Deboche no Congresso e o preço da impunidade

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A cena protagonizada por parlamentares do Partido dos Trabalhadores em meio às discussões da CPMI do INSS não é apenas um episódio isolado de mau gosto político — é um retrato incômodo de uma cultura que insiste em desafiar a paciência do cidadão brasileiro.

O deboche, quando parte de quem ocupa cargos públicos, deixa de ser apenas uma atitude individual e passa a carregar um simbolismo perigoso. Ele comunica desprezo. Desprezo pelas denúncias, pelas investigações e, sobretudo, por quem espera respostas. Em um país onde milhões enfrentam a dureza da lei por infrações muito menores, assistir a esse tipo de comportamento reforça a sensação de que existem dois pesos e duas medidas.

A indignação popular não nasce do nada. Ela é construída, pouco a pouco, a cada episódio em que representantes eleitos parecem mais preocupados em proteger interesses do que em esclarecer fatos. Quando parlamentares tratam uma comissão de investigação como palco para ironias, o recado que chega à sociedade é devastador: a política pode estar mais comprometida com narrativas do que com a verdade.

E aqui está o ponto central que muitos preferem evitar — a normalização. Quando o absurdo vira rotina, ele perde a capacidade de chocar. E é exatamente nesse terreno que a impunidade prospera. Não é apenas sobre um partido ou um grupo político específico, mas sobre um sistema que, vez ou outra, parece testar até onde vai a tolerância do brasileiro.

A história mostra que nenhuma democracia se sustenta sem vigilância popular. Cobrança constante, memória ativa e voto consciente não são slogans — são ferramentas reais de transformação. Quando o eleitor esquece, o ciclo se repete. Quando ignora, ele se fortalece.

O episódio recente não deveria ser visto como mais um capítulo a ser superado rapidamente no noticiário. Ele precisa servir como alerta. Porque, no fim das contas, o comportamento de quem está no poder reflete, em grande medida, o nível de exigência de quem está fora dele.

Se há uma resposta possível, ela não virá de discursos inflamados ou de disputas ideológicas vazias. Virá da sociedade. De uma população que decide não aceitar o deboche como norma e que entende que, em uma democracia, o silêncio também é uma forma de consentimento.

Por Marcos Soares – Jornalista – Analista Político

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