Durante décadas, Geraldo Alckmin esteve no campo político oposto ao PT, fez duras acusações contra Lula e chegou a dizer que jamais apoiaria o partido. Anos depois, tornou-se vice-presidente justamente ao lado daquele que havia sido um de seus maiores adversários. A mudança alimenta críticas sobre coerência, pragmatismo e conveniência política.
A trajetória de Geraldo Alckmin é marcada por uma das mais emblemáticas reviravoltas da política brasileira recente. Ex-governador de São Paulo, fundador e integrante histórico do PSDB durante mais de três décadas, Alckmin construiu boa parte de sua carreira nacional no campo de oposição ao Partido dos Trabalhadores e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Hoje, porém, ocupa a Vice-Presidência da República ao lado do mesmo Lula que atacou duramente no passado.
A transformação política é tão profunda que antigas declarações do próprio Alckmin passaram a ser constantemente recuperadas por seus críticos para questionar: o que mudou — suas convicções ou suas conveniências políticas?
De adversário de Lula a integrante do governo
Alckmin e Lula foram adversários diretos na eleição presidencial de 2006. O então tucano chegou ao segundo turno contra o petista, que acabou reeleito.
Naquela campanha, corrupção, mensalão e ética pública estiveram entre os principais temas explorados por Alckmin contra o governo petista. Em uma de suas manifestações eleitorais, afirmou que o Brasil não poderia continuar perdendo tempo com denúncias de corrupção e mensalão.
A rivalidade política não terminou em 2006.
Mais de uma década depois, Alckmin continuava fazendo críticas contundentes a Lula e ao PT.
Em 2016, ao comentar as acusações que atingiam Lula naquele período, afirmou que o petista era o “retrato do PT” e associou o partido à corrupção e à falta de compromisso ético.
No ano seguinte, foi ainda mais contundente.
Ao assumir a presidência nacional do PSDB, em dezembro de 2017, Alckmin declarou:
“Depois de ter quebrado o Brasil, Lula diz que quer voltar ao poder. Ou seja, ele quer voltar à cena do crime.”
A declaração tornou-se particularmente simbólica depois da aproximação entre os dois.
“Jamais terão meu apoio”
Talvez nenhuma declaração exponha tanto a dimensão da mudança política de Alckmin quanto aquela feita durante a campanha presidencial de 2018.
Naquele momento, o então candidato do PSDB afastou qualquer possibilidade de aproximação com o PT e afirmou que o partido jamais teria seu apoio para retornar ao poder.
Alckmin dizia que pretendia recuperar empregos que, segundo ele, haviam sido destruídos pelos governos petistas e voltou a empregar a expressão “cena do crime” para atacar seus adversários.
A declaração era categórica: não haveria aliança.
Quatro anos depois, aconteceu exatamente o contrário.
Alckmin deixou o PSDB, partido ao qual esteve ligado durante 33 anos, filiou-se ao PSB e tornou-se candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Lula.
De “cena do crime” a “esperança”
A mudança no discurso foi impressionante.
Em março de 2022, durante sua filiação ao PSB e já caminhando para formar a chapa presidencial com Lula, Alckmin passou a fazer elogios ao antigo adversário.
O político que anos antes havia associado o retorno de Lula ao poder à “cena do crime” afirmou então que o petista representava a “esperança” do povo brasileiro.
Alckmin também passou a apresentar Lula como representante da democracia e argumentou que, apesar das disputas políticas do passado, ambos sempre haviam respeitado as instituições democráticas.
Para seus defensores, tratou-se de uma mudança legítima diante das circunstâncias políticas do país.
Para seus críticos, entretanto, a guinada evidencia uma contradição difícil de ignorar.
Se as acusações feitas por Alckmin contra Lula durante tantos anos eram sinceras, por que deixou de considerá-las impedimento para uma aliança?
E, se já não considerava verdadeiras ou relevantes aquelas acusações, quando e por que mudou de avaliação?
A justificativa da “frente ampla”
A explicação apresentada por Alckmin e pelos articuladores da chapa foi a necessidade de construir uma frente política ampla contra Jair Bolsonaro.
A presença do antigo tucano também tinha evidente importância eleitoral. Alckmin poderia funcionar como uma ponte de Lula com setores de centro, centro-direita, empresariado e agronegócio que mantinham resistência ao PT.
A própria Agência Brasil registrou que a escolha do ex-governador ajudaria a atrair setores mais conservadores e abrir portas entre segmentos críticos a Lula.
Portanto, a aliança possuía não apenas um significado institucional, mas também uma evidente utilidade eleitoral.
Foi justamente essa conveniência que alimentou críticas de adversários.
