Elaborado por Flávia Moreno em parceria com Milena Verardo.
O canteiro de obras no Brasil é, historicamente, um ambiente de contradições. Enquanto arranha-céus espelhados se erguem nos grandes centros urbanos sob a vigilância rigorosa de engenheiros de segurança e auditores de qualidade, uma realidade bem diferente se desenrola nas periferias e bairros em expansão. O setor de construção residencial brasileiro é esmagadoramente dominado por micro e pequenas empresas. São organizações que, na maioria das vezes, não possuem gestores de segurança dedicados, operam sem sistemas de qualidade formalizados e carecem de documentação técnica adequada. No entanto, perante a lei, essas pequenas construtoras estão sujeitas às mesmas exigências regulatórias e normativas que as gigantes do setor. O resultado dessa assimetria é uma lacuna crítica que coloca em risco tanto a integridade física dos trabalhadores quanto a viabilidade financeira dos empreendimentos.
Os dados sobre a segurança no trabalho na construção civil revelam um problema estrutural profundo que o mercado frequentemente hesita em confrontar. Historicamente, a construção civil ocupa as primeiras posições nos tristes rankings de acidentalidade no país. Segundo dados recentes do Ministério do Trabalho e Emprego e do INSS, a construção civil continua sendo um dos setores com maior risco de acidentes, figurando como o primeiro em casos de incapacidade permanente e o segundo em mortes. A taxa de mortalidade no setor chega a ser mais que o dobro da média nacional, alcançando 11,76 mortes para cada 100 mil vínculos, em comparação com a taxa geral de 5,21. Além do custo humano incalculável, há um impacto financeiro devastador: o retrabalho causado por falhas de qualidade pode representar até 20% do custo total de uma obra, e os índices de desperdício de materiais na construção civil brasileira frequentemente oscilam entre 30% e 40%.
É nesse cenário desafiador que profissionais como a engenheira Daphne Carolini Catunda Bispo estão desenvolvendo soluções inovadoras para democratizar a gestão de segurança e qualidade. Com uma sólida formação acadêmica que combina graduações em Ciência e Tecnologia e Engenharia Civil pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), além de mais de 990 horas de especialização avançada em Engenharia de Segurança Ocupacional e Gestão da Qualidade, Daphne representa uma nova geração de especialistas que compreendem a interdependência entre a física das construções e o comportamento humano no canteiro de obras. Sua trajetória inclui a atuação como docente universitária, onde lecionou disciplinas complexas como Resistência dos Materiais e Fenômenos de Transporte, fundamentando sua abordagem prática em rigor científico.
A engenheira desenvolveu uma metodologia pioneira de “Treinamento Bilateral”, que integra a liderança na cultura de segurança com o domínio da ciência da construção. O modelo parte da premissa de que a segurança e a qualidade não podem ser tratadas como disciplinas isoladas. Em seu artigo intitulado “A Integração de Sistemas de Gestão da Qualidade e Segurança Ocupacional na Construção Residencial: Uma Revisão Sistemática”, publicado após extensa pesquisa abrangendo o período de 2021 a 2025, Daphne evidencia que a construção residencial responde por impressionantes 20,2% dos incidentes totais da indústria, configurando-se como o subsetor de maior vulnerabilidade. A pesquisa demonstra que a integração de sistemas baseada nas normas ISO 9001:2015 e ISO 45001:2018 tem impactos significativos na redução de riscos e na melhoria da qualidade. Contudo, o estudo também aponta que barreiras críticas, como a escassez de recursos nas pequenas empresas e um clima organizacional inadequado, limitam severamente a implementação dessas normas. A transição de uma cultura puramente reativa para uma postura proativa emerge como o fator determinante para o sucesso operacional.
Para transpor essas barreiras nas pequenas construtoras, o modelo desenvolvido por Daphne foca na capacitação dos supervisores de obra, transformando-os em gestores de primeira linha tanto de segurança quanto de qualidade. O programa de certificação de supervisores aborda desde a psicologia do comportamento de risco até técnicas de correção não punitivas, além de preparar os profissionais para a comunicação em ambientes multiculturais. Essa abordagem cria um efeito multiplicador: em vez de depender de um único técnico de segurança (um custo muitas vezes proibitivo para microempresas), a liderança em segurança é diluída entre os supervisores que já estão no canteiro diariamente. Os resultados documentados dessa metodologia são expressivos, incluindo uma redução de 31% nos atos inseguros e acidentes envolvendo as equipes lideradas por esses supervisores capacitados.
A verificação da qualidade também sofre uma transformação radical na metodologia proposta pela especialista. Em vez de depender exclusivamente de inspeções visuais baseadas em checklists na fase final da obra — quando os erros já estão consolidados e sua correção é dispendiosa —, Daphne propõe uma verificação baseada na física da construção em três pontos críticos do cronograma. Utilizando equipamentos de diagnóstico de desempenho e documentação fotográfica geolocalizada, falhas no envelope da edificação, como problemas de isolamento térmico e barreiras de umidade, são identificadas precocemente. Essa detecção antecipada tem se mostrado capaz de prevenir entre 30 e 60 dias de atrasos causados por retrabalho em projetos residenciais, reduzindo significativamente os custos operacionais.
A importância dessa proatividade ganha contornos ainda mais críticos quando se analisa o mercado de habitação de interesse social e os projetos subsidiados pelo governo. Em seu segundo artigo de destaque, “Auditorias Pré-Inspeção na Conformidade com Padrões Federais de Qualidade Habitacional em Projetos Subsidiados: Uma Revisão Sistemática”, Daphne investiga o impacto das auditorias preventivas em programas como o Minha Casa, Minha Vida no Brasil e o Low-Income Housing Tax Credit (LIHTC) nos Estados Unidos. A pesquisa conclui que a identificação proativa de não conformidades antes das inspeções oficiais reduz substancialmente o risco de reprovações, acelerando a liberação de repasses governamentais. Mais do que garantir o fluxo de caixa das construtoras, essas auditorias pré-inspeção atuam como um mecanismo essencial de governança, mitigando o risco de perda de créditos tributários e assegurando que as habitações entregues à população vulnerável mantenham sua acessibilidade e durabilidade a longo prazo.
A realidade da construção civil brasileira exige que a discussão sobre segurança e qualidade transcenda os canteiros das grandes incorporadoras e alcance as fundações das pequenas construtoras que erguem a maior parte das residências do país. Quem paga a conta quando a obra vai mal não é apenas o empresário que arca com o retrabalho, mas o trabalhador que sofre o acidente e a família que recebe uma moradia com patologias construtivas latentes. Modelos de consultoria acessíveis e escaláveis, fundamentados em evidências científicas e focados na mudança comportamental e técnica das lideranças de campo, não são apenas uma inovação gerencial. Eles representam um caminho urgente e necessário para civilizar um segmento historicamente abandonado, provando que é possível construir com segurança e qualidade, independentemente do tamanho da empresa.

