilização de autoridades, sempre com respeito ao devido processo legal.
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