O engenheiro que trouxe os segredos da Toyota para a oficina: como a indústria automobilística está reinventando o conserto de carros

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Por Mara Costa.

Com vinte e um anos de atuação na Toyota do Brasil, Jonathas de Oliveira da Cruz aplica metodologias como e-kanban, Kaizen e gestão industrial de alta performance para transformar o atendimento em oficinas. O objetivo é eliminar filas, desperdícios e falhas de qualidade com a mesma precisão de uma linha de montagem japonesa. A sua trajetória profissional é marcada por números expressivos, destacando-se seus vinte e um anos de experiência na Toyota do Brasil, onde manteve um histórico impecável de zero acidentes sob sua gestão e zero defeitos no pós-processo.

Imagine entrar em uma oficina mecânica e encontrar no balcão não apenas um mecânico, mas alguém que passou mais de duas décadas coordenando a produção de uma das maiores montadoras do mundo. Essa é a premissa que Jonathas de Oliveira da Cruz, natural de São Paulo e atualmente radicado em Orlando, Flórida, traz consigo para o setor de reparação automotiva nos Estados Unidos.

Jonathas carrega na bagagem 21 anos de Toyota do Brasil — uma das operações mais eficientes da indústria automotiva global — onde atuou como coordenador de produção na planta de Indaiatuba, interior de São Paulo. Agora, ele aplica essa expertise em um mercado que raramente vê profissionais com essa formação: o de oficinas mecânicas.

“Na linha de produção da Toyota, um segundo desperdiçado é um problema de sistema. Numa oficina, é um carro parado a mais no pátio, um cliente insatisfeito, uma receita perdida.”

— Jonathas de Oliveira da Cruz, ex-coordenador de produção da Toyota do Brasil

O que o e-kanban tem a ver com o seu carro?

Para quem nunca ouviu falar de e-kanban, a explicação é simples: trata-se de um sistema visual de gestão de fluxo de trabalho, desenvolvido originalmente pela Toyota nas décadas de 1940 e 1950, que garante que cada tarefa avance em um ritmo predeterminado, sem acúmulos, sem gargalos e sem surpresas. Dentro de uma grande montadora, ele controla o movimento de peças entre estações. Dentro de uma oficina mecânica, pode controlar o fluxo de ordens de serviço — do diagnóstico até a entrega.

“Quando o cliente deixa o carro, aquela ordem de serviço entra num fluxo. Se você não gerencia esse fluxo visualmente, você começa a perder o controle: a peça não chegou, o mecânico está esperando, o carro fica parado. O kanban elimina esse tempo morto”, explica Jonathas.

Esse fluxo e-kanban foi adaptado para o atendimento em oficinas mecânicas de forma sequencial e organizada. O processo se inicia na fase de entrada, onde é realizado o diagnóstico e a triagem do veículo. Em seguida, o trabalho passa para a etapa em andamento, caracterizada pelo reparo com as peças já em rota. A terceira fase consiste na revisão, momento em que um checklist de qualidade é rigorosamente aplicado. Por fim, chega-se à entrega, concluindo o ciclo com o cliente sendo devidamente notificado.

Kaizen: a filosofia que nunca para de melhorar

Se o e-kanban é a espinha dorsal operacional, o Kaizen — palavra japonesa que significa “mudança para melhor” — é a filosofia que impulsiona a evolução contínua do processo. Na Toyota, Jonathas praticava o Kaizen identificando movimentos ergonômicos que poderiam prejudicar a saúde dos colaboradores, eliminando etapas desnecessárias e reduzindo custos sem comprometer a qualidade.

Em uma oficina, o Kaizen se traduz em perguntas simples, mas poderosas: por que o mecânico precisa andar 30 metros para buscar uma ferramenta? Por que a lista de verificação de entrega do veículo é feita manualmente em papel? Por que o cliente não é notificado em tempo real sobre o andamento do seu carro? Cada uma dessas ineficiências, quando eliminada, representa tempo, dinheiro e satisfação recuperados.

Da linha de produção ao diagnóstico automotivo

A trajetória de Jonathas começou em fevereiro de 2000, quando foi contratado pela Toyota do Brasil em Indaiatuba. Ao longo de duas décadas, coordenou operações de estamparia — o processo de prensagem de chapas metálicas que dão forma às carrocerias —, gerenciou equipes, implantou programas de segurança que zeraram os acidentes no setor, e desenvolveu líderes internos para novas competências de gestão.

Tecnólogo em Gestão da Produção Industrial pela Uninter e membro da American Management Association (AMA), ele também é certificado em operação de equipamentos industriais pesados e conta com formações em segurança do trabalho, metodologia TWI (Training Within Industry) e o programa interno Toyota Leadership Development — uma trilha de formação de lideranças raras fora do ambiente das montadoras.

“O diferencial não é só saber consertar o carro. É saber organizar o processo para que o carro seja consertado certo, na hora certa, por quem está bem treinado para fazer isso.”

— Jonathas de Oliveira da Cruz

 O lado humano da equação

O que distingue Jonathas de um simples gestor técnico é a forma como ele integra a dimensão humana à sua visão industrial. Durante o Toyota Leadership Development, aprendeu que produtividade e bem-estar dos colaboradores não são conceitos opostos — são interdependentes. Por nove anos consecutivos, participou voluntariamente da campanha “Natal sem fome”, coordenando a arrecadação e distribuição de alimentos e brinquedos para comunidades carentes de Sorocaba.

“Lidero com humanidade, gratidão e inspiração. Quando as pessoas se sentem respeitadas no ambiente de trabalho, elas entregam mais. Isso não é teoria — é o que vivi durante 21 anos na maior montadora do mundo”, resume.

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