Lula tenta o quarto mandato: trajetória, propostas para 2026 e os escândalos que marcaram sua história política

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Ex-metalúrgico e fundador do PT, Luiz Inácio Lula da Silva chega às eleições de 2026 buscando mais um mandato no Palácio do Planalto. Sua trajetória reúne forte influência política, programas sociais de grande alcance, três passagens pela Presidência, prisão e condenações posteriormente anuladas, além de escândalos de corrupção que atingiram dirigentes, aliados e integrantes de governos petistas.

Luiz Inácio Lula da Silva é novamente candidato à Presidência da República. Aos 80 anos durante a campanha de 2026, o petista tenta conquistar nas urnas um quarto mandato, depois de governar o Brasil entre 2003 e 2010 e retornar ao Palácio do Planalto em janeiro de 2023.

O PT oficializou sua candidatura à reeleição e apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral um programa de governo com cerca de 80 páginas e 13 grandes eixos.

A candidatura coloca novamente diante do eleitor duas dimensões inseparáveis da trajetória de Lula: de um lado, programas sociais, políticas de valorização da renda e sua capacidade de mobilização popular; de outro, crises econômicas e políticas, acusações de corrupção, a Operação Lava Jato e escândalos que atingiram figuras importantes do PT e de seus governos.

De retirante nordestino a presidente

Nascido em Garanhuns, Pernambuco, em 1945, Lula mudou-se ainda criança com a família para São Paulo. Tornou-se metalúrgico e ganhou projeção nacional como líder sindical no ABC paulista durante as grandes greves do final da década de 1970.

Participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, e tornou-se uma das principais lideranças da esquerda brasileira.

Após derrotas nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998, Lula venceu a disputa de 2002. Governou por dois mandatos, de 2003 a 2010, e deixou a Presidência com elevada popularidade.

Depois de permanecer fora do Planalto por 12 anos, voltou ao cargo após derrotar Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. Agora, em 2026, disputa novamente a Presidência.

O que Lula faz atualmente

Lula exerce atualmente a Presidência da República e, simultaneamente, participa da campanha pela reeleição, dentro dos limites estabelecidos pela legislação eleitoral.

Seu terceiro mandato foi marcado pela retomada e reformulação de programas sociais, pelo Novo PAC, pela recriação do Bolsa Família, pela política permanente de valorização do salário mínimo, pela ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e pelo programa Pé-de-Meia, entre outras iniciativas.

Ao mesmo tempo, o governo enfrenta críticas relacionadas à situação fiscal, ao crescimento da dívida pública, ao endividamento das famílias, às filas do INSS e à condução das contas públicas — temas que passaram a ocupar espaço importante na campanha presidencial de 2026.

O que Lula promete para um novo mandato

O programa apresentado para as eleições de 2026 está dividido em 13 eixos e coloca entre suas prioridades a redução das desigualdades, segurança pública, educação, saúde, desenvolvimento econômico, meio ambiente, trabalho e soberania nacional.

Na economia, Lula promete manter o atual arcabouço fiscal, controlar o crescimento das despesas e buscar melhores resultados para as contas públicas principalmente por meio do crescimento econômico, da eficiência do gasto e da chamada justiça tributária. O programa também defende condições para uma redução sustentada dos juros.

Na segurança pública, uma das principais propostas é criar um Ministério da Segurança Pública, condicionado à aprovação da PEC da Segurança Pública. Lula também defende maior integração entre União, estados e municípios, fortalecimento da inteligência policial, combate financeiro às organizações criminosas, controle de armas e ampliação da capacidade do sistema penitenciário federal.

Na educação, promete ampliar o ensino em tempo integral, combater o analfabetismo de adultos, expandir institutos federais e educação técnica, fortalecer a formação de professores e implementar projetos como a Universidade Indígena e a Universidade do Esporte.

Na saúde, o programa prevê ampliação das equipes multiprofissionais, expansão da saúde digital, avanço de um prontuário nacional integrado, fortalecimento da saúde bucal e ampliação do Farmácia Popular.

Lula também defende mudanças relacionadas à jornada de trabalho e ao debate sobre o fim da escala 6×1, além da regulamentação das plataformas digitais e da inteligência artificial, políticas ambientais e de transição energética e mudanças no sistema de emendas parlamentares.

Parte dessas propostas, entretanto, representa compromissos que já apareceram anteriormente. A criação de um Ministério da Segurança Pública separado, por exemplo, estava entre compromissos anteriores e não foi concluída durante o atual mandato, reaparecendo agora no programa de 2026.

Mensalão: o primeiro grande escândalo dos governos Lula

Um dos episódios mais graves do primeiro período de Lula no poder foi o Mensalão, revelado em 2005.

O esquema envolveu integrantes da cúpula petista e aliados políticos e terminou com condenações pelo Supremo Tribunal Federal. Entre os condenados estavam nomes de grande influência no PT e no governo, como o ex-ministro José Dirceu e o ex-presidente do partido José Genoino.

Lula não foi réu nem condenado na Ação Penal 470, mas o episódio atingiu diretamente seu primeiro governo e provocou uma das maiores crises políticas de sua administração.

Petrobras, Petrolão e Lava Jato

Anos depois, outro gigantesco esquema de corrupção atingiu a Petrobras, grandes empreiteiras, operadores financeiros e políticos de diferentes partidos.

