Ex-prefeito da capital tenta chegar ao Palácio Guanabara pela terceira vez, defendendo experiência administrativa e prometendo priorizar segurança, transportes, saúde e recuperação da gestão estadual; trajetória também é marcada por investigações, acusações e embates judiciais
Eduardo Paes, um dos políticos mais conhecidos do Rio de Janeiro nas últimas décadas, está novamente diante do desafio de transformar sua forte presença política na capital em votos em todo o estado. Aos 56 anos, o ex-prefeito do Rio disputa em 2026 o Governo do Estado pelo PSD, tendo Jane Reis, do MDB, como candidata a vice.
Esta é a terceira tentativa de Paes de chegar ao Palácio Guanabara. Ele disputou o governo em 2006, quando Sérgio Cabral venceu a eleição, e novamente em 2018, quando chegou ao segundo turno, mas acabou derrotado por Wilson Witzel.
Agora, retorna à disputa apresentando como principal cartão de visitas sua experiência administrativa na Prefeitura do Rio. Ao mesmo tempo, adversários procuram explorar antigos vínculos políticos, investigações, delações e controvérsias que acompanharam sua longa trajetória na vida pública.
Quem é Eduardo Paes?
Nascido no Rio de Janeiro, Eduardo da Costa Paes é formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e possui especialização em Políticas Públicas e Governo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Sua trajetória política começou ainda nos anos 1990. Paes foi subprefeito durante a administração de Cesar Maia e posteriormente construiu uma carreira que incluiu mandatos como vereador e deputado federal, além da passagem por secretarias públicas. Também foi secretário durante o governo estadual de Sérgio Cabral.
A principal marca de sua carreira, entretanto, está na Prefeitura do Rio.
Paes foi eleito prefeito pela primeira vez em 2008 e reeleito em 2012. Depois de deixar o cargo e passar alguns anos fora do comando municipal, retornou ao Palácio da Cidade ao vencer as eleições de 2020. Em 2024, conquistou mais um mandato.
Ao todo, foi eleito quatro vezes prefeito da capital, tornando-se o político que permaneceu por mais tempo no comando da Prefeitura do Rio.
O que Eduardo Paes fez como prefeito?
A administração de Paes ficou marcada principalmente por grandes intervenções urbanísticas, expansão de corredores de transporte e pela realização de eventos internacionais.
Durante suas gestões, o Rio recebeu a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016. O período foi acompanhado por grandes obras de infraestrutura e transformação urbana.
Entre os projetos associados às suas administrações estão o Porto Maravilha, a implantação e expansão do sistema BRT, intervenções na mobilidade urbana e a revitalização de diferentes regiões da cidade.
Em sua passagem mais recente pela prefeitura, Paes também colocou em funcionamento o BRT Transbrasil e o Terminal Intermodal Gentileza, além de promover a recuperação do corredor Transoeste.
Na saúde, uma das vitrines de sua administração foi o Super Centro Carioca de Saúde, em Benfica. Na educação, a prefeitura investiu nos Ginásios Educacionais Tecnológicos, os GETs.
Sua administração também voltou a apostar na realização de grandes eventos internacionais como instrumento de projeção econômica e turística da cidade, entre eles o encontro do G20.
Da Prefeitura para o Governo do Estado
A candidatura de 2026 trouxe uma das principais controvérsias políticas recentes envolvendo Eduardo Paes.
Durante a campanha municipal de 2024 e posteriormente, Paes afirmou repetidas vezes que permaneceria na Prefeitura até o fim do mandato.
Em janeiro de 2026, porém, anunciou que deixaria o cargo para disputar o Governo do Estado.
A mudança de posição passou a ser explorada por adversários, que acusam Paes de ter descumprido um compromisso firmado com o eleitor carioca. Paes, por sua vez, passou a argumentar que a situação do estado e a possibilidade de contribuir para sua recuperação justificavam a candidatura.
O que Paes promete fazer como governador?
A segurança pública aparece como um dos principais pilares de seu discurso.
Paes defende uma reorganização da estrutura estadual de segurança. Entre as propostas apresentadas durante a campanha está a centralização da área em uma única Secretaria de Segurança Pública, reunindo sob uma coordenação estratégica as polícias Civil e Militar, embora mantendo autonomia orçamentária para as corporações.
Ele também admite integrar a administração penitenciária a essa estrutura.
O candidato afirma que pretende reduzir a influência de indicações políticas no comando de batalhões, delegacias e órgãos de segurança.
Sua proposta para combater facções criminosas e milícias combina operações policiais, inteligência, investigação financeira e ocupação permanente dos territórios recuperados.
A ideia defendida por Paes é que o Estado não apenas realize operações temporárias, mas consiga permanecer nas regiões retomadas, oferecendo policiamento e serviços públicos.