O passado de Alckmin no governo paulista
A análise da trajetória de Geraldo Alckmin também passa por seus longos períodos à frente do governo de São Paulo.
Alckmin governou o estado entre 2001 e 2006 e novamente entre 2011 e 2018. Durante esses períodos, enfrentou forte oposição do PT paulista e questionamentos relacionados a diferentes episódios de sua administração.
Entre eles estiveram as investigações sobre suspeitas de cartel envolvendo contratos do Metrô e da CPTM, episódio apelidado por adversários políticos de “trensalão”.
Também houve forte desgaste político provocado pela chamada Operação Alba Branca, que investigou suspeitas de fraude e pagamento de propina envolvendo contratos de merenda escolar. As investigações alcançaram contratos e órgãos ligados ao governo paulista, mas isso não significa que Alckmin tenha sido pessoalmente condenado pelos fatos investigados, distinção indispensável em uma análise jornalística responsável.
Outro episódio controverso foi a reintegração de posse da comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos, em 2012. A operação ficou marcada por denúncias de violações de direitos humanos e foi utilizada durante anos pelo PT como símbolo das críticas à política de segurança do governo Alckmin.
Curiosamente, muitos daqueles que durante anos apresentaram Alckmin como símbolo do projeto político tucano acabaram dividindo o mesmo palanque com ele em 2022.
Quando antigos adversários descobrem interesses comuns
A política permite alianças entre antigos adversários. Isso faz parte do processo democrático e não constitui, por si só, irregularidade ou prova de oportunismo.
Mas o caso Lula-Alckmin possui uma característica particular: não se tratava simplesmente de políticos pertencentes a partidos diferentes.
Durante anos, Alckmin questionou frontalmente a ética dos governos petistas, associou Lula à corrupção, responsabilizou o PT pela crise econômica e declarou publicamente que jamais ajudaria o partido a retornar ao poder.
Depois, não apenas apoiou esse retorno como participou dele.
E foi recompensado politicamente com uma posição de enorme relevância: tornou-se vice-presidente da República e, no governo Lula, também assumiu o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Isso não prova que a aliança tenha ocorrido exclusivamente “pelo poder”. Essa seria uma conclusão sobre motivação pessoal que não pode ser apresentada como fato sem evidências.
Mas é perfeitamente legítimo questionar politicamente quanto da aproximação representou mudança genuína de convicção e quanto representou pragmatismo eleitoral.
O PT também mudou seu discurso
A contradição não pertence apenas a Alckmin.
Durante os governos tucanos em São Paulo, o PT foi um dos principais adversários do então governador.
Petistas tentaram abrir CPIs, fizeram críticas sobre segurança pública, privatizações, Metrô, CPTM, Rodoanel e Pinheirinho e construíram durante anos uma narrativa política profundamente crítica ao PSDB paulista.
Quando a possibilidade de Alckmin tornar-se vice de Lula ganhou força, a própria ideia encontrou resistência dentro do PT. Dirigentes históricos como Rui Falcão e José Genoino participaram de movimentos contrários à composição.
Ainda assim, prevaleceu a estratégia eleitoral.
O antigo inimigo tornou-se aliado.
Uma aliança que merece ser permanentemente confrontada com o passado
Geraldo Alckmin tem todo o direito de mudar de opinião. Políticos podem rever posições, reconstruir relações e concluir que antigas diferenças devem ser superadas diante de novas circunstâncias.
Mas quem ocupa cargos públicos também precisa conviver com o registro de suas próprias palavras.
Quando um político afirma que determinado grupo representa corrupção, que jamais apoiará seu retorno ao poder e que o adversário pretende voltar à “cena do crime”, a sociedade tem o direito de perguntar o que aconteceu para que, poucos anos depois, esse mesmo adversário passe a ser apresentado como símbolo de “esperança”.
A história da aproximação entre Lula e Alckmin é, portanto, mais do que uma curiosidade eleitoral.
É um retrato do pragmatismo da política brasileira, em que adversários históricos podem se transformar em aliados quando os interesses eleitorais convergem.
Para Alckmin, a mudança significou deixar o partido que ajudou a construir, aproximar-se do campo político que combateu durante décadas e alcançar a Vice-Presidência da República.
Para Lula, significou incorporar à chapa um antigo adversário capaz de ampliar sua interlocução com o centro político e setores empresariais.
A aliança pode ser defendida como símbolo de conciliação democrática ou criticada como exemplo de conveniência política.
Mas uma coisa permanece registrada: antes de dividir o Palácio do Planalto com Lula, Geraldo Alckmin foi um dos políticos que mais duramente questionaram o PT e o próprio presidente que hoje acompanha no governo.
E essa contradição continuará fazendo parte de sua biografia política.