A Operação Lava Jato revelou mecanismos de pagamento de propinas relacionados a contratos da estatal. O escândalo atingiu profundamente o PT, embora as investigações e processos tenham alcançado políticos e partidos de diferentes campos ideológicos.

Foi nesse contexto que Lula acabou investigado e processado.

Triplex, sítio de Atibaia e a prisão de Lula

Lula foi condenado no processo envolvendo o triplex do Guarujá pelo então juiz Sergio Moro. Posteriormente, também recebeu condenação no caso do sítio de Atibaia.

Em abril de 2018, após confirmação de sua condenação em segunda instância no caso do triplex, Lula foi preso e permaneceu 580 dias na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

Sua situação jurídica, entretanto, mudou posteriormente.

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal confirmou a decisão que declarou a 13ª Vara Federal de Curitiba incompetente para julgar processos envolvendo Lula. Com isso, foram anuladas as condenações referentes aos processos do triplex, sítio de Atibaia e Instituto Lula.

É importante fazer uma distinção jurídica: as condenações foram anuladas por questões processuais e de competência; o STF não realizou, naquela decisão, um julgamento de mérito declarando que os fatos nunca ocorreram.

No processo do triplex, houve ainda outra decisão relevante: o STF confirmou a suspeição de Sergio Moro, entendendo que o então juiz agiu com parcialidade na condução daquela ação. Todas as decisões de Moro naquele processo foram anuladas.

Portanto, afirmar simplesmente que “Lula continua condenado” seria incorreto. Da mesma maneira, resumir toda a questão dizendo apenas que ele foi “absolvido de todas as acusações” não explica adequadamente o que ocorreu juridicamente.

Atualmente, aquelas condenações não possuem validade jurídica e Lula recuperou seus direitos políticos.

Corrupção volta ao centro da campanha de 2026

O tema voltou a ganhar força durante a atual campanha por causa de investigações envolvendo pessoas próximas ao presidente e, principalmente, seu filho Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha.

Reportagens publicadas em agosto informaram que a Polícia Federal investiga suspeitas de tráfico de influência envolvendo Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger e empresários interessados em contratos públicos.

Segundo informações das investigações divulgadas pela imprensa, a PF identificou indícios de interesses econômicos compartilhados entre Lulinha, Roberta Luchsinger e o empresário Fernando Bittar. A defesa de Fábio Luís nega irregularidades e sustenta que não existem provas de crimes praticados por ele.

Nesta semana, novas informações reveladas pela imprensa indicaram que um empresário teria pago quase R$ 3 milhões à consultoria de Roberta Luchsinger enquanto empresas ligadas a ele buscavam contratos com o governo federal. A Polícia Federal investiga se houve favorecimento ilícito. Os envolvidos negam irregularidades.

Até o momento, essas informações representam suspeitas e investigações, não condenações de Lula ou de seu filho.

O próprio presidente afirmou nesta quinta-feira (27) que as acusações contra Lulinha seriam baseadas em “ilações”, disse que não interferirá nas investigações da Polícia Federal e declarou que qualquer pessoa que tenha cometido irregularidades deverá responder por seus atos.

Um candidato conhecido — e altamente polarizador

Poucos candidatos chegam a uma eleição presidencial brasileira carregando uma trajetória tão extensa quanto Lula.

Seus apoiadores destacam redução da pobreza em seus primeiros governos, expansão das universidades e institutos federais, políticas de valorização do salário mínimo, Bolsa Família, investimentos públicos e maior protagonismo internacional do Brasil.

Seus críticos apontam os grandes escândalos ocorridos durante administrações petistas, a responsabilidade política pela escolha de ministros e dirigentes envolvidos em esquemas de corrupção, problemas fiscais do atual governo e questionam a capacidade de Lula de representar uma renovação depois de décadas ocupando o centro da política nacional.

Essa dualidade deverá ser explorada intensamente durante a campanha.

O próprio início da propaganda eleitoral mostra uma disputa concentrada tanto no legado dos governos anteriores quanto nos problemas atuais. A campanha de Lula pretende destacar programas como Minha Casa, Minha Vida e Pé-de-Meia e apresentar suas realizações como argumento para um novo mandato.

Eleições de 2026 serão novo julgamento político de Lula

Mais de quatro décadas depois de ajudar a fundar o PT, Lula continua sendo o principal nome da esquerda brasileira e um dos políticos mais influentes da história recente do país.

Sua candidatura de 2026 apresenta ao eleitor um personagem político com enorme experiência, mas também com uma extensa bagagem de controvérsias.

Lula chega às urnas carregando simultaneamente o legado dos programas sociais que marcaram seus governos, os resultados de sua atual administração, as dificuldades econômicas enfrentadas pelo país e a memória de escândalos que marcaram as gestões petistas.

Também retorna ao debate sua passagem pela prisão e a complexa sequência de decisões judiciais que anulou suas condenações e reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no processo do triplex.

Agora, caberá ao eleitor avaliar não apenas o passado do candidato, mas principalmente se as propostas apresentadas para um eventual quarto mandato oferecem respostas para problemas atuais como segurança pública, equilíbrio fiscal, saúde, educação, geração de emprego, produtividade e custo de vida.

Nas eleições de 2026, Lula não disputa apenas mais quatro anos no Palácio do Planalto. Disputa novamente a avaliação popular sobre seu próprio legado político — suas realizações, seus erros, as controvérsias de seus governos e o projeto de país que pretende deixar depois de mais de quatro décadas no centro da política brasileira.

 

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