Combate às facções e recuperação de territórios
O avanço do crime organizado tornou-se um dos temas centrais da eleição fluminense.
Paes vem adotando discurso de enfrentamento às organizações criminosas e afirma que pretende recuperar áreas hoje controladas por traficantes e milicianos.
Na convenção que oficializou sua candidatura, declarou que o Estado deveria voltar a exercer autoridade sobre todo o território fluminense.
A segurança, portanto, deverá ser um dos principais testes para sua candidatura: enquanto Paes tenta apresentar experiência administrativa como solução para o problema, adversários questionam sua capacidade de enfrentar uma área que é responsabilidade direta do Governo do Estado e possui características muito diferentes da gestão municipal.
Transportes: Linha 3 do Metrô entre as promessas
Outra promessa de destaque é finalmente tirar do papel a Linha 3 do Metrô, projeto discutido há décadas para atender principalmente Niterói, São Gonçalo e Itaboraí.
Na convenção do PSD, Paes afirmou que pretende avançar com a Linha 3 e recuperar as estradas estaduais.
Também foram divulgadas propostas relacionadas à recuperação do sistema ferroviário e à expansão de corredores de transporte coletivo para a Região Metropolitana.
É importante observar, entretanto, que levantamentos realizados durante a campanha encontraram dificuldades para localizar uma versão oficial e consolidada do plano de governo de Paes com todas as propostas detalhadas. Por isso, parte das medidas atribuídas à candidatura vem de entrevistas e declarações públicas do próprio candidato.
Saúde: hospitais regionais
Na saúde, Paes defende descentralizar os investimentos e ampliar o atendimento fora da capital.
Entre as medidas apresentadas está a criação de hospitais regionais, com o objetivo de diminuir a necessidade de moradores do interior e da Região Metropolitana viajarem grandes distâncias em busca de atendimento especializado.
O candidato também defende uma distribuição mais equilibrada dos recursos estaduais destinados à saúde.
Educação
Na educação, Paes afirma que pretende melhorar os indicadores de aprendizagem da rede estadual e elevar o desempenho do Rio de Janeiro no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb.
O discurso procura levar para o estado experiências administrativas utilizadas na capital, embora a dimensão e as características da rede estadual representem um desafio diferente daquele enfrentado pela prefeitura.
Controvérsias, investigações e processos
A extensa carreira de Eduardo Paes também foi acompanhada por acusações e investigações. Nesse ponto, é fundamental distinguir acusação, investigação, processo e condenação definitiva.
Uma das principais frentes surgiu a partir das delações de executivos da Odebrecht.
Paes e o deputado federal Pedro Paulo foram investigados em inquérito aberto em 2017 relacionado a supostas doações eleitorais ilegais na campanha de 2014.
Em março de 2024, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, negou naquele momento um pedido de arquivamento apresentado pelas defesas e concedeu mais prazo para a conclusão das investigações.
A situação, porém, mudou posteriormente.
Em março de 2025, depois de aproximadamente oito anos de tramitação, o inquérito foi arquivado pelo STF, em decisão do ministro André Mendonça seguindo parecer da Procuradoria-Geral da República.
A investigação apurava um suposto pagamento de R$ 300 mil em caixa dois para a campanha de Pedro Paulo em 2014 que, segundo relato de ex-executivo da Odebrecht, teria sido intermediado por Paes.
Parte importante da controvérsia jurídica envolvia as provas oriundas dos sistemas da Odebrecht, posteriormente consideradas imprestáveis em decisões do Supremo.
Caixa dois, OAS e Justiça Eleitoral
Eduardo Paes também foi alvo de acusações relacionadas à eleição municipal de 2012.
Em julho de 2024, a Segunda Turma do STF decidiu que processos nos quais Paes era acusado de caixa dois eleitoral e corrupção passiva deveriam ser enviados para a Justiça Eleitoral.
O Supremo declarou a incompetência da 7ª Vara Federal Criminal do Rio para analisar aqueles casos e anulou as decisões tomadas naquele juízo.
Segundo o STF, os fatos narrados estavam diretamente relacionados a supostos ilícitos eleitorais. Entre as obras mencionadas nos relatos de colaboradores estavam o Museu do Amanhã e o Porto Maravilha.
Anteriormente, em 2022, o então ministro Ricardo Lewandowski já havia suspendido ações e procedimentos envolvendo Paes, Pedro Paulo e o ex-ministro Paulo Bernardo ao considerar que as denúncias estavam fundamentadas em elementos probatórios posteriormente considerados imprestáveis pelo Supremo.
Inelegibilidade foi anulada pelo TSE
Outro episódio importante ocorreu na Justiça Eleitoral.
Paes e Pedro Paulo chegaram a ser condenados pelo TRE-RJ à inelegibilidade por oito anos por abuso de poder econômico e político e conduta vedada relacionada às eleições municipais de 2016.
Entretanto, em fevereiro de 2021, o Tribunal Superior Eleitoral reformou a decisão e anulou a inelegibilidade de Eduardo Paes e Pedro Paulo.
Portanto, embora o episódio faça parte de sua trajetória judicial, não é correto apresentar aquela condenação regional como uma inelegibilidade atualmente válida.
Relação política com Sérgio Cabral
Outro ponto frequentemente explorado pelos adversários é a relação histórica de Paes com o grupo político do ex-governador Sérgio Cabral.
Paes ocupou cargo no governo Cabral e, durante diferentes momentos de sua trajetória, integrou o mesmo campo político que governou o Rio.
Com as condenações por corrupção que posteriormente atingiram Cabral e integrantes de seu governo, essa proximidade passou a ser utilizada pelos adversários de Paes.
Na campanha de 2026, o candidato Douglas Ruas, do PL, prepara justamente uma estratégia de associar Paes aos governos de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, classificando o ex-prefeito como representante da chamada “velha política”.
A associação política, entretanto, não significa responsabilidade automática de Paes pelos crimes pelos quais outros integrantes daqueles governos foram investigados ou condenados.
Obras também enfrentaram questionamentos
A administração municipal de Paes ainda enfrentou questionamentos de órgãos de controle.
Em 2025, por exemplo, uma vistoria do Tribunal de Contas do Município apontou indícios de pagamentos superiores aos serviços efetivamente realizados nas obras do anel viário de Campo Grande, principal empreendimento de infraestrutura daquele período da administração.
A Secretaria Municipal de Infraestrutura afirmou que os apontamentos eram discutidos com o Tribunal e que eventuais valores considerados incorretos poderiam ser descontados dos pagamentos à empreiteira.
Esse tipo de apontamento administrativo também precisa ser diferenciado de uma condenação criminal pessoal do então prefeito.
Acusações entram no centro da campanha de 2026
A disputa eleitoral fluminense também passou a ser marcada por acusações envolvendo supostos vínculos de políticos com organizações criminosas.
Em agosto, adversários de Paes passaram a levantar questionamentos sobre supostas relações políticas com pessoas associadas a milicianos e contraventores. O deputado Carlos Jordy chegou a pedir a impugnação de sua candidatura com base nessas alegações.
As acusações fazem parte de uma guerra política mais ampla na eleição fluminense, na qual Paes também acusa adversários e antigos integrantes do governo estadual de permitirem a infiltração do crime organizado no poder público.
Até o momento, essas alegações devem ser tratadas jornalisticamente como acusações apresentadas por adversários e objeto de disputa eleitoral, e não como fatos criminosos definitivamente comprovados contra o candidato.
Experiência administrativa contra o desgaste da longa carreira política
A candidatura de Eduardo Paes apresenta ao eleitor fluminense duas imagens que deverão disputar espaço ao longo da campanha.
De um lado está o administrador experiente, quatro vezes eleito prefeito da maior cidade do estado, responsável por grandes projetos urbanos, obras de mobilidade e pela organização de eventos internacionais.
Do outro está um político com décadas de vida pública, que passou por diferentes partidos e grupos políticos e cujo nome apareceu em investigações, delações e processos — vários deles posteriormente arquivados, anulados, suspensos ou remetidos a outras instâncias.
Há ainda o desgaste provocado pela decisão de deixar a Prefeitura do Rio para disputar o governo depois de ter prometido concluir o mandato iniciado em 2025.
A terceira tentativa de chegar ao Palácio Guanabara
Para Eduardo Paes, a eleição de 2026 representa mais do que uma nova disputa eleitoral. É sua terceira tentativa de comandar o Estado do Rio de Janeiro.
Desta vez, chega à corrida como um dos principais nomes da eleição. Pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto apontou Paes com 41% das intenções de voto, contra 19% de Douglas Ruas e 9% de Anthony Garotinho no cenário pesquisado. Considerados apenas os votos válidos, Paes aparecia com 51%. A pesquisa representa apenas o retrato daquele momento da campanha e não uma previsão do resultado eleitoral.
O desafio do candidato será convencer o eleitor de que a experiência adquirida administrando a capital pode ser reproduzida em um estado que enfrenta problemas graves de segurança pública, crise fiscal, transporte metropolitano deficiente e dificuldades nos serviços de saúde e educação.
Seus adversários, por outro lado, tentarão transformar justamente sua longa trajetória política em ponto vulnerável, recuperando alianças do passado, investigações e promessas não cumpridas.
Entre realizações, controvérsias e propostas ambiciosas, Eduardo Paes chega à eleição de 2026 como um dos protagonistas da disputa pelo futuro político do Rio de Janeiro — e caberá ao eleitor avaliar se sua experiência na capital representa a solução para os problemas estaduais ou se sua trajetória carrega um passado político que merece ser colocado sob escrutínio.


